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VISÃO GLOBAL: Fé nas urnas é cada vez menor

Luciana Fadon Vicente

29 Setembro 2011 | 12h49

 

Visão Global; análises e comentários de especialistas

Manifestantes em várias partes do mundo partilham da desconfiança sobre os políticos

*Nicholas Kulish é jornalista

Centenas de milhares de indianos desiludidos festejam um ativista em greve de fome. Israel sofre com as maiores manifestações populares de sua história. Jovens enfurecidos na Espanha e na Grécia tomam praças. As queixas vão da corrupção à falta de habitação acessível e emprego, reclamações comuns em todo o mundo. Mas, do sul da Ásia ao coração da Europa e agora até em Wall Street, esses manifestantes partilham algo a mais: a desconfiança, ou até desprezo, em relação aos políticos tradicionais e ao processo democrático presidido por eles. Os jovens estão tomando as ruas, em parte, pois não acreditam mais nas urnas.

“Nossos pais agradecem por poder votar”, disse Marta Solanas, de 27 anos, referindo-se às décadas em que os espanhóis passaram sob a ditadura de Francisco Franco. “Somos a primeira geração a dizer que não há valor ao voto.” A situação econômica tem sido uma das principais forças por trás das manifestações, com uma crescente desigualdade de renda, um desemprego altíssimo e cortes nos programas sociais decorrentes da recessão fomentando a insatisfação. O sentimento de alienação é especialmente profundo na Europa. Mas mesmo na Índia e em Israel, onde o crescimento continua expressivo, os manifestantes dizem desconfiar da classe política e da sua subserviência a grupos de interesses, a tal ponto que parecem acreditar que apenas um ataque ao sistema poderá trazer mudanças reais.

Os jovens organizadores das manifestações em Israel atraíram imensas multidões insistindo que seus líderes políticos tinham se mostrado tão completamente à mercê das preocupações com a segurança dos grupos ultraortodoxos e de outros interesses especiais que não podiam mais responder à classe média.

Na Índia, a maior democracia do mundo, o ativista Anna Hazare fez uma greve de fome por 12 dias até que o Parlamento recuasse em algumas de suas exigências de uma proposta de combate à corrupção para responsabilizar os funcionários públicos por casos de má conduta. “Elegemos os representantes do povo para que eles resolvam nossos problemas”, disse Sarita Singh, 25 anos, “Mas a corrupção está governando o país.”

Cada vez mais, cidadãos de todas as idades estão rejeitando estruturas convencionais como os partidos e os sindicatos em favor de um sistema menos hierárquico e mais participativo que segue sob muitos aspectos o modelo da cultura da internet. Nesse sentido, os movimentos de protesto nas democracias não são tão diferentes daqueles que abalaram governos autoritários, depondo líderes na Tunísia, no Egito, e na Líbia.

A crescente desilusão ocorre 20 anos depois daquilo que foi celebrado como a vitória final do capitalismo democrático sobre o comunismo e a ditadura. Na esteira do colapso da União Soviética, em 1991, emergiu o consenso de que a economia liberal associada às instituições democráticas representaria o único caminho para avançar. Esse consenso, defendido por estudiosos como Francis Fukuyama, foi abalado por uma aparentemente interminável sucessão de crises e incapacidade dos políticos de lidar com elas ou de proteger seu povo dos choques. Eleitores frustrados não estão promovendo agitações pedindo que um ditador assuma o poder. Mas dizem que não sabem a quem recorrer num momento em que escolhas políticas da era da Guerra Fria parecem ocas.

“A principal crise é a crise de legitimidade”, disse Marta Solanas. “Achamos que eles não têm feito nada por nós.”

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*Publicado no News York Times