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VISÃO GLOBAL: Imaginando Cuba sem Chávez

Redação Internacional

18 de abril de 2012 | 03h00

Visão Global

Sucessão na Venezuela seria um baque para Havana, mas cenário parece mais ameno que o do pós-URSS

GIRISH GUPTA
THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR

O presidente venezuelano Hugo Chávez enxerga o revolucionário e ex-presidente cubano Fidel Castro como seu mentor, seu “pai”. Os dois países aprofundaram muito suas relações tanto ideológicas quanto econômicas desde que Chávez chegou ao poder, em 1998.
Cuba e Venezuela se tornaram tão próximas que, em certo momento do ano de 2005, o então vice-presidente cubano Carlos Lage declarou: “Temos dois presidentes: Fidel e Chávez”. Talvez tenha sido um comentário hiperbólico, mas as palavras dele são indício da crescente dependência de Cuba em relação à Venezuela, muito tempo depois de o país ter perdido sua aliada da época da Guerra Fria, a União Soviética.
A Venezuela oferece a Cuba uma soma anual que varia entre US$ 5 bilhões e US$ 15 bilhões, quase um quarto do PIB da ilha comunista, calculado em US$ 63 bilhões, dependendo da soma dos números oferecidos por diferentes fontes. Nenhum dos dois governos divulga números oficiais relativos ao tema. Em troca, Cuba oferece à Venezuela um capital humano muito necessário, como médicos habilidosos e técnicos de equipes esportivas. Chávez luta contra o câncer e enfrenta a oposição mais forte desde quando assumiu o poder, há mais de uma década. Uma possível derrota do chavismo certamente transformaria o país sul-americano, rico em petróleo. E o impacto para Cuba seria igualmente forte.
“Se Chávez perdesse poder, Cuba seria o país mais afetado. O impacto na economia cubana seria imenso”, diz Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano. “A liderança cubana atual, sem dúvida consciente de tal perspectiva infeliz, tenta promover reformas econômicas em parte como forma de compensar os efeitos desse golpe.”
Há vários paralelos históricos para Cuba no caso da queda de Chávez. O chamado período especial, que se seguiu ao colapso da URSS, deixou Cuba numa crise econômica decorrente da dificuldade de Havana de compensar o embargo americano. A economia teve contração de 35% entre 1989 e 1993 e a importação de petróleo caiu quase 90% no mesmo período. O povo cubano se viu vítima da escassez de alimentos.
“Não tínhamos nada, nenhuma comida e nenhum dinheiro, mas sobrevivemos”, diz um homem de idade avançada, caminhando pelo Malecón. Ele culpa o embargo americano pelo isolamento de Cuba. Iniciado em 1960, o embargo tinha como objetivo convencer as autoridades cubanas a avançar no sentido da “democratização e do respeito aos direitos humanos”. Entretanto, isso é encorajado por meio da restrição ao comércio entre Cuba e as empresas americanas. Como resultado, os edifícios cubanos em péssimo estado de conservação e os carros americanos antigos que tanto aparecem nos cartões-postais fizeram com que o país parecesse estar preso ao passado.
Para os cubanos, a vida começou a melhorar quando Chávez chegou ao poder em Caracas, em 1998, quase uma década após a queda da URSS. O paraquedista reformado queria lançar sua própria revolução socialista “bolivariana” na Venezuela e via em Fidel Castro um mentor. Ele admirava o zelo revolucionário do líder cubano. Chávez encheu o aliado ideológico de petróleo e dinheiro.
Hoje, é concreta a possibilidade de Chávez não vencer ou não sobreviver a um novo mandato de seis anos. O líder da oposição venezuelana, Henrique Capriles Radonski – que, de acordo com as pesquisas de opinião, seria provavelmente derrotado por Chávez, apesar de derrotar qualquer outro candidato do partido da situação – diz que a continuidade de níveis tão elevados de investimento em Cuba não é garantida se ele for eleito em outubro. “O dinheiro venezuelano não será mais usado para satisfazer a aliados pessoais”, diz Capriles.
Petróleo. No fim de janeiro de 2012, uma plataforma de petróleo partiu da China e instalou-se nos 140 quilômetros que separam Cuba da Flórida. Foi construída na China, pertence aos italianos e será usada inicialmente por empresas espanholas, norueguesas e indianas – sinal da estratégia de Havana de diversificar seu apoio e entrar em contato com novos investidores.
Como mostra a plataforma, não faltam países interessados em dar uma segunda chance a Cuba, principalmente diante das alegações do governo cubano de que os mares do país conteriam cerca de 20 bilhões de barris de petróleo.
Um dos maiores investidores a descobrir a América Latina nos últimos anos é a China, que emprestou mais à região em 2010 do que o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Americano de Exportações e Importações juntos. As relações entre China e Cuba melhoraram desde o período especial dos anos 90.
“Se observarmos o que a China tem feito nos outros países, veremos que ela não se comportou como um parceiro ideológico, mas sim como um parceiro bastante capitalista”, diz Gabriel Zinny, diretor administrativo da Blue Star Strategies, de Washington. Zinny crê que Cuba se encontra hoje numa posição muito mais confortável do que nos anos 90, principalmente por causa dos esforços de diversificação dos investidores.
“Cuba pode (agora) chamar investidores de sua própria região”, disse ele. “(O país) não teve essa oportunidade quando a URSS ruiu porque a América Latina não era suficientemente poderosa em termos de capital.” Alguns políticos americanos manifestaram seu descontentamento com a exploração do petróleo no Estreito da Flórida, dizendo que o governo americano deveria “esfolar” as empresas envolvidas no caso de um vazamento.
Por mais que a retórica evoque as memórias do vazamento da Deepwater Horizon em 2010, trata-se de uma manifestação do sentimento anticubano dentro dos EUA, estimulado pela comunidade de exilados de Miami. Além disso, as oportunidades de investimento para empresas estrangeiras em Cuba podem ser frustrantes para as firmas americanas.
Há setores da economia americana que se mostram desapontados com as restrições impostas pelo embargo, diz Boris Segura, economista latino-americano do banco de investimentos Nomura. “Há muitos setores que pensam estar perdendo oportunidades para empresas europeias e chinesas”, diz Segura, mencionando a agricultura, o petróleo e o setor farmacêutico.
Aumentando a atividade econômica interna, Cuba está também promovendo pequenas mudanças domésticas. Os cubanos podem agora abrir restaurantes e hospedarias particulares – apesar de estarem sujeitos a uma pesada tributação e à supervisão do governo. Esses passos rumo ao capitalismo podem ser lentos, mas aliviam o impacto econômico de um possível corte nos investimentos venezuelanos em Cuba anunciado pelo eventual sucessor de Chávez.
O economista cubano Oscar Espinosa foi preso durante a repressão da Primavera Negra de 2003 por crimes contra o Estado, sendo libertado 18 meses depois. “Chávez é mais importante que os irmãos Castro”, diz Espinosa. “Ele é o cordão umbilical do país… Não será como os anos 90. A situação vai ser muito, muito pior.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É JORNALISTA

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