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VISÃO GLOBAL: A ira das vinhas

Redação Internacional

25 de abril de 2012 | 03h00

Visão Global

Romney não seria mau presidente só por ser abstêmio, mas a história relaciona álcool na Casa Branca a bons governos

TIMOTHY EGAN
THE NEW YORK TIMES

Sabemos, a partir de uma rara admissão pessoal, que Mitt Romney experimentou um bafejo de álcool há muito, muito tempo.
“Experimentei uma cerveja e um cigarro quando era um adolescente teimoso”, ele disse em novembro. “E nunca provei isso de novo”, completou.
Com certeza Romney tem amigos que possuem as próprias cervejarias multinacionais. Mas ele não passaria num teste de cerveja presidencial – ou seja, aquele presidente com quem você gostaria muito de tomar uma cerveja – simplesmente porque sua religião mórmon proíbe a ingestão de álcool. Mas ele também não passaria no teste do chá presidencial, como ele mostrou em outra aparição desastrada com pessoas reais na semana passada.
Sempre achei bobagem dizer que não gostar de cerveja seria uma limitação. Mas vale a pena pensar como seria uma Casa Branca sem um ocupante que gostasse de bebericar. A sobriedade, louvável em muitos aspectos, implica rigidez de pensamento. Os melhores presidentes foram aqueles de mente aberta e, geralmente, apreciadores de um drinque.
Os abstêmios, pelos menos durante o século passado, foram presidentes horríveis. O último presidente a renunciar ao álcool foi George W. Bush, que parece estar fadado a ter seu nome eternamente acompanhado da frase “e sabemos no que deu”. Durante sua juventude desperdiçada, ele foi um beberrão convicto e considerado um tanto turbulento, mas também insuportável, amassando seu carro em latas de lixo e desafiando seu pai a partir para a briga.
Jimmy Carter era abstêmio e acabou se tornando um presidente de um único mandato. As duas coisas estavam relacionadas? Não posso dizer. Mas sua temperança era mais penosa para os visitantes da Casa Branca do que para o ocupante da Casa Brança.
“Você chegava às 18 horas ou 18h30, e a primeira coisa que era lembrado, caso precisasse ser lembrado, era que ele e Rosalynn tinham retirado toda a bebida alcoólica da Casa Branca”, lamentou Teddy Kennedy em seu livro de memórias, True Compass.
As recepções a seco dadas por Jimmy Carter dão a Romney alguma coisa para pensar. Os convidados ficariam mais dispostos a ouvi-lo discursar monotonamente sobre a crise europeia, sabendo que o armário presidencial de bebidas oferecia a esperança de um fim promissor para a noite?
Abstêmio. Um outro abstêmio do Salão Oval foi William Howard Taft, que fez tamanha confusão no seu único mandato que chegou em terceiro lugar ao tentar se reeleger em 1912. Comida era o vício de Taft. Ele engordou tanto que chegou a pesar quase 158 quilos.
Franklin D. Roosevelt apreciava um Martini, para o desprazer de Eleanor, e foi um presidente extraordinário. De novo, havia uma relação? Colocar um fim na Grande Depressão e esmagar a máquina de guerra nazista – ajudado pelo constantemente ébrio Winston Churchill – é um resumo bastante vigoroso. Nos seus anos de juventude, Roosevelt sabia como planejar o futuro. Quatro caixas de Old Reserve foram entregues em sua casa na cidade, na Rua 65 Leste, pouco antes de a Lei Seca entrar em vigor.
O que nos leva ao “grande experimento”, de 1920 a 1933, quando fanáticos proibiram um comportamento público aceito que existia desde antes de Jesus transformar água em vinho para animar uma festa de casamento em Canaã. A proibição, lembrou W.C. Fields, foi a época em que as pessoas “eram obrigadas a viver dias sem nada, apenas com comida e água”.
De acordo com Daniel Okrent, autor de Last Call, Herbert Hoover tinha uma adega enorme de vinhos. Sua mulher deu um fim a todas as garrafas antes de ele assumir seu único, e desastroso, mandato. Humm…
Okrent também observa que John Adams bebia uma jarra de cidra diariamente e uma cerveja ocasional no café da manhã. O pai fundador e segundo presidente dos EUA viveu até os 90. O Mount Rushmore também é instrutivo. George Washington gostava de vinho madeira e fabricava a própria aguardente. Em 1799, sua destilaria de uísque de centeio era a parte mais lucrativa da propriedade de Mount Vernon.
No caso de Thomas Jefferson, a verdade que sempre deixou evidente era o prazer de beber um bom vinho. Ele adorava vinhos chianti, borgonha e bordeaux, e passou metade da vida tentando produzir vinho, sem sucesso, em sua propriedade na Virgínia.
Teddy Roosevelt foi um apreciador de bebida mais brando. Ele processou o dono de um jornal de uma pequena cidade em 1913 por tê-lo chamado de bêbado e ganhou a ação. Sua única extravagância, era o que se dizia, era um xarope calmante de menta antes de ir para a cama.
Abraham Lincoln tinha uma licença para comercializar bebida alcoólica e também administrou uma taverna nos anos 1830, em Illinois. Raramente era visto com uma bebida na mão. O problema do álcool, afirmava, não era que fosse algo ruim, mas uma coisa boa da qual as pessoas de mau caráter abusavam. Um sucessor dele, Ulysses S. Grant, provou que ele estava certo.
Mitt Romney certamente é um retrógrado, mas não tenho certeza em relação a que. Talvez um Don Draper necessitando de um drinque. Ele não precisa compartilhar algumas cervejas conosco para provar que é humano. Mas diante de sua temperança, ele poderia mostrar um pouco mais da tolerância de presidentes que gostavam da sua uva, grãos e cevada fermentados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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