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VISÃO GLOBAL: Favorecida por Putin, classe média se rebela

João Coscelli

14 de dezembro de 2011 | 03h00

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Manifestantes russos são em sua maioria jovens profissionais urbanos, o grupo que mais se beneficiou com as políticas adotadas pelo Kremlin na última década

Por Andrew E. Kramer e David Herszenhorn, do New York Times*

Eis o dilema enfrentado por Vladimir Putin: as pessoas que se reuniram do lado de fora do Kremlin no sábado, entoando frases contra ele, são as mesmas que prosperaram durante os 12 anos em que ele esteve no comando do país.

São pessoas viajadas e educadas. Trataram a questão com bom humor (alguns traziam cartazes mostrando desvios estatísticos que supostamente provariam a fraude eleitoral). Em resumo, eram jovens profissionais urbanos, um grupo que se beneficiou muito da prosperidade no mercado imobiliário de Moscou e dos efeitos da distribuição das riquezas nacionais obtidas com o petróleo.

Maria Mikhaylova foi ao protesto usando óculos de grife, com o cabelo amarrado atrás da cabeça com uma fita branca – símbolo do novo movimento de oposição. Maria, de 35 anos, trabalha num banco de Moscou, e disse que sua meta não era derrubar o governo de Putin. “Não viemos em busca de violência”, disse Maria, mas fazer com que o sistema político leve em consideração as preocupações de pessoas como ela.

Trata-se de um paradoxo que já foi documentado pelos cientistas sociais: os moradores de Moscou e de outras grandes cidades tendem a demonstrar uma frustração cada vez maior em relação ao governo Putin conforme o regime os torna cada vez mais ricos.

Uma possível explicação estaria no alto nível de corrupção observado no país, algo que ameaça a nova riqueza individual. Uma segunda explicação seria um fenômeno visto no Chile do general Augusto Pinochet, quando o crescimento econômico acabou prejudicando o regime autocrático ao criar uma classe de profissionais urbanos que anseia por novos direitos políticos.

“Não se trata de um protesto de cidadãos miseráveis”, disse o comentarista político Viktor Shenderovich à rádio Ekho Moskvy. “A questão é política, não econômica. As pessoas que têm se reunido nas ruas de Moscou estão muito bem de vida. São pessoas que estão se manifestando porque se sentiram humilhadas. Ninguém as consultou. Simplesmente disseram a elas, ‘Putin vai voltar’.” Da mesma forma, não se tratou de um protesto organizado pela intelligentsia, a classe que se revoltou contra o governo soviético duas décadas atrás.

 

Facebook. No domingo, o presidente Dmitri Medvedev foi ao Facebook, o mesmo veículo que ajudou a recrutar dezenas de milhares de pessoas para o protesto, e emitiu uma declaração dizendo que discordava dos slogans dos manifestantes, mas tinha solicitado a investigação dos relatos de fraudes durante as eleições parlamentares do dia 4. Os próprios manifestantes pareciam incertos quanto à direção que sua iniciativa estava tomando. Mesmo assim, mostraram-se eufóricos.

Para Putin, deve ser frustrante saber que aqueles que agora protestam desfrutaram da ampliação de suas riquezas no período em que ele foi a figura dominante na política russa, primeiro como presidente e agora como premiê. De 2000 – ano em que ele assumiu a presidência – a 2008, os salários (ajustados pela inflação) aumentaram a uma média de quase 15% ao ano. Mas, embora os salários continuem aumentando, seu ganho é muito mais lento hoje – crescem a um ritmo de 1,3% ao ano desde o início da crise econômica global, em 2008, segundo dados reunidos pelo Citibank. E conforme se tornam mais ricos os moradores das cidades mostram-se também cada vez mais propensos a manifestar sua frustração com o sistema político.

Num estudo das opiniões políticas dos moscovitas realizado em 2010, Mikhail Dmitriyev, presidente do Centro para o Desenvolvimento Estratégico, organização de pesquisas com sede em Moscou, apontou para a questão imobiliária. O valor das propriedades triplicou em Moscou de 2002 até 2010 – aumentando muito o patrimônio dos moradores, mas não o seu grau de satisfação com o governo, pois isso também tornou mais importantes os julgamentos dos processos imobiliários que costumam ser realizados em tribunais sabidamente corruptos.

“Em Moscou, o aumento na renda está correlacionando com a opinião dos participantes, segundo os quais o descontentamento está aumentando”, escreveu Dmitriyev. Segundo ele, Moscou e outras cidades estão incubando uma população hostil, composta principalmente por jovens rapazes. “Estamos falando de 5 milhões de indivíduos perigosamente concentrados numa área que não fica a mais de 16 quilômetros do Kremlin”, escreveu ele.

Em se tratando de manifestações da classe média, Daniel Treisman, professor de ciência política da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, documentou uma tendência ampla. Os líderes autoritários que adotam políticas econômicas eficazes tornam-se vítimas do próprio sucesso, e um ótimo exemplo disso é o caso do general Pinochet, no Chile. Na Rússia, após uma década de prosperidade impulsionada pelo petróleo, cerca de um terço da população é agora considerado de classe média.

E os direitos políticos foram de fato a principal exigência no protesto de sábado, frequentado por estudantes acompanhados dos pais, aposentados e jovens profissionais. “Antes dessa manifestação foi anunciado que nossa cor é o branco, a cor da paz”, disse o segurança particular Alexei Kolotilov, de 47 anos, que soprava um apito vermelho enquanto marchava até o local do protesto.

Ele disse que sua filha tinha ido à manifestação acompanhada pelos colegas estudantes. “Não queremos uma revolução”, disse Kolotilov. “Queremos eleições justas.” Se fosse possível apontar um catalisador para a recente sequencia de eventos, este seria provavelmente o anúncio feito por Putin em setembro, de que se candidatará novamente à presidência – na prática, trocando de lugar com Medvedev.

Os líderes desta nova oposição representam um conjunto variado de grupos, incluindo os partidos políticos minoritários, que costumam se opor uns aos outros tanto quanto se opõem ao Rússia Unida, partido de Putin e Medvedev.

Mais protestos. Os organizadores da manifestação reuniram-se no domingo, tentando nomear algum tipo de conselho de liderança. Eles esperam manter o moral do grupo elevado e preparar protestos ainda maiores, aumentando a pressão sobre o governo e possivelmente provocando uma recontagem dos votos que poderia tirar do Rússia Unida um número ainda maior de cadeiras no Parlamento.

A jogada deles não está relacionada ao desespero econômico que ajudou a fomentar levantes anteriores na Rússia e, mais recentemente, contribuíram para o alastramento da Primavera Árabe no Norte da África e no Oriente Médio.

 

Oksana, de 18 anos, jovem estudante de Kirov que planeja se tornar advogada, disse não saber ao certo qual era a sua expectativa em relação ao resultado da manifestação. “Infelizmente, as manifestações civilizadas têm sido uma raridade no nosso país, Mas, agora, vejo que são possíveis.”

*SÃO JORNALISTAS

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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