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Rússia, Irã e Egito criticam as táticas dos EUA em Ferguson

Redação Internacional

22 de agosto de 2014 | 05h00

CENÁRIO: Robert Mackey / The New York Times

Depois que a polícia do condado de St. Louis, de uniforme e com equipamento de guerra, treinou com suas espingardas dotadas de mira telescópica disparando contra pacíficos manifestantes na cidade de Ferguson, na semana passada, encheu as ruas de gás lacrimogêneo e expulsou jornalistas, o analista russo Mark Adomanis observou que as imagens de uma repressão contra dissidentes nos Estados Unidos facilitarão a vida do homem recentemente encarregado da propaganda para o Kremlin, Dmitry Kiselyov.

Como meu colega David Herszenhorn relata, desde então os canais da televisão estatal da Rússia mostram continuamente a violência em Ferguson, e, na terça-feira, um âncora de Moscou falou aos telespectadores que a situação em Ferguson estava perto da guerra civil. “Os casos de racismo não são raros na nação da democracia exemplar”, explicou o canal Rossiya 24 controlado pelo governo.

Konstantin Dolgov, comissário do Ministério do Exterior russo para “os direitos humanos, a democracia e o Estado de direito”, também insistiu na resposta da polícia contra os manifestantes de Ferguson, depois da morte do adolescente desarmado, Micharl Brown, no dia 9 de agosto.

Ressaltando “as tensões elevadas na sociedade americana, que continua dividida em razão do preconceito racial”, Dolgov afirmou que os EUA “deveriam cuidar dos seus graves problemas internos, e adotar medidas
efetivas para resolvê-los”.

O feed oficial do Twitter do ministério compartilhou um artigo sobre os comentários de Dolgov com uma fotografia de Hedy Epstein, uma sobrevivente do Holocausto, hoje com 90 anos, ativista política de St. Louis que foi presa na segunda-feira por protestar contra a decisão do governador de Missouri de chamar a Guarda Nacional em Ferguson.

“Apesar de instarem os outros países a garantir a liberdade de expressão e a não reprimir as manifestações contra o governo, as autoridades dos Estados Unidos não se mostram tão condescendentes com
os que, internamente, expressam seu descontentamento com a persistência das desigualdades, a discriminação patente e a situação de cidadãos de ‘segunda classe’ “, prosseguiu Dolgov.

O “caos total” também se tornou o foco principal da rede Rússia Hoje, RT, controlada pelo governo, cujo público alvo são os telespectadores no exterior para os quais transmite matérias em inglês, espanhol e
árabe, destacando frequentemente as deficiências dos EUA com um zelo neo-soviético.

Esta semana, o principal canal de língua inglesa da RT transmitiu sem parar atualizações da “zona de guerra” por meio de sua correspondente Anastasia Churkina – filha do embaixador da Rússia na ONU, Vitaly I. Churkin. A agência de notícias da RT, Ruptly, exibiu um fluxo constante de informações de Ferguson em seu canal do YouTube, sequências não editadas de vítimas de gás lacrimogêneo e a visão das manifestações por meio de um drone nas proximidades de um posto de gasolina saqueado e incendiado.

O que faltou a esta cobertura foi a menção das leis que efetivamente proíbem os protestos na Rússia ou a prisão de bloggers e dissidentes famosos. Por outro lado, as autoridades de Moscou há muito se valem das
discussões sobre a desigualdade racial nos EUA para responder às criticas aos seus abusos dos direitos humanos. “A nova tática russa consagrada de devolver a crítica começou com os direitos humanos”, disse Joffe. “Sempre que os EUA ressaltavam as violações dos direitos humanos dos soviéticos, estes tinham a resposta pronta: ‘E vocês lincham os negros’, retrucavam”.

As desordens chocaram também os observadores americanos e os correspondentes estrangeiros de outras democracias ocidentais – inclusive repórteres britânicos e alemães que ficaram impressionados com os “sons de batalha” e inclusive foram presos – , mas algumas das críticas mais incisivas sobre a violência policial em Ferguson, vieram de algumas nações autoritárias em que as forças da ordem frequentemente são veneradas e o dissenso não é tolerado.

A cobertura que reitera o conteúdo das transmissões de Moscou também apareceu na Press TV, a estação controlada pelo governo do Irã, com matérias sobre o emprego da força “para reprimir os protestos em Ferguson”, mas que também não se referiu a como o governo do Irã costuma dispersar as manifestações.
Uma série de atualizações do feed do Twitter do clérigo que governa a nação iraniana, o aiatolá Khamenei, foi ainda mais longe. Vários tuítes em nome do aiatolá chamaram a atenção para a longa história de racismo nos EUA.

Outras mensagens do líder supremo iraniano aludiram à teoria segundo a qual os líderes americanos ignoram o sofrimento do seu próprio povo por causa da “dominação sionista” e da preocupação com a defesa de Israel.

Para não ficar atrás, um porta-voz da chancelaria do Egito, Badr Abdel-Atti, disse à agência oficial de notícias MENA na terça-feira que seu país “acompanha atentamente” os protestos em Ferguson. Segundo a estatal Ahram Online, o Egito “pediu às autoridades americanas que tivessem calma e tratassem os protestos de acordo com as normas americanas e internacionais”. O comunicado foi divulgado dias depois do primeiro aniversário do massacre de centenas de manifestantes pacíficos pelo mesmo governo apoiado pelos militares.

Como meu colega Austin Ramzi informou, a agência oficial de notícias da China, Xinhua, também publicou um comentário esta semana atacando os Estados Unidos pelo racismo e a hipocrisia na questão dos direitos
humanos. “O incidente de Ferguson mais uma vez demonstra que até mesmo um país que durante anos tentou exercer o papel de juiz e defensor internacional dos direitos humanos, ainda tem muito o que melhorar
internamente”, disse o editorial da Xinhua. “Obviamente”, concluiu, “o que os Estados Unidos precisam fazer é procurar resolver seus próprios problemas antes de apontar o dedo acusador para os outros”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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