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VISÃO GLOBAL: Ignorância é força

João Coscelli

10 de março de 2012 | 03h00

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Os dois principais candidatos republicanos se apresentam como defensores dos valores tradicionais americanos, mas conspiram contra o maior deles: educação para todos

POR PAUL KRUGMAN, DO THE NEW YORK TIMES*

Uma área na qual os americanos sempre foram excepcionais é o amparo à educação. Primeiro assumiram a liderança na educação primária universal. Depois, o “movimento high school” tornou o país o primeiro a adotar a educação secundária generalizada. Após a 2ª Guerra, o respaldo público, incluindo a GI Bill (lei que garantia ensino secundário e vocacional a veteranos da 2ª Guerra) e uma enorme expansão das universidades públicas, ajudou uma grande quantidade de americanos a obter uma formação universitária.

Agora, porém, um dos principais partidos políticos fez uma virada brusca à direita contra a educação, ou, ao menos, contra a educação que americanos trabalhadores podem pagar. O curioso é que essa nova hostilidade à educação é compartilhada pelas alas conservadora social e conservadora econômica da coalizão republicana, ora representadas nas pessoas de Rick Santorum e Mitt Romney. E isso vem num momento em que a educação americana já se encontra em dificuldades profundas.

Sobre essa hostilidade: Santorum ganhou manchetes ao declarar que o presidente Barack Obama quer ampliar a matrícula universitária porque as faculdades são “usinas de doutrinação” que destroem a fé religiosa.

A resposta de Romney a um aluno do último ano do ensino secundário preocupado com os custos da universidade é, possivelmente, ainda mais significativa, porque o que ele disse aponta para opções políticas reais que prejudicarão ainda mais a educação americana. Eis o que o candidato falou ao estudante: “Não vá para a que tem o preço mais alto. Vá para a que tem o preço um pouco mais baixo onde você possa obter uma boa educação. E você, com certeza, a encontrará. E não espere que o governo perdoe a dívida que assumir”. Uau. Isso sobre a tradição dos EUA de oferecer ajuda a estudantes. As observações de Romney foram ainda mais insensíveis e destrutivas, dado o que vem ocorrendo ultimamente na educação superior americana.

Nas duas últimas gerações, escolher uma escola menos cara geralmente significava ir para uma universidade pública em vez de uma universidade privada. Hoje em dia, a educação superior pública está muito mais sitiada, enfrentando cortes orçamentários mais duros que o restante do setor público. Corrigida pela inflação, a ajuda estatal ao ensino superior caiu 12% nos últimos cinco anos, apesar de o número de alunos continuar crescendo; na Califórnia, a ajuda diminuiu 20%.

Um resultado tem sido a elevação das taxas. A anuidade corrigida pela inflação em faculdades públicas de quatro anos subiu mais de 70%. Portanto, boa sorte para descobrir aquela faculdade com “um preço um pouco mais baixo”.

Outro resultado é que instituições de ensino com problemas de caixa vêm fazendo cortes em áreas cujo ensino é caro – que são precisamente as áreas de que a economia necessita. Por exemplo, faculdades públicas em alguns Estados, incluindo Flórida e Texas, eliminaram departamentos inteiros de engenharia e ciência da computação.

Os danos que essas mudanças causarão – tanto para as perspectivas econômicas dos EUA como para o evanescente sonho americano das oportunidades iguais – deveriam ser óbvios. Então, por que os republicanos estão tão ansiosos para sucatear a educação superior? Não é difícil perceber que o que está impelindo a ala de Santorum do partido. Sua alegação específica de que frequentar a universidade solapa a fé é falsa. Mas ele está certo ao sentir que nosso sistema de educação superior não é um terreno amigável para a ideologia conservadora corrente. E não são apenas os professores de ciências humanas: entre os cientistas, os democratas declarados superam de nove para um os republicanos declarados.

Imagino que Santorum veria isso como evidência de uma conspiração liberal. Outros poderiam sugerir que os cientistas têm dificuldade de apoiar um partido no qual a negação da mudança climática se tornou um teste político, e a negação da teoria da evolução está a caminho de um status similar. Mas e as pessoas como Romney? Será que elas não têm interesse no sucesso econômico futuro dos EUA, colocado em risco pela cruzada contra a educação? Talvez não tanto quanto se pensa. Afinal, nos últimos 30 anos, houve uma chocante desconexão entre os ganhos de renda enormes no topo e as mazelas dos trabalhadores comuns.

Pode-se defender que o interesse próprio da elite americana é mais bem servido assegurando que essa desconexão continue, o que significa manter baixos os impostos sobre rendas altas a todo custo, sejam quais forem as consequências em termos de infraestrutura precária e uma força de trabalho despreparada.

Se a educação pública subfinanciada deixa muitos filhos dos menos ricos sem mobilidade social para cima, bem, dá para acreditar mesmo naquela história de criar igualdade de oportunidades? Portanto, sempre que ouvir republicanos dizerem que eles são o partido dos valores tradicionais, tenha em mente que eles já fizeram de fato uma ruptura radical com a tradição dos EUA de valorizar a educação. E fizeram essa ruptura porque acreditam que o que você não sabe não pode prejudicá-los.

*É COLUNISTA

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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