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Santa Clara, a cidade de Che Guevara, vira reduto LGBT em Cuba

Cuba atualmente debate a possibilidade de incluir na Constituição o casamento entre pessoas do mesmo sexo e Villa Clara, província de Che Guevara, é o reduto das demandas LGBT no país

Redação Internacional

21 Setembro 2018 | 16h15

SANTA CLARA, CUBA – Adela penteia sua peruca rosa, cercada por fotos do namorado e de Che Guevara. É enfermeira, transgênero e vereadora em Caibarién, um povoado pesqueiro situado a 50 quilômetros de Santa Clara, no centro de Cuba.

Santa Clara é a capital da província de Villa Clara. Nessa cidade, Ernesto Che Guevara descarrilou um trem militar de Fulgencio Batista em 1958, e a cidade adotou o argentino como filho. É lá que descansam seus restos, em um memorial, junto com seus companheiros da guerrilha.

A 30 quilômetros de Santa Clara está Placetas, terra do atual presidente Miguel Díaz-Canel. E, nas últimas décadas, toda província se tornou a mais inclusiva para pessoas LGBT.

“Sou mais revolucionário do que gay, e mostrei para esse governo, essa sociedade, para muitos dirigentes e oponentes homofóbicos (…) E olha que mais gay do que eu não tem, porque sou de nascimento”, afirma José Agustín Hernández, de 53 anos, ou Adela, autoridade do Poder Popular em Caibarién e que fala de si nos gêneros masculino e feminino, sem distinção.

Seu nome como mulher, Adela, veio da central açucareira onde nasceu. Além de suas ocupações habituais como autoridade, ela acumula quase três décadas como transformista.

No momento em que a ilha socialista debate a inclusão do casamento homossexual em sua nova Constituição, em Santa Clara, de 200.000 habitantes, Adela se lembra que a luta começou ali. Além de sua vereadora, a província tem um hotel “gay friendly” e o El Mejunje, centro cultural com shows de drag queens, que sobrevive, desde 1984, a décadas de homofobia.

O fundador do El Mejunje, Ramón Silverio, de 69 anos, comemora a mudança. “Quando leio o projeto de Constituição me dou conta de que não estava enganado: não à discriminação por gênero.” “Santa Clara é outra. Não estranha, nem se choca com nada, porque tudo pode acontecer”, acrescentou.

Uma mistura que cura tudo

Um “mejunje” é uma poção de diversas ervas medicinais. Construído sobre as ruínas de um hotel, El Mejunje também é uma mistura, abrindo espaço para jovens artistas e músicos. Tem teatro, sala de concertos e sala de dança para crianças e adultos. A entrada custa 5 pesos cubanos (20 centavos de dólar).

“Minha ideia foi fazer um lugar para todas e todos, sem importar quem fosse, ou quais suas preferências”, explicou Silverio. “Nos primeiros anos, El Mejunje era visto como o inferno, aquele lugar que reunia essas pessoas que, por estereótipos, não eram aceitas pela sociedade”, explica.

Eram épocas em Cuba durante as quais os homossexuais eram hostilizados e marginalizados. Pouco a pouco, porém, “a imagem foi mudando, e as pessoas se deram conta de que era algo que não se podia negar”, afirma.

“Díaz-Canel chegou aqui no Mejunje antes de ser primeiro-secretário do Partido (Comunista de Cuba, em Villa Clara), porque trazia os filhos para as atividades para crianças que nós oferecíamos”, lembra Silverio. O hoje presidente de Cuba assumiu o cargo provincial em 1994.

“El Mejunje mudou a cidade e fez que se olhasse o país de outra maneira”, comentou. No pátio, interagem gays, “otakus”, skaters, artistas, cantores, padres, filhos: “Esta é a sociedade do futuro”, afirma o fundador do estabelecimento.

Próximo dali, em uma casa com uma porta de amarelo intenso, Saily González e seu marido abriram, há três anos um pequeno hotel que se tornou um lugar inclusivo. “Surgiu com um hóspede, hoje amigo, que veio fazer um documentário sobre os transformistas. Recebi vários drag queen que gravaram suas entrevistas nesta casa. Suas histórias me comoveram”, conta Saily.

Ela acredita que as mudanças constitucionais possam atrair o turismo LGBTI. “Que uma pequena ilha no Caribe, como é Cuba, com a história política que tem, complicada e contraditória, aprove de repente o casamento igualitário vai ser ‘the big deal'”, afirma.

“Bicha, mas não ladrão”

Adela vive em uma modesta casa em Caibarién, onde foi três vezes eleita vereadora. “Caibarién é um município que se caracteriza por ser aberto às preferências sexuais. Mesmo sendo um município pesqueiro”, diz.

Ela emigrou para a cidade, vinda da central açucareira onde morava. Seu pai não aceitava que fosse gay.Ela o denunciou à polícia por outro motivo e ele acabou preso por dois anos. Eram os primeiros tempos do triunfo da Revolução. “Naquela época, se cometia muita crueldade. Você não podia ser gay, porque era marginalizado pela sociedade e pelo governo”, lembra.

Em Caibarién, ele encontrou compreensão. “Um agente da Polícia Nacional Revolucionária me propôs ser presidente do CDR”, relatou, referindo-se aos Comitês de Defesa da Revolução. Depois, chegou a ser delegado (vereador). Conta que até eleitores conservadores lhe disseram: “Prefiro o bicha do que o dirigente ladrão”.

Antes, Adela quis ser soldado e se apresentou na escola de cadetes, desconcertando os instrutores. Foi mandada para a escola de Enfermaria. Hoje trabalha na área de eletrocardiograma da policlínica de seu bairro. Vive com seu parceiro, um jardineiro de 27 anos, um longo relacionamento.

E sonha com se casar: “É uma conquista da evolução da raça humana”. Adela lembra que foi a deputada Mariela Castro, filha do ex-presidente Raúl Castro, a promotora dessa iniciativa. Como vereadora, foi à Polícia para que pedissem aos religiosos de seu bairro a retirada de cartazes que rejeitavam o casamento gay.

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