As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Grupo de ação social é ‘enclave chavista’ em área de classe média

Felipe Corazza

12 de abril de 2014 | 02h10

Denise Chrispim Marin
Enviada especial a Caracas

No coração de Chacao, município de classe média da grande Caracas, há um coletivo. O grupo controla um barracão de 7.612 metros quadrados, com telhas de zinco e pouca ventilação, onde funcionou até 2008 o mercado municipal. Cerca de 95% dos antigos comerciantes mudou-se para o mercado novo, construído com tijolinhos à vista no terreno ao lado pelo então prefeito de Chacao Leopoldo López, o líder do partido de oposição Vontade Popular preso desde 18 de fevereiro. No velho barracão estão apenas 28 remanescentes e novos vendedores, sob o comando do coletivo La Dignidad.

Carlos Rodríguez, o Borola, está no comando do coletivo, que já teve outros nomes nos seus mais de 40 anos de história. Seu projeto é atrair para o mercado velho comerciantes dispostos a vender frutas e comidas típicas venezuelanas até o final do ano. Boa parte dos pontos está para ser ocupada por comerciantes novatos ou experientes. O principal critério para adquirir um ponto, segundo um deles, é o apreço ao governo de Nicolás Maduro e à revolução bolivariana.

Mas a estrutura do prédio se mostra debilitada pelo tempo, a limpeza é precária e os recursos são escassos, provenientes da gestão do estacionamento. Poucos são os fregueses que preferem o velho ao novo mercado, limpo e organizado. E além do mais há as regras do coletivo.

O mercado funciona de quarta-feira a domingo das 5h30 às 15h. Na terça-feira, não há descanso. Às 14h, os 28 comerciantes estão convocados para para uma reunião consumida principalmente pela doutrinação política, nos últimos dois meses exacerbada por causa dos protestos da oposição. Um deles disse cochilar com frequência nesses encontros, outro afirmou que sublima e pensa no que tem a fazer depois. Cada um precisa manter o seu ponto, sobre o qual não incide nenhuma tarifa. Só o compromisso com o coletivo.

Dono de uma barraca de verduras, legumes e ovos, Luís Gafaro e sua mulher María del Carmen afirmam não ter problemas de pagar uma cota para ficar no mercado velho. Luís não frequenta o coletivo, mas mantem uma relação cordial com seus integrantes. Seu problema é com o mercado novo, onde suas duas filhas têm pontos comerciais. “Nunca fui visitar o outro mercado. Não engoli ainda a promessa que nos fizeram de reformar aqui em vez de construir um outro”, afirmou Gafaro. “Não quero ver Leopoldo López nem pintado de ouro.”

Rodríguez nutre também rancor para com Leopoldo López, por culpá-lo pelo seu projeto de derrubar o mercado velho para construir um centro cultural no lugar. O barracão está em pé porque o coletivo entrou com ação na Justiça, alegando irregularidades na construção do novo mercado e seu direito histórico de permanecer no lugar, e permaneceu em vigília dentro do prédio quando o queriam derrubar. O mercado velho tem 73 anos, mas sua origem remonta à época colonial. “Estamos em litígio. Então, temos de proteger o mercado, velar por ele e vender mercadorias”, diz Rodríguez, cuja família tinha um ponto de venda de verduras.

Tudo o que sabemos sobre:

Caracaschavismocoletivos

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.