Silenciosamente, Israel legaliza postos avançados piratas na Cisjordânia
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Silenciosamente, Israel legaliza postos avançados piratas na Cisjordânia

Mais de 40 famílias de judeus ortodoxos vivem em Mitzpe Danny, um de uma corrente de postos avançados localizados em uma crista de colinas com vista deslumbrante do Monte das Oliveiras, em Jerusalém, e da Jordânia

Redação Internacional

31 Agosto 2016 | 05h00

Isabel Kershner
The New York Times

MITZPE DANNY, CISJORDÂNIA – Numa noite do verão de 1998, um homem que se definia como “empreendedor de postos avançado” estacionou três trailers numa inóspita colina da Cisjordânia ocupada por Israel e criou seu primeiro assentamento pirata.

Dezenas de jovens apoiadores aclamaram o empreendedor, Shimon Riklin, cuja mulher, um filho recém-nascido e um outro filho garoto haviam se juntado a ele dias antes. Uma segunda família mudou-se para o pedaço. Para surpresa inicial dos novos moradores, ninguém das Forças Armadas ou do governo apareceu para removê-los. “Após seis meses”, disse Riklin numa entrevista recente, “concluí que tudo estava acertado.”

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Fotografia aérea de 2001 de Mitzpe Danny fornecido pela ONG Peace Now ao NYT

Eles batizaram o posto avançado de Mitzpe Danny, em homenagem a um imigrante britânico que havia sido morto a facadas por um palestino num assentamento do outro lado da rodovia, e passaram os próximos seis meses ajudando a estabelecer Mitzpe Hagit e depois Neve Erez, perto dali. “Pulei de colina em colina”, disse Riklin.

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O mesmo local, 14 anos depois

Hoje, mais de 40 famílias de judeus ortodoxos vivem em Mitzpe Danny, um de uma corrente de postos avançados localizados em uma crista de colinas com vista deslumbrante do Monte das Oliveiras, em Jerusalém, e da Jordânia. Eles são parte de uma ampla rede de cerca de cem postos avançados estabelecidos, na maioria, durante as duas últimas décadas sem autorização do governo.

Deles, pelo menos um terço foram legalizados retroativamente ou – como o Mitzpe Danny – estão em vias disso. Grupos antiassentamentos que acompanham o processo veem isso como um silencioso, mas metódico, esforço do governo para mudar o mapa da Cisjordânia, agora há 50 anos sob ocupação israelense, por meio da fortificação dos postos avançados que proliferaram por ela.

Com o processo de paz israelense-palestino adormecido, e a comunidade internacional desconfiando cada vez mais do compromisso da direita israelense com a eventual criação de um Estado palestino, os postos avançados são considerados uma evidência de que o conflito talvez seja de impossível solução. Em seu relatório de julho, o chamado Quarteto da Paz do Oriente Médio – Estados Unidos, União Europeia, Nações Unidas e Rússia – citou os postos como uma tendência que “põe em perigo a viabilidade da solução de dois Estados”.

O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que estava no primeiro mandato quando Mitzpe Danny foi fundado, apoia desde então a ideia de um Estado palestino ao lado de Israel, e disse que seu governo não criaria novos assentamentos nem expropriaria terras para ampliar os já existentes. Mas Ziv Stahl, diretora de pesquisas do Yesh Din, grupo esquerdista de defesa de direitos, disse que “disfarçadamente, eles continuam autorizando”.

Segundo Ziv Stahl, Israel tenta evitar a censura internacional registrando postos avançados do tipo Mitzpe Danny como “bairros” de assentamentos estabelecidos, embora muitos estejam bastante distantes dos assentamentos e funcionem como comunidades separadas.

Citando outras medidas israelenses paralelas, entre elas a demolição de estruturas palestinas não autorizadas na Cisjordânia, Ziv acrescenta: “Vemos isso como um avanço gradual rumo à anexação”.

Indagado sobre a legalização dos postos avançados – e a crítica internacional –, o porta-voz de Netanyahu, David Keyes, não respondeu diretamente, preferindo referir-se às declarações de líderes palestinos de que nenhum assentamento poderá continuar existindo na Cisjordânia sob um futuro acordo.

“A frequentemente ecoada exigência palestina de limpar etnicamente de judeus seu futuro Estado é ultrajante, imoral e antiética em relação à paz”, disse Keys por e-mail. Os postos avançados estão estrategicamente localizados ao longo de mais de 120 assentamentos formalmente aprovados por Israel; neles reside uma fração dos 350 mil colonos judeus da Cisjordânia.

Um grupo de postos avançados se espalha a leste de Shilo: Shvut Rahel, Adei Ad, Ahiya, Kida, Esh Kodesh. Esses postos dominam as colinas existentes entre vilas palestinas como Qusra, Jalud, Al-Mughayyer e Duma, esta, cenário do mortal ataque incendiário do ano passado pelo qual um jovem israelense foi acusado de assassinato e outro de conspiração.

Enquanto a maior parte do mundo considera todos esses assentamentos uma violação da lei internacional, Israel faz distinções – entre elas, se os assentamentos ficam em terras palestinas particulares e se tiveram aprovação governamental para construção.

Um pesquisa do governo israelense de 2005 supervisionada por Talia Sasson, ex-promotora, listou pelo menos 105 postos avançados estabelecidos “em flagrante violação da lei” e pediu “medidas drásticas”, entre elas a imediata remoção daqueles localizados em terras particulares.

Mas, em 2012. Netanyahu criou outro grupo que chegou a conclusões gritantemente diferentes. Liderado por Edmund Levy, juiz aposentado da Suprema Corte, o grupo concluiu em seu relatório que a Cisjordânia na verdade não está ocupada – em parte porque o domínio anterior de 19 anos da Jordânia nunca foi reconhecido internacionalmente –, não havendo, portanto, impedimento em aprovar postos avançados estabelecidos em terras estatais sob o que chamou de “acordo implícito” de altos funcionários israelenses. O relatório Levy, no entanto, sustentou a política israelense de que assentamentos em terras palestinas privadas são ilegais. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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