As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Sul-coreanos enviam cães à adoção nos EUA ao invés de usá-los como alimento

Cerca de 200 cachorros serão entregues a famílias americanas ao invés de serem sacrificados e servidos em restaurantes da Coreia do Sul

Redação Internacional

21 Setembro 2015 | 11h38

SEUL – Comer carne de cachorro é um hábito na Coreia do Sul, mas isso está mudando. Alguns produtores arrependidos fecharam suas explorações caninas e decidiram entregar para adoção quase 200 animais a famílias dos Estados Unidos.

“Quando vendia um cachorro a um distribuidor ou a algum restaurante, às vezes meus olhos se enchiam de lágrimas”, confessou Kim Jin-young, de 53 anos, que até o mês passado administrava com o seu marido uma fazenda com mais de 100 cães para consumo humano.

Kim foi a terceira fazendeira a aderir à campanha da Humane Society International (HSI), que começou em janeiro e oferece apoio econômico e logístico aos que decidem trocar a criação de cachorros por outra atividade. No caso de Kim, pela agricultura.

A ONG, que também atua no Brasil em três frentes, libertou 186 cachorros sul-coreanos para enviá-los a São Francisco, onde novas famílias os esperam. “Estamos conseguindo, mas ainda resta muito trabalho a fazer”, reconheceu Kelly O’Meara, diretora de animais de companhia e engajamento da HSI.

Na Coreia do Sul existem ainda mais de 17 mil fazendas ativas e anualmente 2 milhões de cães são usados como comida, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. Há anos, a carne de cachorro ou “kaegogi” faz parte da dieta coreana, pois a ela são atribuídas diversas propriedades, como aumento do vigor sexual masculino ou aceleração do processo pós-cirúrgico.

Em razão de seu intenso aroma e textura, ela é geralmente consumida em sopas, mas também pode ser servida apenas fervida ou em tiras.

Embora nas áreas rurais qualquer cão possa servir de alimento, em geral os destinados ao consumo carecem de “pedigree”.

“Na Coreia do Sul existe a percepção de que certos cachorros são animais de estimação e outros são para comer”, disse a diretora da ONG, que garante que “esta ideia equivocada está acabando aos poucos”.

Nos restaurantes especializados em “kaegogi” é cada vez mais difícil ver clientes jovens e principalmente mulheres, pois consideram repugnantes o cheiro e o sabor da sopa de cachorro ou “boshintang”.

Além disso, conforme a Coreia do Sul se transforma em um país desenvolvido, onde milhões de pessoas têm cães como animais de estimação, se abre um debate ético sobre o costume de comer cachorro e sobre como estes animais são tratados nas fazendas.

Associações de defesa dos animais denunciaram que grande parte desses animais vivem amontoados em jaulas sem higiene e, para sacrificá-los, às vezes são usadas técnicas cruéis.

No Moran Market, em Seul, é possível ver gaiolas com cachorros de diversas cores e raças que dividem um espaço mínimo à espera de serem sacrificados e servidos nos restaurantes da região.

Essa situação é atribuída em grande parte a uma brecha legal que existe no país sobre a criação de cães para o consumo humano. De acordo com legislação sul-coreana, seu consumo não está regulado, mas também não é penalizado.

Assim, as condições de criação e cativeiro, o sacrifício e a qualidade da carne estão exclusivamente nas mãos dos fazendeiros, distribuidores e vendedores.

A Coreia do Sul não é o único país da Ásia que utiliza carne de cachorro na alimentação. Aos dois milhões de cães que os sul-coreanos devoram anualmente se somam outros cinco milhões no Vietnã e cerca de 10 milhões na China, segundo dados da HSI. /EFE