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VISÃO GLOBAL: Capitalismo versão 2012

Redação Internacional

16 de março de 2012 | 03h36

Visão Global; análises e comentários de especialistas
Se não notarem que seus 200 anos de êxito decorrem do equilíbrio, EUA verão seu modelo renascer em outra parte

THOMAS FRIEDMAN
THE NEW YORK TIMES

David Rothkopf, diretor executivo e editor-geral da revista Foreign Policy, acaba de publicar um brilhante livro intitulado Power, Inc., sobre a épica rivalidade entre as grandes empresas e o governo que, de muitas formas, trata do que deveria estar em jogo nas eleições de 2012 nos EUA – não a “contracepção”, embora a palavra comece com C, mas sim o futuro do capitalismo e da possibilidade de esse capitalismo surgir não nos EUA, mas em alguma outra parte do mundo.

Rothkopf afirma que, enquanto na maior parte do século 20 travou-se no cenário mundial o grande conflito entre capitalismo e comunismo – vencido pelo capitalismo -, a grande disputa do século 21 se dará sobre a versão do capitalismo que predominará, aquela que se mostrará mais eficiente para promover crescimento e se tornará a mais emulada.

“Será o capitalismo de Pequim, de características chinesas?”, pergunta Rothkopf. “Será o capitalismo que favorece o desenvolvimento democrático, da Índia e do Brasil? Será o capitalismo europeu da rede de proteção? Ou será o capitalismo americano?” É uma questão interessante, que provoca outras: que tipo de capitalismo temos hoje nos EUA e o que permitirá que ele prospere no século 21?

Segundo a concepção de Rothkopf, da qual compartilho, o que os outros mais admiraram e tentaram imitar do capitalismo americano é precisamente o que nós ignoramos. O sucesso dos EUA, durante mais de 200 anos, deveu-se em grande parte à sua saudável e equilibrada parceria entre o público e o privado – graças à qual o governo ofereceu as instituições, as normas, as redes de segurança, a educação, a pesquisa e a infraestrutura para dotar o setor privado do poder de inovar, investir e assumir os riscos que promovem o crescimento e os empregos.

Quando o setor privado se sobrepõe ao setor público, temos a crise imobiliária de 2008. Quando o setor público se sobrepõe ao privado, entram em cena regulamentações que asfixiam a economia. Portanto, é preciso um equilíbrio e por isso devemos deixar de lado a caricatura de “argumento segundo o qual a escolha se dá entre governo total ou mercado total”, afirma Rothkopf. A lição que tiramos da história, acrescenta, é que o capitalismo tem mais condições de prosperar quando existe esse equilíbrio e “quando perdemos o equilíbrio temos problemas”.

Por esse motivo, a eleição ideal de 2012 seria aquela que oferecesse ao eleitorado as versões conservadora e liberal das grandes negociações fundamentais – o equilíbrio básico do qual os EUA precisam para criar um capitalismo que seja adequado a este século.

O primeiro é um grande pacto que permita resolver a questão do déficit estrutural de longo prazo introduzindo gradativamente, por meio da reforma fiscal, aumento de impostos equivalente a US$ 1 para cada US$ 3 e cortes para dotações orçamentárias e para a defesa, nos próximos dez anos.

Se o Partido Republicano continuar defendendo a posição de que não deve haver aumentos de impostos, teremos um impasse. O capitalismo não pode funcionar sem redes de segurança socioeconômica ou sem prudência fiscal e nós precisamos de ambos num equilíbrio sustentado. Como parte disso, precisaremos de um grande pacto para não acabarmos numa guerra civil entre gerações. Precisamos de um equilíbrio adequado entre os gastos do governo com asilos e creches – para os seis primeiros meses de vida e para os últimos seis.

Outro importante pacto de que precisamos é aquele entre a comunidade ambiental e a indústria do petróleo e gás no que se refere a como empreender imediatamente duas tarefas: a exploração segura das riquezas em gás natural recém-descobertas nos EUA e a construção de uma ponte para a economia de energia de baixo carbono, com ênfase na eficiência em matéria de energia.

Outro importante pacto de que precisamos é o que diz respeito à infraestrutura. Temos um déficit de mais de US$ 2 trilhões em pontes, estradas, aeroportos, portos e conexão de internet. Precisamos de um pacto que permita ao governo associar-se ao setor privado a fim de desencadear investimentos privados em infraestrutura que sirvam ao público e ofereçam aos investidores retornos adequados.

Nos campos da educação e da saúde, precisamos de importantes pactos para chegar a uma melhor alocação dos recursos entre remediar e prevenir. Em ambos os campos, gastamos mais do que qualquer outro país do mundo – sem, no entanto, obter resultados melhores. Desperdiçamos muito dinheiro tratando pessoas que têm doenças contra as quais deveria haver programas de prevenção e repetindo aos estudantes universitários o que eles deveriam ter aprendido no ensino médio.

O capitalismo moderno exige trabalhadores especializados e trabalhadores que possam contar com a portabilidade dos seus planos de saúde, o que permite que se transfiram para qualquer tipo de emprego.

Também precisamos de um importante acordo entre empregadores, empregados e o governo, como ocorre na Alemanha – onde o Estado fornece os incentivos para os empregadores contratarem, treinarem e reciclarem a mão de obra. Mas não poderá existir nenhum desses pactos sem um debate público mais detalhado.

O “grande elemento que está faltando” na política americana hoje, disse-me recentemente Bill Gates em uma entrevista, “é a compreensão tecnocrática dos fatos, onde as coisas estão funcionando e onde não estão”. Portanto, o debate deveria ter base em dados e não em ideologia.
O capitalismo e os sistemas políticos – como as companhias – precisam evoluir constantemente para se manterem vitais. As pessoas observam como evoluímos e se nossa versão do capitalismo democrático pode continuar prosperando. Há muitas coisas em jogo. Se os americanos “continuarem tratando a política como um reality show encenado com escasso talento teatral”, afirma Rothkopf, “aumentarão a probabilidade de que o próximo capítulo da atual história do capitalismo seja escrito em algum outro lugar”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA

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