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Rebrote de ópio e militantes

Redação Internacional

03 de janeiro de 2012 | 08h28

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Para ‘comer melhor’ e ‘casar seus filhos’, afegãos retomam plantio da papoula em áreas sob domínio do Taleban

Alissa J. Rubin, The New York Times, é jornalista 
O trecho do Vale do Rio Helmand, o centro da cultura da papoula, é a vitrine de uma das ofensivas mais ambiciosas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra o Taleban e o comércio da planta que dá origem ao ópio. Neste momento, a região mostra uma exemplar capacidade de recuperação não só dos militantes, mas também dos produtores da droga.

 

Uma ampla ofensiva militar iniciada há quatro anos, no começo por soldados britânicos e depois por fuzileiros americanos, quebrou a resistência do Taleban em grande parte do vale. Foi empreendido um esforço gigantesco para educar os camponeses e estimulá-los a cultivar outros produtos. O governador da província reforçou a iniciativa com um rigoroso programa de erradicação nas terras ao longo do rio.

A maioria dos camponeses do distrito, Nad Ali, bem como do vizinho Marjah e de outros lugares às margens do rio, planta trigo e algodão. O governador acaba de inaugurar uma escola nessa aldeia, que tem até um pequeno centro comercial com algumas lojas com paredes de barro, onde se vendem chicletes, doces e artigos de higiene. São frequentes as patrulhas das tropas da Otan, do Exército afegão e da polícia.

Entretanto, atrás das terras férteis ao longo do rio surge um fenômeno muito preocupante. Segundo os depoimentos de camponeses, anciãos e autoridades afegãs e ocidentais, os pobres meeiros que costumavam plantar papoulas aqui mudaram-se para outras partes do distrito, transformando o deserto numa área extremamente produtiva para papoulas. O Taleban também se mudou, fugindo das ofensivas da Otan, e oferece proteção aos plantadores.

É difícil resistir ao atrativo da papoulas. Apesar do sucesso da Otan, que conseguiu equilibrar a saturação militar mediante incentivos agrícolas em Helmand, a província fornece matéria-prima para mais de 40% do ópio mundial e, em 2011, o cultivo de papoulas no Afeganistão cresceu no total 7% em relação ao ano anterior. Prevê-se até mesmo que aumentará ainda mais nos próximos anos, porque os preços do ópio subiram e a lucratividade de culturas alternativas é limitada, em parte em razão das dificuldades de sua comercialização.

O cultivo floresce graças a uma combinação de ressentimento contra o governo, da insurgência armada e de corrupção nas fileiras do governo. Especialistas no combate à droga dizem que os camponeses que querem ganhar dinheiro procuram a proteção do Taleban. Ao mesmo tempo, estão revoltados contra o governo que consideram hipócrita por querer tirar seu sustento e, simultaneamente, estar aberto à corrupção, permitindo que os camponeses paguem às autoridades para continuar plantando papoulas.

No Afeganistão, a política e a economia do desenvolvimento da produção de ópio faz com que a situação “se pareça com a da Colômbia nos primeiros estágios”, disse Jean-Luc Lemahieu, chefe do Departamento de Combate às Drogas e ao Crime da ONU no Afeganistão.

“As pessoas que vivem em áreas controladas pelo governo e onde não é permitido produzir papoulas não gostam da proibição e mudam para áreas onde o controle é dos taleban”, disse um ancião de Nad Ali que não quis se identificar. “Nada é mais importante para as pessoas do que as papoulas e não há nada mais produtivo para elas.”

A agência de combate às drogas e ao crime da ONU afirma que nas áreas do deserto onde agora a papoula é cultivada os taleban deixaram de cobrar o imposto costumeiro com base na quantidade produzida e cobram impostos menores dos camponeses. Os grandes lucros não se destinam aos agricultores nem aos taleban. A ONU calcula que, do lucro do ópio que permanece no país, cerca de 10% vão para os rebeldes, 20% para os produtores e o restante para os traficantes, a polícia, os intermediários do poder e os funcionários do governo que facilitam o transporte para fora do país.

Embora o cultivo da papoula continue florescendo em toda parte, a Otan mostrou um progresso concreto no Vale do Rio Helmand, zona dos alimentos. Aqui, o plantio de papoulas foi eliminado quase totalmente, e o Taleban teve de ceder o controle. Nas áreas irrigadas de Nad Ali, os militares britânicos, responsáveis pela Província de Helmand até pouco tempo atrás, distribuíram sementes de trigo de excelente qualidade a fim de incentivar fim do plantio de papoulas.

A iniciativa funcionou melhor entre os agricultores que tinham terra bem irrigada e conseguiram plantar trigo suficiente para investir em empreendimentos secundários nas aldeias e aumentar a sua renda. A conclusão é de David Mansfield, pesquisador da Universidade Tufts que acompanhou a vida dos agricultores na província de Helmand durante mais de uma década e recentemente publicou um estudo exaustivo sobre a economia rural da província.

O governador de Helmand, Gulab Mangal, empreendeu a distribuição de sementes de trigo ao lado de uma agressiva erradicação da papoula na zona de produção de alimentos. No segundo ano, os resultados foram impressionantes: o cultivo da papoula caiu 33%. Mas essa tendência diminuiu drasticamente nos anos seguintes, com uma redução de apenas 7%, em 2010, e de 3% em 2011, segundo estatísticas da equipe de reconstrução da Província em Helmand.

Embora o trigo pague relativamente bem, sua venda pode ser um problema, dizem vários agricultores de Nad Ali. E isso se aplica ainda mais ao algodão. Os camponeses queixam-se de que a usina de beneficiamento do algodão do governo muitas vezes não funciona ou demora muito para pagar. Além disso, o algodão afegão não pode competir com o paquistanês, que é mais barato.

Para os produtores mais pobres, muitos dos quais eram meeiros quando trabalhavam na zona de produção de alimentos, a mudança para o deserto para plantar papoulas significou que eles podem comprar terra barata, e podem alimentar suas famílias melhor porque podem ganhar mais. O estudo de Mansfield observa que a maioria dos produtores nas áreas desertas pode comer carne mais frequentemente do que quando eram meeiros plantando culturas legítimas na zona dos alimentos e podem casar os filhos, algo muito dispendioso no Afeganistão.

 TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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