Perfil: Raúl Castro, o último patriarca de Cuba
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Perfil: Raúl Castro, o último patriarca de Cuba

Mesmo com a perspectiva de deixar o poder em fevereiro de 2018, ninguém na ilha comunista reúne hoje mais poder, autoridade e segredos do que o presidente; líder prático, nunca disputou o protagonismo com seu irmão mais famoso, Fidel

Redação Internacional

26 Julho 2017 | 12h02

HAVANA – Ninguém em Cuba reúne hoje mais poder, autoridade e segredos do que Raúl Castro. O general do Exército que surpreendeu o mundo ao estender aos mãos aos Estados Unidos flexibilizou o único sistema comunista do Ocidente.

O mandato de Raúl, no entanto, já entrou em contagem regressiva. Nesta quarta-feira, 26, ele participará pela última vez como presidente dos atos do Dia da Rebeldia Nacional, que comeram o ataque ao Quartel Moncada, em 1953.

Raúl Castro participa pela última vez do Dia da Rebeldia Nacional; líder cubano é responsável pelas transformações na ilha comunista (EFE/Alejandro Ernesto)

Raúl Castro participa pela última vez do Dia da Rebeldia Nacional; líder cubano é responsável pelas transformações na ilha comunista (EFE/Alejandro Ernesto)

Em 24 de fevereiro, Raúl deixará a presidência que exerce desde 2006, quando por motivos de doença substituiu seu irmão Fidel, mas continuará na direção do Partido Comunista, o único legalizado em Cuba.

Leal a Fidel até depois de sua morte, homem de família e fumante arrependido; tão discreto quanto pragmático, Raúl Castro emergiu da sombra do irmão para levar Cuba a uma série de mudanças econômicas significativas.

Com discursos curtos e voz enérgica, o implacável líder de 86 anos combina a administração do poder com a discrição sobre sua saúde.

Temido

“Não podia aparecer para os inimigos como um homem de alma caridosa.” Assim ele justificou o apelido de temível em uma entrevista excepcional ao diário Sol de México, em 1993.

Raúl, que comandou por 50 anos as Forças Armadas Revolucionárias (FAR), transformou um Exército de rebeldes idealistas em um eficiente aparato militar que chegou a contar com 300 mil membros. As FAR exercem um férreo controle interno e dirigem o turismo, a agricultura e as telecomunicações no país.

Raúl foi implacável. Esteve por trás do julgamento em 1989 que levou ao fuzilamento o general Arnaldo Ochoa, morto junto com outros três oficiais por narcotráfico, e em 2009 expulsou do círculo de poder dois protegidos de Fidel, o vice-presidente Carlos Lage e o ex-chanceler Felipe Pérez, por “ambições desleais”.

Ao mesmo tempo em que libertou dezenas de opositores da prisão por mediação da Igreja Católica, sob seu mandato se multiplicaram as prisões temporárias e o julgamento de dissidentes por crimes comuns, seguro os líderes da oposição.

“É uma repressão de baixa intensidade, contramidiática, para que não tenha impacto (…) e totalmente ilegal, com o propósito não apenas de destruir a oposição como também de neutralizar suas ações, desmoralizá-la”, disse Manuel Cuesta, um opositor moderado.

Prático

“Mudar tudo o que deva ser mudado.” Raúl alardeou sua abertura para reformas desde que não toquem o regime de partido único.

Em plena tensão com os EUA, preparou a população para responder com táticas de guerrilha a uma eventual invasão. “O solo arderá sob seus pés”, advertiu aos americanos.

Mas no fim de 2014 mudou de rumo ao anunciar o restabelecimento das relações diplomáticas com Washington, suspensas por mais de meio século.

Em 2016 foi anfitrião do então presidente americano Barack Obama e ajudou a assinar o acordo de paz entre o governo de Bogotá com as Formas Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), cujas negociações goram apoiadas por Cuba desde o princípio.

Pelas mãos de Raúl, Cuba entrou em uma etapa de flexibilização. Com a Venezuela – fonte de petróleo barato – em crise, o embargo dos EUA ainda vigente e a memória ainda fresca do colapso de seu protetor soviético, ampliou o trabalho privado, autorizou a compra e vende de casas e de veículos.

Além disso, eliminou as restrições de viagem para cubanos e promoveu os investimentos estrangeiros na ilha.

“Raúl foi flexível em mudanças de políticas, mas não na arquitetura do sistema. No aspecto político, nunca questionou o unipartidarismo e no econômico, a adoção de mecanismos de mercado foi parcial”, afirma Arturo López-Levy, autor do livro “Raúl Castro e a nova Cuba: as mudanças acompanhadas de perto”.

Reservado

Raúl Modesto Castro Ruz nunca disputou o protagonismo com seu irmão. “Fidel e Raúl funcionaram como uma equipe complementar de carisma e administração”, diz López-Levy.

Em novembro, ele anunciou a morte d Fidel. Anos antes, foi uma das poucas testemunhas da agonia de Hugo Chávez. Raúl guarda os detalhes de ambas as mortes. “É um homem de poder porque é um homem de segredos”, disse o empresário mexicano Mario Vásquez Raña, que o entrevistou em 1993.

Os Castro ocultaram por anos o esfriamento das relações com a antiga União Soviética, que chegou a retirar o apoio militar contra os Estados Unidos. “Sofremos a amargura em silêncio”, confessou Raúl.

Apenas ele e poucas pessoas próximas sabem quem será seu sucessor, mas o vice-presidente Miguel Díaz-Canel, de 57 anos, parece contar com a sua aprovação.

O ex-agente de Moscou Nicolás Leonov, autor do livro “Raúl Castro, um homem em revolução”, destaca seu amor pelas árvores, o gosto por natação e caminhada, além de sua veia para a comédia.

Raúl foi casado por 48 anos com Vilma Espín, companheira de armas que morreu em 2007. Tem três filhas e um filho, com nove netos e uma bisneta.

Seu filho Alejandro é um oficial muito influente, mas nem ele nem os heróis revolucionários que ainda estão vivo jamais conseguirão ter a autoridade conquistada por Raúl.

Prevenido, já definiu o lugar onde que ser enterrado: um nicho de pedra em uma montanha de Santiago junto com os restos mortais de sua esposa. / AFP

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