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O que significam as novas medidas sobre o clima baixadas por Trump?

Veja o que elas implicam no combate mundial às mudanças climáticas

Redação Internacional

28 de março de 2017 | 19h31

Na terça-feira, uma semana após o término do sexto inverno mais quente da história nos Estados Unidos, o presidente Trump anunciou uma série de medidas com o objetivo de reverter ou anular as iniciativas de Barack Obama de combate à mudança climática.

Presidente dos EUA, Donald Trump, faz discurso no Congresso (Foto: EFE/Pete Marovich)

Presidente dos EUA, Donald Trump, faz discurso no Congresso (Foto: EFE/Pete Marovich)

O que isto significa? Quais serão as consequências? Trump cumprirá a promessa de criar empregos no setor de energia? Vamos tentar elucidar a questão na forma de perguntas e respostas:

O que Trump planeja?
O plano de Trump comporta três componentes principais. Primeiro, ele quer desmantelar um conjunto de medidas implementadas pelo governo Obama que reduziria as emissões de dióxido de carbono das usinas elétricas movidas a carvão. O governo Obama também elaborou normas para usinas elétricas construídas recentemente limitando os níveis permitidos de dióxido de carvão, mas elas não atingiam usinas mais antigas. Além disso, muitas centrais elétricas mais antigas que continuam em atividade não foram abrangidas pelas disposições do Clean Air Act, de 1970, supondo-se que com o tempo seriam substituídas. Em muitos casos, não foram.  Segundo, Trump quer promover a extração de combustível fóssil para tornar a energia americana independente e cumprir promessa de campanha de dar novo impulso à indústria do carvão. Como parte dessa tentativa será abolida uma moratória sobre contratos de leasing do governo no caso do carvão, permitindo que terras federais sejam usadas para a mineração de carvão.  Terceiro, Trump pretende desvincular do processo decisório de rotina do governo qualquer análise sobre os efeitos a longo prazo da mudança climática.
Conseguirá Trump salvar a indústria de carvão?
Ele conseguiria acrescentar mais alguns anos de vida a essa indústria, mas não revivê-la como um motor econômico viável para as comunidades onde outrora a exploração do carvão foi muito importante.
Entre 1985 e 2000, o número de pessoas trabalhando nessa indústria nos Estados Unidos caiu de 178.000 para 71.000. Existem inúmeras razões por esse declínio, como o aumento do uso da automação além do fato de que a extração de carvão de uma mesma mina fica cada vez mais difícil com o decorrer do tempo, uma vez que os veios de fácil acesso já se esgotaram. De 2000 a 2012, observou-se um breve ressurgimento do setor. Mas depois teve início o colapso, com uma queda no número de mineiros de 90.000 para cerca de 50.000.
Trump ajudará o país a se tornar independente no campo energético?
Durante sua campanha, Trump denunciou repetidamente a impossibilidade de empresas do setor de combustível fóssil realizarem explorações em propriedades do governo. E deu a entender que o setor estava tão limitado pelo governo a ponto de se tornar ineficiente. Na verdade, a indústria de combustíveis fósseis prosperou durante o governo Obama por uma simples razão: o aprimoramento das técnicas de perfuração horizontal que levou a uma explosão do fraturamento hidráulico e o aumento na produção de petróleo e gás natural a partir de 2005.

O boom da produção de gás natural resultou em uma forte queda dos preços. Embora a extração de gás natural libere gás metano com efeito estufa na atmosfera, ela é mais limpa do que o carvão. Diante disto e com a queda dos preços, vários produtores passaram a produzir carvão em vez de gás nas suas usinas – o que prejudicou o setor de carvão. Em 2015, um terço da energia americana era produzida por usinas elétricas movidas a carvão e um terço a gás natural. Vinte anos antes, mais da metade da produção de eletricidade nos Estados Unidos provinha de usinas movidas a carvão e apenas 13% a gás.

O argumento mais forte – e a resposta à questão – é que a combinação de energias nos Estados Unidos vem evoluindo rapidamente. Com o boom do fraturamento hidráulico as importações líquidas de petróleo em 2015 representaram apenas um quarto de todo o consumo, a menor porcentagem em quase meio século. A total independência energética é improvável por várias razões, mas uma queda nos preços do combustível, uma produção maior de energia e a mudança dos sistemas energéticos tornam essa “independência ” de certa forma diferente do que costumava ser.

As medidas adotadas por Trump irão piorar o clima?
Os Estados Unidos são o maior produtor per capita de gases com efeito estufa. Mas não somos o maior emissor. Durante anos o país foi criticado por não adotar medidas de luta contra a mudança climática. Este é um problema global e a China polui mais do que nós, então por que devemos nos limitar do ponto de vista econômico quando a China não se manifesta?

Em 2014, Obama anunciou um acordo emblemático com os chineses exatamente para isto. Ele também firmou um acordo de grande alcance sobre o clima, o Acordo de Paris, de 2015 – do qual Trump já disse que irá se retirar, mas não incluiu nas suas novas medidas.
No plano global a tendência é clara: existe um movimento com vistas a abandonar as usinas elétricas movidas a combustíveis fósseis – especialmente o carvão – e adotar fontes mais limpas e renováveis. É uma tendência observada também nos Estados Unidos, por razões que estão além das decisões do governo.

Assim, embora Trump possa até certo ponto anular o legado de Obama na área climática, as forças políticas e econômicas que estimularam essas mudanças estão muito além do controle dele. Os esforços de Trump provavelmente aumentarão as emissões de gases com efeito estufa, que caíram muito durante o governo Obama, em grande parte por causa da desaceleração da economia. Mas a boa notícia para essa maioria preocupada com a mudança climática é que Trump não conseguirá influir na tendência global mais forte.  /Tradução de Terezinha Martino

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