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Trump e o futuro do socialismo: as perguntas após a morte de Fidel

O que acontecerá com o modelo socialista que implementou e com as reformas feitas por seu irmão Raúl Castro?

Redação Internacional

27 de novembro de 2016 | 15h31

Fidel Castro comandou Cuba durante 48 anos e continuou influenciando no destino da ilha até a sua morte. Com Fidel, se vai o inimigo firme de Washington, o defensor do socialismo a qualquer custo, o símbolo da resistência teimosa e intransigente, que não não deu trégua à dissidência.

O que acontecerá com o modelo socialista que implementou e com as reformas feitas por seu irmão Raúl? Continuará a aproximação com os Estados Unidos agora que o imprevisível Donald Trump na Casa Branca? Veja as perguntas levantadas após a morte do dirigente aos 90 anos:

(FILES) This file photo taken on May 12, 2002 shows Cuban President Fidel Castro delivering a speech after former US president Jimmy Carter's arrival at the Jose Marti airport in Havana 12 May 2002. Cuban revolutionary icon Fidel Castro died late on November 25, 2016 in Havana, his brother announced on national television. / AFP PHOTO / ADALBERTO ROQUE

Foto: Adalberto Roque/AFP

Adeus ao socialismo?

Não, pelo menos é essa a resposta de vários analistas consultados. “O socialismo cubano sobreviveu à longa doença de Fidel Castro e provavelmente acontecerá o mesmo após sua morte”, disse Jorge Duany, diretor do Instituto de Pesquisas Cubanas da Universidade Internacional da Flórida.

Sob o modelo de corte soviético, os cubanos recebem saúde e educação gratuitas, mas percebem que seus salários talvez sejam os mais baixos da América, não ultrapassando, em média, US$ 29 dólares. Ao mesmo tempo, o Estado, que controla 80% da economia, acumula sérios problemas de ineficiência.

“O que dificilmente continuará intacto é o modelo de um estado centralizado de bem-estar, com um só partido político (o comunista), e monopolizador dos meios de produção e comunicação”, acrescentou.

Para Arturo López-Levy, professor da Universidade do Texas Rio Grande Valley, a população cubana “não é dada a devaneios” e “é conservadora na defesa da tranquilidade social”, o que permite supor que dificilmente a ausência de Fidel tratá tensões.

Talvez por isso, para o analista, a incipiente oposição cubana enfrente “as piores circunstâncias”, porque por um lado está desconectada dos problemas centrais do cubano médio e, por outro, seus principais líderes se identificam com o pedido a Trump para que se desmontem os avanços conquistados com o presidente Barack Obama.
E a abertura econômica?

“A morte de Fidel Castro provavelmente acelerará as reformas econômicas em curso em Cuba sob a liderança de seu irmão Raúl. Talvez seja preciso esperar a saída de Raúl da presidência em 2018, segundo o anunciado, para perceber com mais clareza se haverá mudanças substanciais na cúpula dirigente”, aponta Duany.

Sem se afastar do rumo socialista, Raúl, de 85 anos, deu início a uma abertura em relação ao trabalho privado e ao investimento estrangeiro.

Cuba está em melhores condições do que antes para continuar as reformas, acredita López-Levy. Para ele, a chave está nas boas relacões diplomáticas que se conseguiu consolidar.

A ilha “está mais integrada que nunca com seu entorno regional”, e tem laços de afinidade tanto com aliados dos Estados Unidos (Europa e Japão), como com seus rivais (Rússia e China), ressaltou.

Por sua vez, Duany insiste que “a facção mais ‘pragmática’ do governo cubano, encabeçada por Raúl Castro, deve ter agora mais margem de manobra para continuar com o processo de ‘atualização’ do modelo cubano”.

Entretanto, Raúl insistiu que as mudanças previstas serão aplicadas paulatinamente, sem políticas de choque, e quando existirem as condições necessárias.


E Trump?

Em seu primeiro pronunciamento sobre Cuba desde a sua eleição, Trump reagiu à morte de Fidel classificando-o de “ditador brutal” e prometeu fazer “tudo o que for possível” para oferecer aos cubanos um caminho de “prosperidade e liberdade”.

“Acho que em um momento como este, que é particularmente sensível para os cubanos pela morte de Fidel, expressar-se dessa maneira demonstra uma incapacidade tremenda para lidar com a diplomacia internacional”, disse o acadêmico e ex-diplomata cubano Jesús Arboleya.

“Se alguma declaração unifica a maioria do povo cubano é uma declaração como essa, que é particularmente ofensiva, desrespeitosa, até desumana, sem nenhuma ética”, acrescentou.

Duany é cauteloso: “Tudo indica que as relações entre Cuba e Estados Unidos serão mais tensas na administração de Trump do que foi na de Barack Obama. No entanto, ainda não sabemos no que consistirá exatamente a política do novo presidente”.

“Outra incógnita é como a morte do ex-presidente Castro afetará a visão sobre Cuba do governo de Donald Trump. Seria racional que a morte do líder revolucionário ratificasse em Washington o diagnóstico de Cuba como país em transição”, comenta López-Levy.

Arboleya insiste que a declaração de Trump “vai afetar o desenvolvimento das relações porque estabelece um precedente muito negativo na possibilidade de um diálogo com o governo americano”.

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