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VISÃO GLOBAL: A nova onda feminista do Islã

Patrícia Ferreira

01 de novembro de 2011 | 06h58

Visão Global

Várias mulheres do Ennahda, partido islâmico que venceu as eleições na Tunísia, foram eleitas para a Constituinte

*MONICA MARKS, THE NEW YORK TIMES

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Na Tunísia, onde a imolação de um vendedor desencadeou a primavera árabe, mais de 90% dos eleitores compareceram às primeiras eleições livres. Filas de cidadãos radiantes com os dedos lambuzados de azul saíam dos locais de votação, postando orgulhosamente fotos de seus dedos manchados no Facebook.

Apesar do sucesso da eleição, muitos temem que a democracia desencadeie um tsunami religioso. O partido islâmico Ennahda, banido como grupo terrorista pelo ex-ditador Zine Abidine Ben Ali, recebeu 40% dos votos – uma expressiva maioria. Uma pequena, embora influente, minoria de tunisianos seculares prevê que uma Assembleia Nacional dominada pelos fundamentalistas islâmicos revisará partes importantes da legislação de direitos civis, incluindo as que reconhecem o direito ao aborto e a proibição da poligamia.

As feministas seculares da Tunísia, muitas admiradoras do secularismo francês, veem as mulheres do Ennahda como agentes involuntárias da própria submissão. Embora o partido apoie o Código de 1956 – a lei sobre direitos das mulheres mais progressista do mundo árabe -, seus críticos o acusam de “duplo discurso”. Ele adotaria uma linha tolerante ao falar com secularistas francófonos, mas pregaria uma mensagem conservadora ao dirigir-se à sua base rural.

Em vez de desenvolver plataformas sólidas próprias, os partidos de oposição seculares, como o Ettajdid, concentraram-se no alarmismo, levantando o espectro de uma tomada do poder ao estilo iraniano e a imposição da sharia, a lei do Islã. Daniel Pipes e outros analistas entraram na disputa, conclamando Washington a opor-se ao “flagelo” do Ennahda e rotulando o islamismo de “maior inimigo do mundo civilizado”.

Ainda é cedo, porém, para soar o alarme. Por causa de sua participação ativa na política partidária, as mulheres do Ennahda podem ser mais beneficiadas pela eleição do dia 23 do que qualquer outro grupo. Em maio, a Tunísia aprovou uma lei de paridade extremamente progressista, parecida com a da França, exigindo que sejam mulheres a metade dos candidatos do país.

Partido há muito tempo reprimido, o Ennahda tem mais credibilidade do que outros grupos. Ele também tem um número de candidatas maior do que qualquer outro partido e, por isso, apoia a lei de paridade. Muitas tunisianas desenvolveram uma consciência política em reação à perseguição ao Ennahda movida por Ben Ali nos anos 90. Enquanto seus maridos, irmãos e filhos estavam na prisão, elas descobriram que tinham uma participação pessoal na política e a força de se sustentarem sozinhas como chefes de famílias. Quando o partido foi legalizado, em março, encontrou nelas uma ampla base de apoio.

Como foi vencedor nas eleições, o Ennahda enviará o maior bloco de mulheres parlamentares à Assembleia Constituinte de 217 membros. A questão agora é como elas governarão. Serão títeres do patriarcado islâmico ou apenas feministas que usam lenços na cabeça?

Após entrevistar 46 mulheres ativistas e candidatas do Ennahda, descobri que muitas se voltaram para a política após experimentar discriminação no emprego, detenções ou anos de prisão. Para algumas, essa eleição tem a ver tanto com a liberdade religiosa quanto com qualquer outra coisa. “Tenho mestrado em Física, mas não fui autorizada a lecionar durante anos por causa disso”, disse uma mulher de 43 anos chamada Nesrine, puxando a ponta de seu hijab com estampa floral, véu banido no tempo de Ben Ali, mas legalizado desde a queda dele.

Segundo Mounia Brahim e Farida Labidi, membros do Conselho Executivo do Ennahda, o partido saúda a presença de mulheres fortes e críticas em suas fileiras. “Olhe para nós”, disse Mounia. “Somos médicas, professoras, donas de casa, mães – às vezes, nossos maridos concordam com nossa política; às vezes, não. Mas estamos aqui e somos ativas.” Elas, provavelmente, não se oporão à lei sobre direitos das mulheres.

As mulheres do Ennahda são, antes de tudo, tunisianas. Elas são bem educadas e seu islamismo é relaxado e progressista. Desde os anos 50, elas têm mais proteção legal do que suas congêneres de outros países árabes. Hoje, tentam conciliar o legado de políticas de direitos civis inspiradas nos franceses com as aspirações de um público devoto. O desafio do Ennahda é chegar a um equilíbrio.

Para tanto, o partido declarou que imitará o exemplo do AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento), da Turquia, que reprimiu a corrupção, transformou mulheres em parceiras políticas e alcançou taxas admiráveis de crescimento econômico. Reproduzir esse modelo de moderação e prosperidade será difícil na Tunísia, um país com níveis estarrecedores de desemprego e 25% de analfabetismo. A democracia ao estilo turco pode parecer menos progressista em Túnis do que em Istambul, onde bares de clubes de dança pontilham as ruas da cidade. Existe uma chance, é claro, de que os avanços para as mulheres sejam revertidos. Como a história mostrou nos EUA, na França, na Argélia e no Irã, movimentos revolucionários nem sempre levam à igualdade de gêneros ou a políticas mais inclusivas. Em geral, as mulheres lutam pela libertação e são deixadas de lado quando se formam os novos governos.

As tunisianas, porém, estão bem situadas para evitar esse destino. Até agora, o país fez um bom trabalho ao incluir mulheres em suas instituições tradicionais, especialmente na comparação com o Egito, onde o Conselho Supremo das Forças Armadas proibiu mulheres de liderarem qualquer lista partidária. O Ennahda até agora usou seu peso político para estimular – e não para obstruir – a participação de mulheres na política. Suas ativistas estão apresentando um modelo mais acessível de “feminismo islâmico” a muitas mulheres tunisianas rurais e socialmente conservadoras.

Francas, ativas e com frequência veladas, elas se sentem confortáveis com a linguagem de piedade e política. Apesar do alarmismo dos céticos seculares e comentaristas ocidentais, suas ações e aspirações lembram muito mais o AKP da Turquia do que a Irmandade Muçulmana do Egito.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É DOUTORANDA EM ESTUDOS DO ORIENTE MÉDIO NA UNIVERSIDADE DE OXFORD

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