Um novo pan-arabismo?
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Um novo pan-arabismo?

Luiz Raatz

14 de fevereiro de 2011 | 15h51

Foto: Zohra Bensemra/Reuters

A revista Foreign Affairs aponta a falta de sintonia entre o ex-ditador egípcio Hosni Mubarak e o mundo de hoje como um dos principais motivos para sua queda. De acordo com a publicação, Mubarak e outros governantes do mundo árabe, como o argelino Abdelaziz Bouteflika e o líbio Muamar Kadafi – forjados no contexto da luta pela independência das colônias da África e do Oriente Médio no pós Segunda Guerra Mundial – ‘pararam’ no tempo e já não conseguem mais oferecer respostas aos anseios da população.

Como Mubarak, outros ‘presidentes vitalícios’ veem desafios populares ao poder do Estado como ilegítimos e conspiratórios. Muitas vezes, como uma atitude incompreensível diante do risco das potências ocidentais voltarem a colonizar seus países. Estes líderes ainda seguem a cartilha de que a única cura para desafios políticos internos e externo é o autoritarismo, argumenta a publicação.

Enquanto isso, na praça Tahrir e nas ruas de Túnis, as pessoas têm uma visão diferente de nacionalismo, do Exército, tecnologia e ideologia. De acordo com o jornal The New York Times, as redes sociais e o sentimento de revolta contido na juventude árabe possibilitou um ‘novo pan-arabismo’. Pelo Facebook e Twitter, jovens tunisianos e egípcios trocaram informações sobre os protestos, sobre como aliviar os efeitos do gás lacrimogêneo, e como se organizar em barricadas e fugir da repressão.

A fusão entre o secularismo das redes sociais e da não-violência com a disciplina herdada dos movimentos religiosos possibilitou que esses jovens se libertassem da oposição tradicional, tão antiquada quanto os regimes que pretendiam derrubar, nota o NYT.

” A Tunísia foi a força que empurrou o Egito. O Egito será a força que vai empurrar o mundo”, disse Walid Rachid, um dos membros do movimento Juventude Seis de Abril, que ajudou a organizar os protestos contra Mubarak. Segundo ele, suas experiências estão sendo trocadas com jovens da Líbia, Argélia e Marrocos. “Se um pequeno grupo de pessoas em cada país árabe for às ruas e insistir como nós fizemos, todos estes regimes irão cair”.

Em certa medida, ele pode estar certo. Mubarak é um dos últimos remanescentes da descolonização da África e foi secretário-geral do movimento dos Não-Alinhados, idealizado pela ideologia terceiro-mundista de Nasser. Sua queda pode se tornar o paradigma do fim das ditaduras seculares da região.

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