“Há grupos e cúpulas demais na América Latina”, diz Insulza
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“Há grupos e cúpulas demais na América Latina”, diz Insulza

Marcelo de Moraes

25 de março de 2010 | 00h10

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O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, foi reeleito hoje para um novo mandato de cinco anos. Insulza comandou a organização num período marcado por fortes divisões regionais em torno de temas como o golpe em Honduras e a possibilidade do fim do embargo a Cuba, com um possível retorno dos cubanos à OEA. Outro ponto polêmico foi a formação de “um novo clube” latino-americano, que exclui os Estados Unidos, a chamada (informalmente) ‘OEAdoB’. Nesta entrevista exclusiva ao Estado, ele fala da relevância da OEA num contexto de proliferação de organismos multilaterais (Grupo do Rio, CAN, Mercosul, Unasul etc) e numa ordem internacional que simplesmente ignora suas resoluções, como aconteceu no caso hondurenho e como acontece permanentemente com relação às violações dos direitos humanos na Venezuela.

 O sr. não percebe uma multiplicidade de organismos regionais, como Alca, Alba, Unasul, Grupo do Rio, CAN, Casa? Não é um sinal de que os organismos como a OEA não cumprem sua função?
Há uma proliferação de grupos, não de organismos. São muitos grupos e muitas cúpulas, concordo. Os países latino-americanos deveriam analisar isso, mas não cabe a mim comentar. Eu dirijo uma organização mais que centenária cuja existência não está ameaçada e para a qual todos os países-membros têm feito suas contribuições.

O que o sr. fará de diferente nos próximos cinco anos para evitar um novo fracasso como o de Honduras e para deter violações dos direitos humanos como as que acontecem hoje em Cuba e na Venezuela?
O ideal é prevenir as crises, não sair correndo atrás delas. Em Honduras, a crise não foi evitada, mas em outras seis casos semelhantes, nós tivemos ação eficaz. Já sobre direitos humanos, não podemos apontar o dedo contra um ou outro país. Para que a democracia avance é preciso mais diálogo e cooperação entre todos.

Quando o sr. assumiu seu primeiro mandato, há cinco anos, prometeu “incrementar a capacidade de ação da OEA”, mas uma das fraquezas da organização continua sendo sua dificuldade para impor seus princípios. Como passar da retórica à ação?
Nossa capacidade de ação aumentou muito. Os melhores exemplos estão no papel que tivemos na crise entre Colômbia e Equador, nas tensões que ocorreram na Bolívia e na nossa rápida ação na fronteira entre Guatemala e Belize. O problema é que a imprensa só cobre crises e só olha para a região quando as coisas não funcionam. Só nestes casos vocês se lembram da existência da OEA.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez chamou a Comissão de Direitos Humanos da OEA de “máfia”, seu chefe de “excremento” e seus relatórios de “lixo puro”. O presidente equatoriano, Rafael Correa, diz que a OEA “perdeu a razão de ser”. Que prestígio o sr. e a OEA têm com estes países?
Este tipo de discurso tem de ser posto de lado porque provoca muitas feridas difíceis de sanar. Mas a Comissão de Direitos Humanos mostrou sua importância para as vítimas (das ditaduras) no Chile, na Argentina e no Uruguai. Muitos simplesmente não estariam vivos se não fosse pelo trabalho da comissão. Este é o melhor testemunho.

A criação, em fevereiro, de uma organização latino-americana paralela à OEA, mas sem a participação dos EUA, não demonstra que a organização que o sr. representa transformou-se em algo obsoleto?
Não houve a criação de nenhum bloco, o que houve foi a adoção de novos mecanismos de diálogo e cooperação que envolvem um conjunto de países da América Latina e Caribe. Estou de acordo com isso e não creio que seja uma ameaça à OEA. Ninguém propôs criar uma nova organização com uma burocracia própria ou com grandes recursos próprios. Além disso, imagine se a criação de cada novo grupo fosse vista como uma ameaça às Nações Unidas ou à Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). É verdade que alguns presidentes mais entusiasmados chegaram a mencionar uma OEA sem os EUA, mas isso é pura retórica, está longe de ser realidade.

Mais de 60% do orçamento da OEA e pago pelos EUA e sua sede está em Washington. Isso não provoca um desequilíbrio de poder dentro da OEA?
Se dividíssemos a cota de contribuição pelo PIB de cada país, os EUA teriam de pagar mais de 70%. Pelo menos antes da crise. Seria bom ter uma organização mais equilibrada, mas isso não significa que os EUA paguem menos, mas que outros países paguem mais.

O Brasil deveria pagar mais?
Não estou falando de nenhum país em particular.

O sr. visitou Honduras várias vezes durante a crise, suspendeu o país da OEA e nada disso provocou um resultado tão efetivo quanto a mediação dos EUA.
O secretário de Assuntos Políticos da OEA, Víctor Rico, estava na sala onde o acordo foi alcançado. Vocês dizem que quem fez isso foram os EUA, mas nós estávamos lá também. Rico volta amanhã (hoje) a Tegucigalpa e o trabalho continua.

E o que falta para que Honduras regresse à OEA?
Que façam gestos concretos e cumpram os acordos de San José e Tegucigalpa.

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