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O caminho do ‘Estado’ até o Sudão do Sul

Redação Internacional

06 de abril de 2014 | 07h00

Adriana Carranca, Enviada Especial / Juba, Sudão do Sul

A reportagem do Estado entrou no Sudão do Sul por terra, viajando de Uganda, o país que mais recebeu refugiados da etnia dinka, cujo ingresso é facilitado pelo governo ugandês que apoia o presidente Salva Kiir. Nos 185 quilômetros de estrada entre a capital, Juba, e a última cidade da fronteira, Nimule, centenas, se não milhares, de pessoas atravessavam a pé, carregando trouxas de roupa, colchões enrolados e alguns utensílios.

Dependendo de que região eles vêm, a viagem por levar até quatro dias. Outros fazem o trajeto em “táxis” – vans enferrujadas e cambaleantes, apinhadas de gente. Para trás, deixam os mortos e gravemente feridos, vilas saqueadas e incendiadas – algumas ainda cheiravam queimado quando a reportagem as visitou. Vidas reduzidas mais uma vez a cinzas, assim como a esperança trazida com a criação do novo país.

Em conflito. O Estado tentou visitar Gudele, o vilarejo predominantemente nuer na periferia da capital, palco do massacre. Fica a cerca de 13 km do centro de Juba por uma estrada de terra que leva ao norte do país. Mas a reportagem foi barrada no único acesso ao vilarejo por soldados do Exército de Kiir. À distância, Gudele parece uma cidade fantasma. Todos os moradores deixaram o local, de ruas de terra, pedras e lixo, pequenos barracos de madeira, casas de barro e ocas de palha – as portas estavam todas escancaradas e as casas pareciam ter sido saqueadas. Gudele é ocupada exclusivamente pelo Exército – homens entediados, maltrapilhos e, não raro, bêbados. O único sinal de civilização era um gerador à luz solar usado para carregar aparelhos de celular e uma pequena televisão com receptor de satélite no posto de checagem, alguns falavam em thurayas. Não foi permitido tirar fotos dos soldados ou do local.

Mas os sinais da guerra são evidentes. No hospital militar vietnamita, que funciona dentro da base da ONU em Juba, há amputados, queimados, feridos graves a bala e por bombas de fragmentação, queimados. As tendas cheiram a sangue, urina e pânico. Havia rumores de que, após assegurar o petróleo, os insurgentes liderados por Riek Machar preparavam um ataque à capital, o que o governo nega. Um repórter da rede Al-Jazeera foi preso após uma reportagem sobre os planos dos rebeldes de tomar a capital.

Juba está repleta de soldados, que controlam totalmente a cidade, onde fotos e filmagens são proibidas – qualquer tentativa é reprimida em segundos. Estão em barricadas, sobre árvores, nos bares e comércios da cidade. De uniforme – verde camuflado, boina vermelha e kalashnikov – eles parecem um exército regular, mas são essencialmente uma milícia tribal, formado pelos insurgentes do Exército para a Libertação do Sudão do Sul, o grupo rebelde que lutou contra o norte e foi catapultado a exército regular com a criação do Sudão do Sul. O governo impõe toques de recolher diários, às 18 horas, e ninguém pode estar nas ruas depois desse horário. Na última noite que a reportagem passou em Juba, podia-se ouvir tiros à distância e aviões sobrevoando a cidade. Um barulho familiar demais à população local para ser ignorado.

No hospital de Bor, pacientes foram baleados nos leitos – os corpos de uma mãe e seu filho foram encontrados na caixa d’água. No Hospital de Treinamento de Malakal, 14 pacientes foram mortos no leito e as instalações foram saqueadas e, em seguida, queimadas. Mais de 240 funcionários de um hospital em Leer tiveram de fugir para o mato após um ataque.

Numa sociedade traumatizada por guerras e o genocídio, os novos confrontos causaram pânico na população e mais de um milhão deixaram suas casas, segundo estimativa da ONU – cerca de 800 mil estão deslocados no próprio país e mais de 250 mil atravessaram a fronteira para os países vizinhos.

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