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Kennedy tinha razão de temer o poder soviético em Cuba

Redação Internacional

29 de setembro de 2012 | 17h17

Crise dos Mísseis+50
Mísseis colocados na ilha de Fidel davam a Moscou vantagem em um eventual confronto mundial

Roberto Godoy

Os mísseis soviéticos SS-4 instalados em Cuba, em 1962, eram de fato uma ameaça. Embora haja o mito de que o velho bolchevique Nikita Khruchev teria despachado para a ilha armas ineficientes e superadas, a verdade é bem diferente: os 32 (ou 42, o número varia conforme a fonte) gigantes de 22 metros e 40 toneladas, armados com uma ogiva nuclear de 2 megatons, eram capazes de atingir alvos a 2.800 quilômetros de distância – com precisão que os equivalentes americanos estavam longe de conseguir.

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Teriam provocado uma tragédia. Um ataque lançado de determinados pontos poderia atingir Washington, Nova York, Chicago ou Atlanta, além de torrar Miami até os alicerces. Em 1963, uma análise da inteligência dos EUA confirmava que a versão do SS-4 transferida para Cuba era de segunda geração, com raio de ação mais longo e guiagem inercial autônoma, a melhor tecnologia da época, há meio século.

O R-12 Dvina, denominação soviética do míssil, foi mantido em operação durante 34 anos. O primeiro lote, entregue em 1959, estava ainda sob condições de uso, em meados de 1993, quando toda a série foi desativada. A fabrica de Yuzmash entregou 2.335 foguetes à Força Estratégica.

Simples e robusto, o balístico poderia ser disparado por carretas – era esse o arranjo cubano –, ou a partir de silos subterrâneos, na configuração R12U, alongada, capaz de cobrir 3,5 mil km.

A moeda de troca oferecida pelo presidente John Kennedy era, a rigor, falsa. Khruchev só poderia remover os seus SS-4 se os EUA oferecessem, em sacrifício, uma presa do mesmo porte. Foram colocados na mesa 30 mísseis Júpiter – 15 deles alinhados em Esmirna, na Turquia, e outros 15 em Giogia del Cole, na Itália.

Um escambo injusto. A arma, obsoleta, nunca funcionou bem. Tinha tamanho (18,5 metros) e peso (48,5 toneladas) equivalentes ao equipamento soviético. A ogiva termonuclear de combate também oferecia alto poder, coisa de 1,8 megatons. O limite efetivo era de 2,400 km. As semelhanças, entretanto, terminavam aí.

A navegação inercial era definida como “exigindo um desenvolvimento profundo”, no relatório de recebimento, da Força Aérea para o fabricante, uma divisão especializada da Chrysler Corporation. O lote de 100 unidades acabou reduzido a 45. A fabricação durou pouco, de 1956 até 1961. A frota completa foi retirada de linha em 1963, pouco depois da primeira crise atômica da história.

O Estado-Maior americano sugeriu uma resposta militar alternativa e de alto risco: lançar uma operação de bombardeio contra as baterias de mísseis previamente mapeadas pelos jatos U-2, de coleta de dados de inteligência e, simultaneamente, infiltrar um time de forças especiais com a missão de matar Fidel Castro, facilitando a invasão da ilha.

O presidente Kennedy autorizou a mobilização inicial. Ficou nisso. No dia 28 de outubro Khruchev cedeu. A comemoração no gabinete de John Kennedy só existe no filme “Os 13 Dias”, dirigido por Roger Donaldson – tomado por violentas dores na coluna, o presidente não fez festa: quando a notícia chegou, estava no ambulatório da Casa Branca, tomando analgésicos, segundo depoimento da então primeira dama, Jackie Kennedy.

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