Perguntas & Respostas: Entenda a crise no Catar
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Perguntas & Respostas: Entenda a crise no Catar

A decisão tomada por quatro países árabes de cortar as relações com o Catar foi o ponto culminante de anos de tensão entre um grupo historicamente unido de Estados árabes ricos em petróleo que compartilham suas fronteiras, uma herança comum e uma vigorosa aliança com Washington

Redação Internacional

07 de junho de 2017 | 05h00

1. Por que a crise no Catar é tão importante?

O Catar abriga o posto avançado do Comando Central do Exército dos Estados Unidos. Sua base aérea de Al-Udeid serve como rampa de lançamento dos aviões de combate da coalizão que bombardeiam redutos do EI no Iraque e na Síria. O país tem apenas 2,2 milhões de habitantes, mas é o maior produtor de gás natural liquefeito do mundo, dividindo um enorme campo submarino com o Irã. O emirado também é sede do canal de notícias AlJazeera e teve papel importante na negociação com grupos dos quais muitos governos mantêm distância. Ajudou a libertar grupos da sua própria família real capturados por militantes xiitas no Iraque. Garantiu a libertação de reféns na guerra civil síria, incluindo alguns em mãos de uma afiliada da Al-Qaeda. E também hospedou conversações entre o governo afegão e o Taleban. O emirado apoiou a Irmandade Muçulmana, respaldando sua breve passagem pelo poder no Egito, e também filiais do grupo na região, incluindo o Hamas, que governa a Faixa de Gaza. E outrora manteve vínculos estreitos com Israel.

Homem caminha pela mercado Souq Waqif, em Doha. Foto: Naseem Zeitoon/Reuters

2. Por que o Catar está em desavença com os países mais poderosos do mundo árabe?

As tensões entre o emirado e a Arábia Saudita eclodiram há duas semanas quando o Catar informou que a agência de notícias estatal e sua conta no Twitter haviam sido pirateados, com a publicação de uma informação falsa de que o emir, o xeque Tamim bin Hamad Al Thani, referiu-se ao Irã como “uma potência islâmica e regional que não pode ser ignorada”. A mídia estatal na região ignorou o desmentido e continuou a reportar o assunto. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito bloquearam o acesso ao canal Al-Jazeera e iniciaram uma campanha agressiva, acusando o Catar de apoiar grupos terroristas como Al-Qaeda e Estado Islâmico, provocando a desestabilização da região e apunhalando seus aliados pelas costas. Os Emirados Árabes há muito tempo estão enfurecidos com o apoio do Catar aos islamistas no Golfo e na Líbia; Arábia Saudita e Egito consideram a Irmandade Muçulmana uma ameaça. A Arábia Saudita acusa o emirado de apoiar “grupos terroristas sustentados pelos iranianos” em sua província de Qatif e no Bahrein, e de ajudar os rebeldes iemenitas que a coalizão vem combatendo.

 

3. Quais são as principais consequências possíveis?

Economicamente, a crise afetará milhões de trabalhadores imigrantes e expatriados que vivem no Catar. Pode haver escassez de alimentos. Boa parte dos alimentos vem da Arábia Saudita através da única fronteira do país fechada agora pelos sauditas. Segundo o grupo de consultoria de riscos políticos, Eurasia Group, “o risco de um golpe é grande”. Uma mudança na liderança pode levantar dúvidas sobre o futuro da base americana e potencialmente privar o Hamas do seu principal benfeitor. A Arábia Saudita já deu aos cataris que vivem em território saudita 14 dias para deixarem o país e ordenou aos seus cidadãos para não visitarem ou transitarem pelo Catar. Arábia Saudita, Emirados Árabes, Egito e Bahrein suspenderam as relações diplomáticas com o emirado, que está retirando suas tropas da guerra no Iêmen, cuja coalizão é liderada pelos sauditas. Egito e Arábia Saudita fecharam seu espaço aéreo e marítimo para o Catar – decisão que atinge a Qatar Airways, uma das empresas aéreas mais ativas da região. A Etihad Aiways, a Fly Dubai e a Emirates, maior empresa aérea do Oriente Médio, suspenderam seus voos para o Catar.

 

4. O Catar pode capitular?

O Catar nega ajudar grupos terroristas na Síria ou em qualquer outro lugar, apesar do seu apoio a grupos rebeldes sunitas que lutam para derrubar o governo sírio. O problema é o financiamento fornecido pelo país a grupos mais estabelecidos, como a Irmandade Muçulmana, o que em princípio é uma questão que pode ser solucionada. Mas no momento o emir parece imperturbável, embora tenha adiado um planejado discurso enquanto o dirigente do Kuwait faz uma intermediação para resolver a disputa. Na semana passada, o emir telefonou ao presidente iraniano Hassan Rohani para cumprimentá-lo por sua reeleição. Uma resposta clara e pública aos esforços da Arábia Saudita para forçar o Catar a se alinhar. A mídia catari também publicou uma charge ridicularizando o rei Salman por “espalhar notícias falsas”. O emir do Catar, que tem apenas 37 anos, em retaliação, poderá retirar-se do Conselho de Cooperação do Golfo e redesenhar alianças para afrontar o príncipe Mohammed Bin Salman e o príncipe de Abu Dhabi Mohammed Bin Zayed, que seriam as duas principais figuras por trás da disputa criada. Há três anos, vários Estados do Golfo retiraram seus embaixadores do Catar durante nove meses em reação ao apoio do emirado à Irmandade Muçulmana. Os detalhes do acordo que encerrou a disputa jamais foram revelados, mas incluíram promessas de que o Catar encerraria sua ajuda à irmandade. As exigências feitas agora são igualmente vagas, mas o mesmo cenário pode se repetir – ou ambas as partes poderão se obstinar ainda mais, em meio a uma luta de poder que se intensifica entre sauditas e iranianos. / W. POST

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