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VISÃO GLOBAL: Putin reina na Putinlândia

Luciana Fadon Vicente

30 Setembro 2011 | 11h49

Visão Global; análises e comentários de especialistas

Líder russo, que manipulou parlamentos, presidente e juízes, manobra para permanecer no poder até 2024

*Benjamin Bidder é jornalista

O atual presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, tem muitos fãs na internet, 130 mil no Twitter e 180 mil no Facebook. Medvedev, blogueiro ocasional, usou a web como fórum para promover suas reformas. Agora, seus partidários a utilizam para expressar sua fúria e decepção pelo anúncio feito no sábado de que o primeiro-ministro Vladimir Putin se candidatará à presidência nas eleições de março.

No sábado, Medvedev publicou fotos do congresso do Partido Rússia Unida no Facebook. Mas o comunicativo presidente não ganhou novos amigos.

“A última esperança morreu”, comentou um usuário da web que usa o pseudônimo Artjom. A usuária Marina escreveu que o púlpito do qual Medvedev cometeu suicídio político no sábado, ao deixar de concorrer a um segundo mandato, parecia um “caixão”.

Medvedev, chefe de uma potência nuclear, comandante-chefe de um Exército de um milhão de soldados, foi apenas um presidente virtual. Putin voltará ao Kremlin depois das eleições presidenciais.

Observadores como o analista político Vyacheclav Nikonov disseram que Putin pode ser presidente por mais dois mandatos, ou 12 anos, desde que nada “fora do comum” aconteça para impedi-lo. E quem sabe até por mais tempo? “Não excluo a possibilidade de que Medvedev venha novamente a suceder Putin depois disso. Isso significa que já conhecemos a configuração do poder do Estado russo até 2036”, afirmou.

É tradição os governantes russos prepararem sua sucessão. O Comitê Central do Partido Comunista coroou apparatchiks soviéticos como Leonid Brejnev ou Konstantin Chernenko, e Boris Yeltsin decretou que Putin seria o seu sucessor. Esta prática preservava o poder das elites e também atendia a um anseio de estabilidade por parte da população.

Medvedev, candidato de Putin escolhido presidente em 2007, agora devolve o cargo ao mesmo Putin que Medvedev teve como primeiro-ministro em 2008. A rotação chega a confundir neste movimento perpétuo. A dupla apresentou ao partido e à nação um fato consumado. Os 142 milhões que constituem a população da Rússia serão meros observadores nas próximas eleições.

Poder absoluto. O Kremlin, em Moscou, uma fortaleza de paredes vermelhas e altas muralhas, é o símbolo de uma hierarquia rígida e do poder absoluto desde a Idade Média. Czares e secretários-gerais governaram dali – seguidos, depois do colapso da União Soviética, por presidentes aos quais a Constituição russa concedeu poderes ainda maiores do que os do chefe de Estado americano.

Nos últimos anos, a forma de governo da Rússia passou por uma mudança assustadora, sem qualquer revisão da Constituição. Quando Medvedev entrou no Kremlin, há quatro anos, a maior parte do governo transferiu-se com Putin para a Casa Branca sobre o Rio Moskva, a sede do governo russo.

Na nova Rússia, não importa quais são os poderes que a Constituição atribui formalmente ao presidente e ao primeiro-ministro. Tudo depende de onde Putin está. O Estado é ele.

Em maio, a Rússia mais uma vez mudará sua forma de governo, da noite para o dia, quando Putin se tornar presidente por um terceiro mandato e voltar ao Kremlin para restabelecer sua antiga base de poder. Medvedev perderá o cargo de chefe de governo para tornar-se um subordinado.

A grande popularidade de Putin lhe garantirá uma nítida vitória nas eleições, onde for necessário, obrigando governadores e membros da Justiça Eleitoral a dar uma mão. O povo russo concedeu efetivamente a Putin plenos poderes como seu defensor, em sinal de gratidão por ele ter trazido ao país um certo grau de estabilidade.

Casca vazia. A popularidade de Putin é alimentada pela prosperidade que as exportações de matérias-primas proporcionaram à Rússia e pela memória coletiva da nação do tumulto dos anos 90. Petróleo e gás continuarão saindo da terra, embora um pouco menos abundantemente, e por outro lado as memórias vão se esvaindo lentamente. Não haverá mudanças rápidas na Rússia. “Nós impedimos que o país se desintegrasse”, afirmou o principal assessor de Putin, Boris Gryzlov, aos delegados no congresso do partido. “A impotência é um perigo mortal para a Rússia.” Putin e os seus homens declararam orgulhosamente que devolveram ao Estado russo seu vigor.

Na verdade, eles o sequestraram.

A Constituição da Rússia é pouco mais que uma casca vazia que nem sequer consegue esconder o regime neofeudal do príncipe Putin.

As instituições democráticas talvez fossem fracas e falhas no final dos anos 90, mas Putin roubou totalmente suas funções.

Ele submeteu parlamentos, juízes e até mesmo a função de presidente à sua vontade. Já não existe separação de poderes.

O tabloide Moskovskij Komsomolets definiu o império de Putin como “Putinlândia”.
Sua Rússia não é uma ditadura como o Irã de Mahmoud Ahmadinejad ou a Bielo-Rússia do ditador Alexander Lukachenko.

Putin transformou seu altivo país em um moderno grão-ducado.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Publicado originalmente na Der Spiegel

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