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Lembranças de outro terremoto

Roberto Lameirinhas

14 de janeiro de 2010 | 13h37

A tragédia do Haiti evoca outra catástrofe, em 15 de agosto de 2007, que arrasou a cidade peruana de Pisco, a cerca de 300 quilômetros da capital peruana, Lima. Um terremoto de 8,3 graus na escala Richter causou a morte de pelo menos 750 pessoas e deixou cerca de 300 desaparecidos. A cidade turística, um balneário do Pacífico frequentado por peruanos da classe média baixa e mochileiros europeus, foi arrasada pelo fenômeno.

A reportagem do Estado chegou à localidade no dia seguinte e, depois de horas por estradas alternativas – as rodovias foram destruídas pelo abalo – e quilométricas caminhadas, alcançou à Plaza de Armas, a principal da cidadezinha, onde jaziam dezenas de corpos de vítimas resgatadas dos escombros da Catedral de San Clemente. Só alí, onde a missa de sétimo dia de uma jovem professora do primeiro grau reunia centenas de habitantes, foram resgatados 127 cadáveres. Ilogicamente, somente a fachada da imponente igreja permaneceu de pé, praticamente intacta. Por detrás, tudo desmoronou.

Ao longo da cidade, o cenário era de devastação. O reservatório de água potável ruiu e a energia elétrica só foi restabelecida três dias depois do terremoto. O Hotel Embasy, que tinha quatro andares, literalmente perdeu um deles. Não foram registrados sobreviventes entre hóspedes e funcionários que estavam no subsolo ou na recepção, no térreo.

Nenhuma das estreitas ruas, recobertas de escombros, era transitável. Sobreviventes, a maioria dos quais haviam perdido alguém da família – quando não havia perdido toda a família -, recorriam aos repórteres para exigir uma resposta do governo de Alan García, eleito no ano anterior. Antes da ajuda, chegaram agentes das forças de segurança para evitar saques.

“Tenho dinheiro, mas ele não vale nada agora”, lamentava um comerciante local impossibilitado de comprar água ou mantimentos em estabelecimentos fechados ou destruídos pelo tremor. Várias réplicas, uma das quais chegou a 5,9 graus, espalhavam ainda mais pânico entre a população e dificultavam os trabalhos de resgate e de ajuda humanitária.

Em prantos, uma senhora que teve a casa destruída velava o corpo da filha, de 30 anos, numa cama de solteiro ao ar livre. Não havia caixões suficientes para tantos corpos.

Três dias depois do tremor, cães farejadores ainda ajudavam a resgatar corpos dos escombros, mas o cheiro da morte que tomava conta da cidade era insuportável. A ajuda internacional chegava à base aérea local em aviões Hércules vindos de vários países, como Estados Unidos, Colômbia e Brasil. García havia instalado ali seu “gabinete de crise”, mas isso não ajudou a melhorar sua imagem entre a população local. Hoje, quase dois anos e meio depois da tragédia, pouco foi feito para a reconstrução da cidade.

A Universidade de Lima tem contribuído para levantar novas casas de adobe para os habbitantes e o cardeal peruano José Luis Cipriani vem fazendo campanha para reerguer a Catedral de San Clemente. Muito pouco para as expectativas da população local, após as promessas de García.

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