PERFIL: Eleito pedindo renovação, Evo completa 10 anos no poder
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PERFIL: Eleito pedindo renovação, Evo completa 10 anos no poder

No dia 21 de fevereiro, uma reforma constitucional será submetida a votação para lhe permitir ser candidato mais uma vez em 2019

Redação Internacional

22 Janeiro 2016 | 07h00

LA PAZ – O presidente da Bolívia, Evo Morales, chegou ao poder há dez anos se apresentando como a face da renovação e da revolução social na política do país, mas hoje é o líder que está há mais tempo no cargo na América Latina e sonha em governar de forma contínua até 2025.

Nascido em 26 de outubro de 1959 na cidade de Orinoco, no Departamento (Estado) de Oruro, Evo teve várias profissões antes de entrar para a política, desde pastor de lhamas até trompetista.

Sua chegada à vida política ocorreu na década de 90, na região central de Chapare, para onde teve de se mudar para sobreviver.

BOLIVIA_EvoMorales_REUTERS_David Mercado2

O presidente boliviano iniciou sua vida política nos anos 90

A primeira vez que ele concorreu em eleições gerais foi em 1997, pelo partido Esquerda Unida, e, embora não tenha vencido a corrida presidencial, obteve uma cadeira parlamentar.

Nessa época, ele já tinha se tornado um combativo líder sindical que defendia com veemência os produtores de folha de coca de Chapare e o livre cultivo da planta, o que o levou a ser detido, torturado e acusado de conspiração em várias ocasiões.

Morales chegou perto da presidência na eleição de 2002, quando ficou em segundo lugar, com 20,9% dos votos contra 22,4% de Gonzalo Sánchez de Lozada, que acabou não conseguindo concluir seu mandato devido a uma revolta social que explodiu em outubro de 2003.

Aqueles protestos reprimidos violentamente refletiram o desgaste popular pela forma como os políticos “de sempre” tinham administrado o país.

E isso se traduziu no respaldo majoritário que Evo obteve em 2005, quando alcançou a presidência com 54% dos votos. Foi a primeira vez que a Bolívia elegia um líder com um apoio tão alto.

As esperanças de mais da metade dos bolivianos estavam no humilde camponês que sabia do sofrimento de seu povo porque o tinha vivido na própria carne.

Talvez por esse motivo emocionou tanto ver um Evo muito emocionado e que foi à lágrimas quando recebeu a faixa presidencial pela primeira vez, em 22 de janeiro de 2006.

No entanto, o simples sindicalista que vestiu seu popular agasalho de lã na primeira viagem internacional que fez logo após ganhar as eleições parece ter ficado para trás, longe do caudilho insubstituível e todo-poderoso do “processo de mudança”, como o governo de Evo é chamado pelos setores aliados.

Hoje, todo o processo gira em torno de Evo, cuja imagem aparece em qualquer publicação e material oficial divulgado pelo governo.

A compra de helicópteros e aviões, suas constantes viagens ao exterior, seu desejo de erguer um novo palácio de governo e um museu dedicado a sua “revolução” lhe valeram críticas da oposição, que o acusa de fazer despesas opulentas e de estar em permanente campanha para garantir a permanência no poder.

Ele também foi questionado por seu senso do humor, que inclui brincadeiras machistas e alusões à aparência física, estado civil e até orientação sexual dos mencionados em seus discursos.

As críticas aumentaram em 2015 quando Evo ordenou com a mão que um segurança amarrasse o cordão de seu sapato, momento que ficou captado em um vídeo que “viralizou” nas redes sociais e aumentou o desencanto de muitos dos que tinham sido seus eleitores.

O que não mudou é sua paixão pelo futebol, sua capacidade de trabalhar desde a madrugada até altas horas da noite e sua retórica contra seu eterno inimigo, o “império” americano.

Morales diz governar junto com os movimentos sociais, aqueles que lhe manifestam seu apoio incondicional, mas não hesita em rotular de “conspiração” qualquer conflito que saia de seu controle.

Foi assim como ficou distanciado, por exemplo, dos indígenas amazônicos contrários à construção de uma estrada através do parque nacional Tipnis e das organizações populares de Potosí que protestaram pelo abandono dessa região, a mais pobre da Bolívia.

Fato é que para Morales não há matizes: ou se está com ele ou contra ele, ou se está com seu “processo” ou com o “imperialismo”.

Essa filosofia voltou a ficar latente na campanha para o referendo do dia 21 de fevereiro, em que será submetida à votação uma reforma constitucional para lhe permitir ser candidato mais uma vez em 2019.

Por essa iniciativa, promovida por seus partidários, a oposição acusa o governante de querer se perpetuar no poder.

As pesquisas divulgadas até o momento não dão uma vitória clara ao “sim” ou ao “não” à reforma constitucional, mas o governo confia que mais uma vez se imporá o voto concentrado nas áreas rurais, onde Morales tem amplo respaldo e que não costumam ser levadas em conta nas pesquisas.

À margem das paixões a favor e contra o presidente, é evidente a falta de lideranças no governo e na oposição, algo que, apesar de por enquanto Morales capitalizar a seu favor, será um problema se não puder criar um sucessor capaz de “calçar” seus sapatos. / EFE