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VISÃO GLOBAL: Na China, o ano do cão vadio

Redação Internacional

28 de abril de 2012 | 03h00

Visão Global

Se até escritores chineses trocam sua dignidade por um prato de comida e um
pouco de dinheiro, como posso criticar os menos cultos, como a minha família?

YAN LIANKE
THE NEW YORK TIMES

Os velhos hábitos dificilmente desaparecem. Embora tenha saído da minha casa no interior há mais de 30 anos, nunca considerei o dia 1.º de janeiro o início de um novo ano. Na minha cidade natal, o novo ano começava de fato no primeiro dia do ano-novo lunar chinês. Para mim, 2011 foi um ano interminável e escuro, como um túnel sem luz.
Começou com meu filho à procura de um emprego. Ele tinha concluído os estudos na Grã-Bretanha e regressara à China com um mestrado em Direito, achando que para fazer algo importante em seu país precisaria começar sua carreira como funcionário público no sistema jurídico. Entretanto, como não está filiado ao Partido Comunista Chinês, é quase impossível para ele fazer o exame nacional de ingresso no serviço público para conseguir o emprego que pretende.
Quando ainda estava na faculdade, mais de uma vez pensou em se inscrever no Partido Comunista. Procurei dissuadi-lo todas as vezes. Disse-lhe: “Será que uma pessoa precisa ser membro do partido para vencer na vida?”. Como pai, a experiência do meu filho fazia com que eu me sentisse quase na obrigação de ajoelhar diante dos líderes do regime e implorar para que deem aos jovens que não são membros do partido as mesmas oportunidades de uma carreira que eles concedem aos que são.
Recusa. A escuridão continuou ao longo do ano. Meu trabalho mais recente, Four Books, um romance que trata das experiências traumáticas do povo chinês durante o Grande Salto para Frente, do final dos anos 50, e da carestia que se seguiu, foi recusado por quase 20 editoras. Os motivos eram sempre os mesmos. Quem ousar publicar meu livro na China estará fadado a fechar as portas.
Levei 20 anos para planejar o romance e 2 anos para escrevê-lo. É um trabalho importante para mim como escritor e sei que será uma importante contribuição para a literatura chinesa. Mas estou plenamente consciente da realidade do mundo editorial na China, portanto não tenho outra escolha senão aceitar o destino do meu livro. Só me resta suspirar.
Mas, ao pesadelo da recusa do meu livro, acrescentou-se outro: minha casa foi demolida para dar lugar ao projeto de ampliação de uma estrada em Pequim. Aquilo foi como um furacão. Ninguém se deu o trabalho de mostrar aos moradores do meu bairro expulsos de seus lares um documento oficial a respeito do projeto. A indenização foi fixada, sem a menor possibilidade de negociação, em meros 500 mil iuanes (cerca de US$ 79 mil) para cada casa, independentemente do tamanho do terreno ou do custo da construção.
“Quem cooperar com o governo receberá mais 700 mil iuanes”, disseram aos desalojados, o que correspondia aproximadamente a um total de US$ 190 mil. A quantia aparentemente grande, na realidade, hoje, só é suficiente para comprar um banheiro em um bom bairro de Pequim. O conflito entre os habitantes e os trabalhadores da demolidora foi intenso. As pessoas estavam decididas a defender seus imóveis e sua dignidade com a própria vida.
Resistência. A batalha durou meses. Um dia, o muro que circundava o conjunto habitacional foi demolido durante a madrugada. Alguns habitantes mais velhos, arrasados de tanto lutar, tiveram de ser levados às pressas ao hospital. Então, fomos informados de que estava havendo uma série de “assaltos” no conjunto, mas todos sabiam que isso não passava de uma tática para intimidar as pessoas. Denunciar os assaltos à polícia foi tão inútil quanto um aluno da escola primária denunciar a perda de um lápis.
No dia 30 de novembro, um dia antes do prazo para o início das demolições forçadas, escrevi uma petição ao secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Hu Jintao, e ao primeiro-ministro Wen Jiabao e a postei na Sina Weibo, o equivalente chinês do Twitter, pedindo o fim imediato do jogo de gato e rato contra os moradores cujas casas estavam prestes a ser derrubadas. Eu sabia que a carta jamais seria entregue às pessoas às quais estava dirigida, mas esperava que chamasse a atenção e pressionasse a prefeitura a evitar derramamento de sangue durante a demolição.
Minha carta foi amplamente postada e divulgada em todo o país quase instantaneamente. No entanto, não obteve maior repercussão do que um sussurro no vento.
Por volta das 5 horas do dia 2 de dezembro, um grupo de homens e mulheres de capacete na cabeça irrompeu na casa do meu vizinho através de uma janela. Depois de dizer aos invasores que se opunha à demolição, o vizinho foi levado e trancado na cadeia. Alguns móveis maiores foram carregados para fora da casa e ela foi demolida.
Posteriormente, ele lembrou que, enquanto estava sendo levado naquela manhã, viu mais de 200 pessoas, todas uniformizadas e de capacete na cabeça, cercando a casa.
Em dezembro, mais de 30 famílias foram por fim obrigadas a concordar com a demolição. Isso assinalou o fim do meu escuro 2011. A experiência convenceu-me de que, na realidade, a dignidade de um cidadão e de um escritor não tem mais relevância do que um cão faminto que pede comida ao dono. Na realidade, os direitos dos quais um cidadão pode desfrutar não são mais do que o ar que ele pode segurar na mão.
Desalento. Queria gritar. Às vezes imagino que seria um grande privilégio poder gritar em voz alta na Praça Tiananmen, no centro de Pequim.
As pessoas vivem como cães nessa sociedade. Sonho poder latir alto nos meus livros e transformar meus latidos numa bela música. Essa vida estranha, esse sonho estranho me mantém vivo e às vezes me dão até esperança. Ao mesmo tempo, eu me sinto constantemente desalentado.
Emocionalmente exaurido, sonhava em deixar a escura Pequim de 2011 e voltar para casa. Sonhava com um novo começo em 2012 – um novo começo na minha cidade natal, ao lado da minha mãe, dos meus parentes, deixando que o seu calor afastasse o frio, a ansiedade e o medo que me envolveram no escuro túnel de 2011.
Fui para casa. Durante dez dias passei o tempo todo com minha mãe de 80 anos, meu irmão mais velho, sua mulher e minhas sobrinhas em sua casa na cidade de Songxian, na Província de Henan. Falamos do passado, contamos piadas e jogamos mahjong (jogo de estratégia chinês).
Ninguém falou uma única palavra a respeito do meu trabalho ou da minha infelicidade. Era como se vivêssemos uma existência perfeita.
Eu só via a luz brilhante do sol. Só sentia o amor dos meus entes queridos. Durante dez dias, sentamos em frente à televisão. Assistimos a novelas tolas e ao show de gala do Festival de Primavera da CCTV. A programação de TV era medíocre, mas o amor da minha família conseguiu afastar a escuridão de 2011. Eu me sentia seguro.
Na véspera do ano-novo lunar, comemos juntos os tradicionais bolinhos. Mamãe me deu uma parte dos seus para demonstrar seu amor por mim. Alguns fios de cabelos brancos caíam sobre seu rosto que brilhava de felicidade.
“Nosso país é rico agora. Não é maravilhoso?”, ela disse. “Agora podemos comer bolinhos com recheio de carne. Quantas vezes comíamos grama quando éramos pobres…”
Meu irmão mais velho era carteiro e a vida toda entregou cartas de bicicleta. Agora está aposentado e dirige um carro que eu comprei com os royalties dos meus livros.
“Por que as pessoas odeiam o governo?”, ele me perguntou enquanto dirigia indo visitar um parente numa aldeia remota nas montanhas. “Nossa vida é boa. Não basta?” Minhas duas irmãs mais velhas cultivam a terra. Elas adoravam a novela do sábio imperador da dinastia Qing que tratava bem seus súditos.
Minhas irmãs querem que eu escreva uma estória como aquela para conseguir fama e dinheiro. Uma única novela de sucesso faria com que a família toda se cobrisse de esplendor, disseram.
Não sei se meus parentes acreditam nessas coisas, ou se estavam apenas tentando me confortar. Não sei se a riqueza recém-adquirida faz com que o povo chinês acredite realmente que roupas quentes e um estômago cheio são mais importantes do que direitos e dignidade.
Ou será que ele sempre acreditou que um prato de bolinhos e um pouco de dinheiro no bolso são mais importantes do que direitos e dignidade? Não perguntei e na realidade nem quis especular sobre a questão, pois sei que não existe uma resposta clara.
Quanto a mim, prefiro defender minha dignidade ainda que isso signifique morrer de fome. É uma convicção que está no meu sangue. Imagino que seja o princípio norteador de todos os homens de letras, mas, para muitos chineses, hoje essas palavras não têm o menor sentido. Por que estou me queixando? Se até os homens de letras escolhem um pedaço de comida e um pouco de dinheiro abrindo mão da dignidade, como posso criticar meus parentes menos cultos? O sexto dia do ano-novo lunar é um dia auspicioso para as viagens.
Adeus. Estava na hora de voltar. Todos meus parentes saíram para se despedir de mim. Minha mãe estava em lágrimas como sempre nessas ocasiões. Ficou calada até o último momento.
“Faça amigos entre os que têm poder”, ela me sussurrou no ouvido. “Não faça nada que os possa irritar.”
Depois que parti, meu irmão me enviou uma mensagem de texto. “Eu não disse nada para você porque aqueles eram dias festivos. Lembre-se: Nunca faça nada que possa irritar o governo, não importa o que seja.”
Meu sobrinho me acompanhou até a rampa de acesso à rodovia. Hesitando, o menino falou: “Minha mãe me pediu para dizer para você cuidar de sua saúde.
Não escreva demais e, se você realmente precisa escrever, escreva algo elogiando o governo, a nação. Não se torne um velhote maluco”.
Fiz sinal que sim com a cabeça.
“Diga à sua avó, ao tio e à sua mãe que não se preocupem comigo. Estou bem. Meu trabalho de escritor vai bem. Estou indo bem. À parte algumas rugas e cabelos brancos, nada de ruim vai acontecer comigo.” E fui embora.
Enquanto dirigia, as lágrimas caíam no meu rosto sem uma razão aparente. Só queria chorar. Seria pela minha mãe, meu irmão, meus parentes e pelos estrangeiros que esquecem de sua dignidade desde que tenham o suficiente para comer? Ou pelas pessoas como eu, que têm o mais alto apreço pelos direitos e pela dignidade, mas levam uma existência de cães vadios? Não sei. Eu só queria gritar em voz alta.
Parei no acostamento e deixei as lágrimas cair – pelo meu rosto e no meu coração. Depois de muito tempo, quando minhas lágrimas secaram, dei novamente a partida. Estava a caminho de Pequim, arfando e ansioso, como um cão vadio ofegante num túnel escuro. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É AUTOR DE VÁRIAS OBRAS, COMO  ‘THE DREAM OF DING VILLAGE’, SOBRE O ESCÂNDALO DE VENDA DE SANGUE EM HENAN, SUA PROVÍNCIA NATAL

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