Omar Souleyman, o refugiado sírio que faz o Ocidente dançar
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Omar Souleyman, o refugiado sírio que faz o Ocidente dançar

Redação Internacional

10 de novembro de 2013 | 23h59

Crédito: Chris Person / Divulgação

 

Por Roberto Simon

A cena tem um quê surreal: jovens aficionados por música eletrônica em danças tresloucadas no festival britânico de Glastonbury, enquanto, no palco, apresenta-se um sereno refugiado de meia idade da guerra civil síria, microfone colado no bigode, óculos escuros, lenço árabe (keffieh) vermelho na cabeça e uma túnica branca até os pés. Ele mexe a mão à batida acelerada, a plateia se extasia.
Omar Souleyman ganhou fama na Síria cantando dabke – estilo de ritmo hipnótico e timbres estridentes – em festas de casamento, até ser “descoberto” por estrelas da música ocidental. Sua história é o improvável encontro de personagens como a cantora Björk e a banda Gorillaz, com quem gravou, e o ditador Bashar Assad e a guerrilha síria, que o obrigaram a deixar com a família sua vila natal, Ras Al-Ayn, e fugir para a Turquia.
Mas não foi a política, e sim a pinta de sultão e a música dançante de tempero oriental que fizeram a revista Vice chamar Souleyman de “o cara mais cool do universo”. No final do mês passado, ele lançou seu primeiro álbum para o público ocidental, Wenu Wenu (“Onde está ela?”). O produtor do disco é Four Tet (Kieran Hebden), herói do chamado “post-rock”.
“Fico feliz com o fato de as pessoas no Ocidente gostarem da minha música e de poder oferecer a elas uma grande celebração”, disse o artista, de 47 anos, em entrevista por e-mail ao Estado. “Nunca imaginei que faria tanto sucesso.”
A guerra que já consumiu mais de 110 mil vidas na Síria é um tema delicado a Souleyman. Ele evita tomar partido ou mesmo comentar o assunto. Questionado, diz que a crise síria o “afeta profundamente” e ele faz votos para que a “paz volte àquela terra maravilhosa”.

Sua agente, Mina Tosti, e os empresários do selo pelo qual sairá seu novo disco, o Domino Records, tentam descolar a imagem do cantor da carnificina que domina o noticiário sobre seu país natal. “Pela primeira vez em minha carreira, tive de tomar cuidado ao promover um artista para não contextualizá-lo usando assuntos políticos e sectários de sua terra”, diz Morgan Lebus, que dirige a Domino Records.
Às vezes, porém, é impossível isolar a carreira de Souleyman da guerra na Síria. Convidado para tocar em um dos mais importantes festivais de música da Suécia, o Mocad, em agosto, ele teve o visto de entrada no país escandinavo negado – o governo sueco parou de conceder permissões a sírios, pois teme que eles decidam pedir asilo ou refúgio. Mas, no caso do refugiado-astro da música eletrônica, Estocolmo voltou atrás e abriu uma exceção. A apresentação acabou postergada, mas, no mês seguinte, o sírio eletrizou os suecos com sua dabke.

Adaptação. Gravações de Souleyman não faltam: o cantor costumava registrar suas apresentações em casamentos para, depois, presentear os noivos com uma fita – dezenas ou centenas estão no YouTube. A diferença é que agora ele aparece em um videoclipe no topo de um prédio nova-iorquino, em poses ao estilo rapper mal encarado, dançarinas em câmera lenta e flashes de imagens de pirâmides egípcias. Souleyman nega ter mudado seu estilo para torná-lo mais palatável aos ocidentais. “Minha música é o que sempre foi. Não fiz concessões.”
Em suas viagens pela Síria, o cantor de casamento foi absorvendo várias influências, de ritmos curdos a iraquianos. “Sempre tive diferentes estilos em meu repertório, porque, nas festas, canto para todos”, explica. Dessa fusão – traduzida em uma batida eletrônica e um teclado Korg com um timbre indecifrável – nasceu seu estilo.
Para Souleyman, há duas grandes diferenças entre animar noivos nos rincões da Síria ou jovens em festivais da Europa e EUA. A primeira é linguística: “No Ocidente não entendem o que eu canto”, diz ele, que não fala inglês (as letras são sobre amor e outros prazeres da vida). A segunda: casamentos árabes se estendem por horas a fio; seu set no exterior tem cronometrados 45 minutos. As danças tresloucadas quase não mudam.