‘Privatização’ de praia francesa para visita de rei saudita causa polêmicas
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‘Privatização’ de praia francesa para visita de rei saudita causa polêmicas

Depois da construção de um elevador, nova discussão ocorre após suposto pedido do monarca de retirar uma mulher da equipe de segurança

Redação Internacional

30 de julho de 2015 | 10h13

PARIS – A praia Côte d’Azur, que as autoridades  francesa fecharam para as férias do rei Salman da Arábia Saudita, é alvo de nova polêmica, depois que vários meios de comunicação publicaram que o monarca havia pedido “extraoficialmente” que uma mulher fosse retirada da equipe de segurança.

A informação, antecipada pela revista Marianne, foi rapidamente desmentida pela delegação do governo francês, que afirmou em comunicado que “a Arábia Saudita jamais pediu a adaptação da equipe (de segurança) segundo esses critérios”.

“Funcionárias mulheres trabalham na equipe desde o início da visita do rei sem que isso tivesse causado qualquer problema”, acrescentaram os responsáveis franceses, após o penúltimo contratempo surgido em torno da pequena praia de La Mirandole, situada a cinco quilômetros do centro de Cannes e “privatizada” desde o dia 25 de julho.

O último incidente aconteceu na mesma noite, quando um veículo atropelou acidentalmente, e em baixa velocidade, um policial que fazia a vigilância na entrada da mansão, localizada em frente à praia.

Opiniões. A “privatização” está irritando muitos moradores do município de Vallauris, mas agrada a maioria dos comerciantes da região. “É uma boa notícia porque se trata de uma clientela de grande poder aquisitivo que traz benefícios não só para o setor hoteleiro de luxo, mas também para o comércio e para as operadoras de serviços turísticos da região”, declarou ao jornal Le Monde o presidente do Sindicato dos Hotéis de Cannes, Michel Chevillon.

O tratamento em favor do monarca saudita, de 79 anos, que levou as autoridades francesas a passarem por cima de uma lei de 1986 que proíbe a privatização de praias, também está desagradando alguns funcionários eleitos, como o conselheiro da oposição municipal Jean-Noël Falcou.

“Esse assunto é grave, uma nova etapa que é o símbolo do abandono de alguns de nossos valores democráticos mais queridos”, opinou Falcou, que fez um abaixo-assinado que já conta com mais de 145 mil assinaturas.

A prefeitura de Vallauris, comandada por Michelle Salucki, foi a primeira a manifestar sua indignação quando soube que estavam tentando cercar a praia sem permissão e obras foram iniciadas para instalar um elevador para levar os convidados do rei diretamente da mansão até a praia. Os poderes públicos terminaram acatando os desejos sauditas, com a condição de que o elevador seja removido depois que a delegação real deixar a vila, por volta do dia 20 de agosto.

“A prefeita fez o que estava em suas mãos” mas, no fim “é o Estado quem manda”, disse, indignado, um responsável do gabinete da prefeita, que se esforçou para minimizar a controvérsia em torno da praia de apenas 200 metros, à qual ninguém pode se aproximar por mar, já que a navegação está proibida a menos de 300 metros do litoral.

Gastos. Os poderes estatais veem com bons olhos as férias do cortejo saudita, que conta com cerca de mil pessoas, que aterrissaram em Nice no dia 25 de julho a bordo de dois Boeings 747.

“Por causa de uma praia que não está entre as mais bonitas dos Alpes Marítimos se põe em perigo a visita de um chefe de Estado, com uma delegação que vai consumir muito e reservou 400 quartos” nos luxuosos hotéis de Cannes e de seu entorno, declarou o número dois da delegação local do governo francês, Philippe Castenet.

O funcionário acrescentou em entrevista ao jornal Nice Matin que a Arábia Saudita doou “1 bilhão de euros para equipar o Exército libanês com armamentos franceses” e destacou que “os gastos sauditas não serão apenas com (as marcas luxuosas) Chanel e Dior”.

“Os sauditas têm um poder aquisitivo muito forte e não se preocupam com seus gastos. Eles encomendaram entre 10 mil e 15 mil flores por dia. Alugaram centenas de limusines que dão trabalho para muitos motoristas”, comentou Castenet.

Conhecido como “Château Aurore” ou “Château de l’Horizon”, o palacete modernista foi construído em 1932 por ordem da atriz Maxine Elliott, que recebia personalidades como os duques de Windsor e os ex-premiê britânico Winston Churchill.

Em 1948, a mansão foi comprada pelo príncipe Aga Khan, líder espiritual dos ismaelitas, que celebrou ali sua suntuosa festa de casamento com a atriz de Hollywood, Rita Hayworth. Em 1979, foi adquirida pelo finado rei Fahd bin Abdelaziz, mas a família real saudita não havia utilizado o palacete nos últimos 15 anos. / EFE