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VISÃO GLOBAL: Não nos apressemos a ganhar na Rússia

João Coscelli

25 de janeiro de 2012 | 03h00

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Se Putin cair logo, sem dilapidar sua popularidade até o fim, poderia voltar de uma maneira plenamente democrática, quando a crise afetasse o padrão de vida das pessoas

POR BORIS AKUNIN, DO NEW YORK TIMES*

Em 24 de setembro, quando no congresso do partido governista na Rússia foi anunciado que nosso novo presidente mais uma vez seria Vladimir Putin, minha mulher disse: “Então é isso. Precisamos ir embora. Não quero passar o resto da minha vida no país de Dobby (o elfo escravo da série Harry Potter)”. “Esse não é o país dele”, retruquei. “Vamos esperar mais um pouco. Haverá uma comoção social. As pessoas não são idiotas, elas não vão gostar desta manobra.”

Mas se passaram os dias, as semanas, e não houve nenhuma comoção social. Na realidade, alguns dos costumeiros resmungões – como eu, por exemplo – resmungaram. Quanto ao restante da Rússia, aparentemente não se importou nem um pouco: se for Putin, que seja então. Mais 12 anos? Que fique pelo restante da vida, não tem problema.

Portanto, também comecei a pensar seriamente em ir embora. Se nós – aqueles a quem o governo Putin provoca enjoo – somos tão poucos, por que deveríamos impedir que nossos tranquilos compatriotas tenham uma vida feliz? Não seria exagero afirmar que o restante do outono foi o período mais deprimente da minha vida. É péssimo sentir-se um estrangeiro no próprio país – principalmente para um escritor.

Então veio dezembro, e literalmente em poucos dias a Rússia acordou e se tornou uma nação completamente diferente. De repente, estava claro que pessoas como eu não constituíam uma minoria marginal, que nós éramos muitos. Em Moscou, nós somos uma clara maioria.

A ideia de ir embora foi esquecida, como se nunca tivesse sido mencionada. A descoberta que nos deixou eufóricos pode ser resumida em quatro palavras: “Esse é o nosso país”. A última vez em que sentimos isso foi há 20 anos, quando o regime comunista desmoronou.

Para quem está fora, o que está acontecendo na Rússia pode parecer a mesma tempestade revolucionária que varreu os países árabes e os libertou de regimes autoritários. Mas a analogia é enganosa. A única semelhança é o importante papel das redes sociais na organização de protestos espontâneos. O que está acontecendo na Rússia é muito diferente e bastante inusitado: uma revolução da classe média, uma classe inerentemente não revolucionária.

Para muitas pessoas, até mesmo para os próprios russos, o repentino despertar da sociedade parece um milagre. Mas não é um milagre. É a consequência de um processo social natural. Mais precisamente, de dois processos diametralmente opostos.

O primeiro são as profundas mudanças que estão ocorrendo na sociedade russa nas duas últimas décadas. Milhões de pessoas aprenderam a viver num capitalismo “selvagem” – tratando de ganhar a vida sem a intervenção do governo, sobrevivendo num contexto brutalmente competitivo, proporcionando um padrão de vida razoável à própria família. Estas sementes germinaram, de maneira quase invisível, e de repente a grama estava brotando em toda parte. A terra nua, escura, de repente ficou verde.

Esta primavera repentina foi acelerada por um segundo processo social, que também começou há alguns anos: a degradação cada vez maior do regime de Putin. Na ausência do controle que deveria ser exercido por deputados eleitos, de tribunais ou da imprensa, o sistema caiu na ilusão de que tudo é permitido, e começou a cometer um erro após o outro, sem nem sequer perceber que estava destruindo a si mesmo.

A Primavera Russa em pleno inverno foi uma consequência direta da troca de Dmitri Medvedev por Putin anunciada em 24 de setembro e das fraudes igualmente vergonhosas nas eleições parlamentares. De repente ficou claro que os russos não tolerariam mais esse tipo de coisas. Eles cresceram e as fraldas do autoritarismo ficaram apertadas.

Entre os dois gigantescos comícios de 10 e 24 de dezembro, Putin ainda teve uma chance de argumentar com os manifestantes. Mas o “líder nacional” (como seus partidários chamam o primeiro-ministro) cometeu um erro fatal: insultou publicamente os participantes do movimento, afirmando que tinham sofrido uma lavagem cerebral e vendido a alma. Depois disso, o principal alvo da indignação pública foi o próprio Putin, e não o partido governista.

Naquelas duas semanas, Putin perdeu o país. Evidentemente, ele ainda não se deu conta disso. Está convencido de que os distúrbios são provocados por alguns moscovitas barulhentos e continua contando com o apoio do restante do país. Além disso, realmente acredita que ganhará as eleições presidenciais.

Vitória de Pirro. Nas atuais circunstâncias, isso só ocorrerá se houver uma fraude colossal. Mas será uma vitória de Pirro. Putin perderá o que resta de seus índices de aprovação, e se tornará objeto de ódio e de ridículo de todos os russos. Será um presidente muito fraco, que provavelmente não conseguirá se manter por muito tempo no poder.

Por mais paradoxal que possa parecer, eu preferiria que o regime de Putin não caísse muito depressa. Ele que resista ao menos mais um ano. Se ele saísse logo mais, sem dilapidar sua popularidade até o fim, poderia voltar de uma maneira plenamente democrática – quando a crise afetasse o padrão de vida e as pessoas começassem a falar com saudade dos “anos das vacas gordas”. Uma “segunda volta” seria uma catástrofe para o país.

Além disso, os brotos ainda novos da sociedade civil precisam de tempo para crescer e se fortalecer. A melhor maneira de amadurecerem seria por meio de um ataque constante a um autoritarismo rígido, inflexível. Nesta luta, a sociedade civil se fortaleceria e aprenderia a se organizar. Isso permitiria o nascimento de uma gama de partidos políticos de verdade, e não de títeres, como no Parlamento de Putin: um poderoso centro democrático, com uma nova esquerda de socialistas e comunistas de um lado, e a nova direita dos nacionalistas do outro.

Se a mudança de poder ocorresse após a conclusão desse processo, a Rússia pós-Putin ingressaria relativamente sem dor no estágio seguinte de evolução do Estado. Politicamente, esse seria um país tumultuado, com crises parlamentares, abruptas mudanças de governo, pedidos de impeachment e todos os outros atributos de uma democracia em evolução.

Mas num país no qual uma classe média despertasse e se desse conta do seu poder, nem os ministros nem os oligarcas poderiam monopolizar mais o poder. E muito menos uma única pessoa.

*BORIS AKUNIN É O PSEUDÔNIMO DE GRIGORY CHKHARTISHVILI, ESCRITOR RUSSO E PESQUISADOR DE HISTÓRIA DA LITERATURA UNIVERSAL

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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