Rohingyas, a pior crise humanitária desde Ruanda
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Rohingyas, a pior crise humanitária desde Ruanda

Veja os depoimentos dados aos Médicos Sem Fronteira sobre a perseguição à minoria muçulmana

Redação Internacional

25 Outubro 2017 | 05h00

A organização humanitária Médicos Sem Fronteira (MSF) colheu depoimentos de refugiados da minoria étnica rohingyas – muçulmanos que fogem da perseguição do Exército em Mianmar – sobre os ataques a vilarejos por militares e grupos radicais budistas. Desde agosto, mais de 600 mil rohingyas cruzaram a fronteira para Bangladesh. As Nações Unidas classificaram a crise como a pior desde o massacre de tutsis m Ruanda, em 1994. Veja os depoimentos dados à organização e divulgados por sua assessoria de imprensa.

 

Mulher de 25 anos de idade admitida no centro médico de MSF por causa de ferimentos no ventre e no pescoço:

“Os militares nos atacaram na quarta-feira [30 DE AGOSTO], eram mais de 150. Antes disso, o Mogh Ukhatta (como são chamados os chefes das aldeias no estado de Rakhine) ordenou que nos reuníssemos às margens do canal do vilarejo. Todos nos reunimos ali; eles estavam armados, então não podíamos fazer nada. Então eles começaram a matar os homens na nossa frente. Colocaram os cadáveres em um dique e os queimaram. Então os militares levaram grupos de mulheres para dentro das casas e nos esfaquearam com machados. Um me esfaqueou perto da minha vagina. Outro esfaqueou minha garganta. Eu estava segurando meu bebê de 28 dias no meu colo. Eles atingiram meu bebê com alguma coisa pesada. O objeto bateu na cabeça e o bebê morreu. Eu vi como seu crânio se abriu e seu cérebro saiu. Eu consegui chegar aqui, mas não sei para onde vou depois que receber alta. Não tenho nada, apenas as roupas do corpo. Não conheço ninguém e meu bebê está morto. Eu tento não pensar nisso, mas é demais para mim.”

Refugiada rohingya em abrigo em Bangladesh / AFP PHOTO / TAUSEEF MUSTAFA

Refugiada rohingya em abrigo em Bangladesh / AFP PHOTO / TAUSEEF MUSTAFA

Irmão de paciente de 18 anos admitido na enfermaria da clínica de MSF em Kutupalong com feridas e queimaduras:

“Havia 22 pessoas na minha família. Destas, 19 foram assassinadas, incluindo crianças pequenas. Há apenas três sobreviventes – dois irmãos e uma irmã. Quando os militares incendiaram as casas, pensei que todos da minha família haviam sido mortos. Eu chorei muito. Pensamos em lutar contra os militares, mas havia muitos e não temos armas, então só podemos morrer. Chorei durante todo o caminho para Bangladesh. Cinco dias depois, ouvi dizer que minha irmã estava viva. Ela conseguiu chegar a Bangladesh e foi internada no hospital. Eu a encontrei aqui”.
Paciente do sexo feminino de Maungdaw, tratada por MSF por lesões relacionadas à violência

“Na tarde de 30 de agosto, os militares chegaram a nossa aldeia. O Mogh Ukhatta (chefe de aldeia no estado de Rakhine) nos disse para não fugir, e que os militares só estavam procurando pelo Al Yaqin (o nome anterior do Exército de Salvação Arakan Rohingya, conhecido como ESAR). ‘Eles não vão machucar vocês se vocês se reunirem em um só lugar e cooperar com as autoridades’, disse ele. Nós acreditamos e todos foram para a margem do canal – mulheres, homens, crianças e idosos. Centenas de militares chegaram. Primeiro, escolheram homens e os mandaram deitar na beira do canal, com o rosto para o chão. Seus corpos estavam na água. Então, os militares os apunhalaram nas costas muitas vezes. Eu vi com meus próprios olhos como eles mataram meu marido. Ele era um agricultor, nada mais. Eles queimaram todos os corpos juntos.

Vendo essa matança, alguns jovens tentaram correr. Só conseguiram chegar ao cemitério da aldeia. E foram atingidos por tiros nas costas. Meu filho e meu sobrinho, ambos de 12 anos, estavam lá. Eles também estão mortos. Meu pai também foi morto a tiros.

Os militares levaram então grupos de mulheres para as casas, as esfaquearam e surraram. Algumas morreram. Um soldado me esfaqueou na garganta e no queixo. Outro deu um golpe com a mão, não me lembro com que instrumento. De alguma forma consegui sair da casa e entrar no mato. Então os militares incendiaram a casa. À noite, os militares saíram e entrei na floresta. Lá encontrei quatro mulheres da minha aldeia; elas também haviam sido feridas e sangravam. Depois de três dias de caminhada, entramos juntas em um barco para Bangladesh. Não consigo lembrar a data com clareza, tudo parece confuso para mim. Perdi meus seis filhos: três meninas e três meninos. O mais novo tinha três meses de idade. Quando eu fugi, levei um bebê do tamanho do meu próprio bebê. Eu pensei que era meu. Depois de um tempo eu percebi que não era meu bebê, era outro bebê morto. A barriga tinha sido cortada.

Mais de 600 mil pessoas fugiram para Bangladesh AFP PHOTO / TAUSEEF MUSTAFA

Mais de 600 mil pessoas fugiram para Bangladesh AFP PHOTO / TAUSEEF MUSTAFA

Konstantin Hanke, médico de MSF

“As pessoas estavam chegando em um estado horrível. Algumas contaram que ficaram presas em casas incendiadas. Tratamos crianças não acompanhadas que perderam suas famílias. Um pequeno bebê recém-nascido foi trazido por uma mulher que o encontrou no chão, na fronteira. Ela agora está cuidando da criança, além de seus próprios filhos. Nós tratamos uma jovem com uma ferida na cabeça; uma hora depois, sua mãe foi internada com queimaduras graves. Elas disseram que eram as únicas sobreviventes de sua família.”

 ONG's têm ajudado a cuidar dos refugiados Rohingya / AFP PHOTO / TAUSEEF MUSTAFA

ONG’s têm ajudado a cuidar dos refugiados Rohingya / AFP PHOTO / TAUSEEF MUSTAFA

Kate White, coordenadora médica de emergência de MSF:

“Ouvi as histórias mais horríveis de mulheres que perderam seus maridos tentando chegar aqui. Elas passam dias caminhando com seus filhos pequenos, em estradas movimentadas. Algumas crianças foram atropeladas e mortas. Em um instante, o futuro seguro que elas estavam tentando construir para sua família desaparece. Há milhares de tragédias individuais. Multiplique histórias como essa por 500 mil e você começa a entender o quão angustiante é a situação.”

Mãe de paciente de 25 anos que teve o 50% do corpo queimado: “Em 21 de agosto, cerca de 30 soldados vieram e queimaram nossa casa, além de mais nove casas. Meu filho estava dentro da casa dormindo. Eu estava procurando por duas de minhas vacas e minhas cabras que haviam desaparecido no dia anterior. Era de manhã. Quando voltei, vi as casas pegando fogo e então percebi que a cobertura da minha casa também estava em chamas. Ouvi meu filho gritar lá dentro e o resgatei com um cobertor. Ele estava quase em chamas quando o arrastei para fora. Duas outras crianças queimaram dentro de suas casas”.

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