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VISÃO GLOBAL: Günter Grass alimenta a direita israelense

Redação Internacional

11 de abril de 2012 | 03h00

Visão Global

O reflexo dos ‘falcões’ nacionalistas de Israel nesses casos é dar ‘uma resposta sionista aos antissemitas’, em sustentação à constante alegação de que ‘o mundo está contra eles’

MOSHE ZIMMERMANN
DER SPIEGEL

O ministro do Interior de Israel, Eli Yishai, que não é considerado um especialista em literatura germânica, quer proibir Günter Grass de visitar Israel, em resposta ao poema O que deve ser dito, publicado pelo escritor. Se Grass “pretende continuar divulgando seu trabalho pervertido e falso ele deve ir ao Irã, onde encontrará um público simpatizante”, afirmou o ministro.

Essa é uma medida política que não terá, absolutamente, nenhum efeito prático. Grass está com 84 anos e não pretende visitar Israel. Já tomou essa decisão há 40 anos, quando foi recebido com tomates durante uma visita ao país.

Mas existe uma outra razão mais perturbadora indicando porque essa proibição é absurda. Não é tarefa de políticos israelenses se queixar de declarações feitas por artistas e escritores e usar essas declarações como justificativa para uma ação política. É uma tentativa de censura que, como resultado, pode levar intelectuais de outros países a pensar duas vezes, no futuro, antes de criticar Israel.

Há alguns anos, o regente de nacionalidade argentina e israelense Daniel Barenboim viu-se numa situação semelhante. Depois que Barenboim, que tem a reputação de ser pró-palestino, regeu Richard Wagner em Israel, os políticos do país exigiram que o maestro fosse declarado persona non grata.

Mas o lugar mais adequado para responder a declarações e atos de artistas e escritores, não importa o quão controvertida seja a declaração ou o trabalho apresentado, é nas páginas de cultura de um jornal – não na arena política.

Infelizmente, a atitude do ministro do Interior não é inusitada em se tratando de Israel.

O país gosta de isolar-se e render-se à ideia de que está cercado de inimigos. A doutrina do governo é no sentido de que Israel precisa se defender contra seus inimigos. E deve ser uma “resposta sionista” aos “antissemitas”. Esse é um reflexo israelense.

E, assim, a constante busca para confirmar que o mundo inteiro está contra nós, mais uma vez teve sucesso. Com seu poema O que deve ser dito, Günter Grass ofereceu aos políticos israelenses a desculpa perfeita. E a reação do governo mostra que grande desserviço Grass prestou à causa da paz.

Se admitirmos que ele realmente quis emitir um alerta contra a guerra nuclear, o tiro saiu pela culatra. Grass ajudou a direita nacionalista israelense ao atacar Israel, e não o Irã, como o responsável potencial pela pior situação que possa ocorrer. E ajudou também o governo a desviar a atenção da questão palestina, oferecendo a Israel a oportunidade de se colocar como vítima – uma vítima do Irã e de Günter Grass.

Julgamentos. Grass é um antissemita? Esse é um assunto complexo que exige respostas mais complexas. Naturalmente ele não é um antissemita furioso que deseja expulsar ou assassinar judeus. Mas o antissemitismo é muito mais do que isso. E o escritor usa imagens e mitos com vestígios de antissemitismo. A maneira com que faz julgamentos generalizados sobre Israel nos lembra a maneira como julgamentos generalizados foram – e são – feitos sobre os judeus.

Seu poema O que deve ser dito poderia facilmente levar o título “Israel é a nossa desgraça”.

O historiador Heinrich von Treitschke provocou a chamada “Polêmica de Berlim sobre o antissemitismo”, em 1879, quando usou a frase “os judeus são nossa desgraça”, que foi estampada na página de capa de cada edição do jornal nazista Der Stürmer.

Grass está num terreno muito perigoso – é preciso que isso seja dito, mas no contexto de uma discussão acadêmica civilizada. Ele não deve ser injuriado como base para uma ação política.

Tem de ser possível continuar criticando as políticas de Israel e a acusação de antissemitismo não pode ser usada erroneamente para proteger Israel contra essas críticas.

E em que posição ficamos nós, israelenses, que não concordamos com as ações do governo, se as críticas a Israel são automaticamente identificadas como antissemitismo? /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É HISTORIADOR E ESCRITOR ISRAELENSE

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