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Traumas e infecções – O que 17 dias em uma caverna podem causar

Especialistas envolvidos no tratamento dos garotos dizem que os riscos são baixos, mas eles podem ter de enfrentar complicações de longo prazo

Redação Internacional

11 Julho 2018 | 05h00

Renata Tranches e Lorena Lara 

Os 12 garotos resgatados da caverna Tham Luang estão felizes e em boas condições de saúde, mas continuarão em quarentena e internados por sete dias em razão do risco de raras infecções, segundo os médicos que tratam os meninos.

Especialistas envolvidos no tratamento dos garotos dizem que os riscos são baixos, mas eles podem ter de enfrentar complicações de longo prazo, como estresse pós-traumático. Médicos e especialistas consultados pelo Estado falam sobre quais são os riscos para uma pessoa que passe 17 dias isolada em uma caverna. Saiba mais:

Psiquiatria
Christian Kristensen – professor de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-RS e especialista em estresse pós-traumático

Segundo o professor de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-RS e especialista em estresse pós-traumático Christian Kristensen, é possível que os meninos que ficaram presos na caverna na Tailândia desenvolva estresse pós- traumático, mas será preciso aguardar ao menos 30 dias para dar um diagnóstico como esse. Ele ressalta que os meninos vivenciaram uma experiência extrema de isolamento com risco efetivo à vida e à integridade física. “Com certeza eles tiveram momentos de maior ou menor esperança de resgate, de privação de alimento e de luz solar, uma série de fatores, físico e psicossociais que possam contribuir para um conjunto de reações pós-traumáticas”, disse.

No curto prazo, no entanto, deve-se esperar reações emocionais, físicas, sociais mais intensas que poderão se caracterizar como um transtorno de estresse agudo ou transtorno de ajustamento. Normalmente, o transtorno de estresse agudo tem as mesmas características do estresse pós-traumático, mas esse segundo diagnóstico é reservado apenas para aqueles quadros verificados dentro de um mês após a ocorrência do evento. Ele não é estabelecido dentro dos primeiros 30 dias. No entanto, algumas pessoas já podem mostrar sinais evidentes de adoecimento.

Kristensen explica que os sintomas mais comuns envolvem pensamentos ou sintomas de intrusão ou revivescência que podem envolver experiências de flashbacks, sentimento de que o evento esteja ocorrendo agora, pesadelos, recordações sobre a situação que vivenciais ou até mesmo sofrimento intenso quando se depara com estímulos que lembram a situação extrema à qual eles foram expostos.
Um outro conjunto de sintomas tem a ver com evitação, ou seja, as vítimas querem evitar coisas relacionadas à experiência traumática, evitar pensar ou recordar o que aconteceu e fazer um esforço para não pensar nisso.

O quadro exige acompanhamento a longo prazo, do ponto de vista da saúde mental. Alguns dos meninos podem exibir logo no início um conjunto de sinais e sintomas de transtorno mental e outras nenhum desses sinais, avalia o psiquiatra. Mais tarde elas podem apresentar algum transtorno. E há aqueles, explica, que são mais resilientes que podem passar por uma situação extrema como essa e não adoecer, retomar sua vida as poucos e nunca ter problema.

O fato de eles estarem bem e de bom humor é um ótimo sinal. E segundo o psiquiatra é interessante que o técnico tenha conseguido manter os meninos dentro de um espírito mais tranquilo, esperançoso. “O contexto de estar em  grupo pode ter favorecido”, disse. “Mesmo que a situação fosse ruim, havia a perspectiva de um desfecho favorável e o apoio das famílias.”

Na sua avaliação, os meninos precisam ser acompanhados agora, não necessariamente por um psicoterapeuta, mas com um eventual monitoramento de possíveis desfechos mais desfavoráveis, como o adoecimento. “Eles não precisam ser necessariamente ser tratados, mas em algum grau acompanhados.”

Oftalmologia
Mônica Cronemberger – oftalmologista pediátrica

Segundo a oftalmologista pediátrica Mônica Cronemberger, os 15 dias isolados em uma caverna, um ambiente escuro e úmido, provavelmente sem água potável, poderia ocasionar algum processo alérgico ocular ou infecção. Elas precisam ser examinadas por um oftalmologista que fará a higiene dos olhos.

O outro aspecto importante é se não ocorreu a progressão de miopia. Ela explica que existem estudos que mostram que as crianças precisam ficar expostas pelo menos duas horas por dia ao sol para o crescimento correto do olho.

Segundo Mônica, especialistas consideram 15 dias um período muito pequeno para ter alguma consequência desse tipo, mas é importante observar principalmente no caso daquelas que já têm predisposição. O uso dos óculos escuros provavelmente foram para o conforto dos olhos dos meninos e uma precaução.

Quando o resgate chegou à mina, já foram ligados holofotes, então elas já tiveram uma exposição à luz lá dentro mesmo. Para uma criança normal, com a retina normal, quando ela sai de um ambiente escuro para um claro ela terá uma fotofobia que vai incomodar, mas apenas alguns minutos, de 10 a 15, já são suficientes para o olho voltar a se adaptar à luz. Será apenas um simples ofuscamento e logo depois as crianças voltam a enxergar normalmente.

Dermatologia
Carla Pecora – dermatologista especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia

A dermalogista Carla Pecora explica que o ambiente úmido e escuro favorece o surgimento de uma infecção fúngica (micose) de diversos tipos. Ela pode começar na forma de um processo inflamatório nas dobras da pele pelo contato contínuo com a umidade. Nessa, acontece a ruptura da barreira da pele, que permite a entrada e colonização dos agentes patogênicos infecciosos, no caso, o fungo, chamado intertrigo.

A segunda possibilidade, explicou Carla, é de essa infecção evoluir para uma colonização secundária por fungo, pela baixa resistência do corpo, e causar a cândida. Cai a defesa do organismo pelas condições inóspitas do local, falta de alimentação, de tônus, estresse, e acaba tendo uma colonização dessas regiões por cândida.

A outra questão seria o ambiente úmido, que por si só favorecer a colonização de fungos nos espaços entre os dedos dos pés e na região plantar, da virilha, entre outros.

Depois dos fungos, outro risco é o de infecções bacterianas de pele em decorrência de ferimentos, que pode começar apenas com uma piodermite e evoluir para uma erisipela. Começa com uma infecção localizada, em cima da ferida, e pode evoluir para uma infecção mais extensa do tecido celular subcutâneo que é a erisipela.

O tratamento é a aplicação de antibiótico sistêmico e cuidados locais para a cicatrização de feridas e fungos. Pode ainda ocorrer eczema seborreico, que atinge o rosto e o couro cabeludo, e o eczema resultado do estresse emocional. As unhas também podem apresentar infecção por fungos. Além disso, o estresse favorece o surgimento de herpes labial.

A dermatologista explica que a desnutrição e a falta de nutrientes, de forma aguda, pode levar à queda da imunidade. Como consequência, há o surgimento de cândida, herpes e toda e qualquer infecção que eles possam apresentar.

Outra condição é a infecção fúngica que pode surgir nas unhas chamada paroniquea, que ocorre pelo fato de a mão ficar muito úmida. Nesse caso, explica, a pele ao redor da unha sofre com a entrada de agentes bacterianos e fúngicos pela umidade. No entanto, o fato de serem jovens ajuda na recuperação.

+  De 23 de junho a 10 de julho: confira como foi o resgate dos meninos presos em caverna na Tailândia

Pneumologia
André Nathan Costa, pneumologista da subcomissão de Epidemiologia da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia (SPPT), médico pneumologista do Hospital das Clínicas e do Hospital Sírio Libanês, professor da Faculdade de Medicina da USP

Segundo o professor André Nathan Costa, a principal doença respiratória relacionada ao ambiente de caverna é a histoplasmose, também conhecida como doença da caverna. “É uma doença causada por um fungo presente principalmente nas fezes dos morcegos”. Ele explica que o fungo está na natureza dormente e em forma de esporo, que é mais resistente. Quando é inalado e entra em contato com o pulmão, pode se transformar em levedura e levar ao desenvolvimento da doença, que acomete principalmente o pulmão. Mas ele ressalta que a transformação não é regra. “Pode não acontecer nada quando o esporo é inalado e o sistema imune pode simplesmente derrubar a infecção.”

No entanto, no caso dos meninos tailandeses, que estão fracos, o quadro a histoplasmose aguda pode se desenvolver. “Eles estão debilitados, comendo mal e provavelmente inalaram uma grande quantidade de esporos, caso os morcegos da caverna estivessem infectados”, pontuou o professor.

Segundo ele, os principais sintomas da doença da caverna são tosse, febre, dor no peito e falta de ar, e costumam aparecer de uma semana a quinze dias depois da inalação. “É uma doença muito semelhante à pneumonia, mas é uma doença fúngica. Eventualmente pode levar à tosse com catarro”, explicou Costa.

O tratamento para a histoplasmose é feito por antifúngicos e, caso não seja tratado em pacientes de quadros sensíveis, pode levar à morte. “A maioria das histoplasmoses são benignas e, por vezes, sequer o antifúngico é necessário. Mas quando se tem um quadro alterado, de pulmão mais acometido, se o estado do paciente está mais grave, se oxigenação está baixa ou a falta de ar é muito grande, a falta de tratamento pode levar à morte”, disse o professor. Na ausência do tratamento, o fungo continua a se disseminar e leva à falência do pulmão, resultando em morte por insuficiência pulmonar.

“Isso acontece muito em paciente imunossuprimidos, por exemplo aqueles que têm HIV ou tomam algum remédio para abaixar a imunidade”, exemplifica o médico. No caso dos meninos, o caso possível seria o de imunodepressão causada por desnutrição e alteração hormonal motivada pela alteração do ciclo circadiano. Tais alterações levam a um sistema imune alterado, diz o professor.

Outras possibilidades aventadas pelo especialista são a do vírus Nipah e do vírus da raiva, ambos transmitidos apenas pela mordida do morcego contaminado. Tais casos dependem da situação dos animais dentro da caverna onde estavam os meninos. Além disso, o professor aponta também para o desenvolvimento da pneumonia comunitária. “É a pneumonia adquirida fora do ambiente hospitalar. É causada por germes mais comuns e se desenvolve porque o sistema imune está debilitado”, afirma Costa.

O médico explica que a doença pode se desenvolver “simplesmente pelo fato de os garotos estarem em um ambiente frio, úmido, com pouca ou nenhuma alimentação”. Diante do sistema imune debilitado, bactérias comuns levam ao quadro, cujos sintomas são tosse, febre, expectoração, dor torácica e falta de ar.