Moeda do  Zimbábue vira souvenir
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Moeda do Zimbábue vira souvenir

Robson Morelli

25 Dezembro 2009 | 17h52

Reportagem de Carolina Misorelli, especial para o Estado

O Zimbábue é hoje um dos poucos países sem moeda própria. Nos últimos anos, os zimbabuanos já estavam acostumados a carregar sacolas de dinheiro para ir ao mercado sem ter certeza sobre a quantidade de alimentos que trariam para casa por causa da hiperinflação – que chegou a 230.000%, a taxa mais alta do mundo. Agora, boa parte deles voltou ao mercado de troca. Em vez de dinheiro, enchem suas sacolas com produtos como farinha e arroz – ou o que estiver sobrando em casa – na expectativa de trocá-los por outros bens e serviços.

A circulação da moeda nacional foi suspensa oficialmente em abril, mas na prática o dólar zimbabuano já havia deixado de ser usado em janeiro, quando o governo liberou o uso de moedas estrangeiras. Nos últimos meses, os mercados de troca proliferaram-se principalmente no interior. Na capital, muitos utilizam desde euros e dólares americanos (com os quais são pagos os funcionários públicos), até pulas, de Botsuana, e rands, da África do Sul.

Se o comprador insistir, os comerciantes aceitam até real. “Você é brasileira? Pode certificar para aquele vendedor qual o valor do real em relação ao dólar?”, pediu um turista brasileiro à repórter do Estado ao negociar a compra de duas peças de madeira por R$ 40 em um mercado de artesanato em Victoria Falls. Depois de conferir com a “segunda fonte” a cotação do real, o vendedor fechou o negócio.

Com a economia do Zimbábue destroçada por anos de isolamento internacional e a má gestão do ditador Robert Mugabe, produtos simples viraram artigos de luxo. Ir a um mercado com uma caneta Bic ou um elástico de cabelo, por exemplo, é garantia de oportunidades de negócio.

A suspensão da moeda foi anunciada após inúmeras tentativas frustradas do governo de conter a hiperinflação. Em julho de 2007, foi lançada a cédula de 200 mil dólares zimbabuanos que, no mercado paralelo, era cotada a US$ 1. Em maio de 2008 já havia a nota de 500 milhões. Em julho do mesmo ano foram lançadas cédulas com valores a partir de 100 bilhões. Desde abril, o dólar zimbabuano virou souvenir. A nota de 50 bilhões pode ser comprada pelos turistas por US$ 1.

Apesar do uso de múltiplas moedas ser comum nas cidades mesmo antes da autorização do governo, a população rural demora em adotar o sistema de múltiplas divisas. Nessas áreas, camisetas, sapatos e sacos de tomate são a principal moeda de troca para a sobrevivência diária. Residentes das áreas rurais dependem de seus cultivos: trocam parte da colheita para que o milho seja moído e para produção do sadza, alimento típico. Caixas de tomates pagam a viagem entre uma cidade e outra.

Segundo o ministro das Finanças, Tendai Biti, a utilização de moedas estrangeiras ajudou a conter a inflação. O dólar zimbabuano não deve voltar a circular até 2012, apesar dos apelos de Mugabe e do Banco Central – que agora não podem mais emitir moeda para financiar seus projetos. Biti tomou posse com outros 30 ministros no início do ano, como resultado de um pacto entre Mugabe e o líder da oposição, Morgan Tsvangirai.

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