VISÃO GLOBAL: Paz agora ou nunca
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VISÃO GLOBAL: Paz agora ou nunca

Luciana Fadon Vicente

23 Setembro 2011 | 10h00

*Ehud Olmert é ex-primeiro-ministro de Israel (2006-2009)

Após a abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas deste ano, sinto-me inquieto. Um desnecessário confronto diplomático entre Israel e os palestinos está tomando forma em Nova York, algo que vai prejudicar Israel e o futuro do Oriente Médio. Sei que as coisas poderiam e deveriam ser diferentes.

Acredito sinceramente que uma solução de dois Estados é a única forma de garantir um Oriente Médio mais estável e conceder a Israel a segurança e o bem-estar que o país deseja. Conforme aumentam as tensões, não posso afastar a sensação de que nós, habitantes da região, estamos prestes a desperdiçar uma oportunidade – algo que não podemos nos dar ao luxo de fazer.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, planeja fazer hoje um pedido unilateral pelo reconhecimento de um Estado palestino na ONU. É direito dele fazer isso, e a imensa maioria dos países da Assembleia-Geral apoia o gesto dele. Não é o passo mais prudente que Abbas poderia dar.

O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, declarou publicamente acreditar numa solução de dois Estados, mas está fazendo imensos esforços políticos para impedir o pedido de Abbas pelo reconhecimento do seu Estado reunindo o apoio da população de Israel e apelando a outros países. Não é o passo mais prudente que Netanyahu poderia dar.

Na pior das hipóteses, o caos e a violência podem irromper, afastando ainda mais a possibilidade de um acordo, ou mesmo impossibilitando-o. Se isso ocorrer, o resultado, sem dúvida nenhuma, não será a paz.

Os parâmetros para um acordo de paz são conhecidos por todos e já foram postos na mesa. Fui eu quem os apresentou em setembro de 2008 quando fiz uma oferta abrangente a Mahmoud Abbas.

De acordo com a oferta que fiz, a disputa territorial seria solucionada com o estabelecimento de um Estado palestino num território de tamanho equivalente às fronteiras da Faixa de Gaza e da Cisjordânia pré-1967, com trocas de território de comum acordo que levassem em consideração as novas realidades do mapa.

Jerusalém. A cidade de Jerusalém seria partilhada. Suas áreas judaicas seriam a capital de Israel e seus bairros árabes se tornariam a capital palestina. Nenhum dos dois lados se declararia soberano dos locais sagrados; estes seriam administrados conjuntamente com o auxílio da Jordânia, da Arábia Saudita e dos Estados Unidos.

O problema dos refugiados palestinos seria administrado dentro dos parâmetros da Iniciativa de Paz Árabe de 2002. O novo Estado palestino se tornaria o lar de todos os refugiados palestinos assim como o Estado de Israel é a pátria do povo judeu. No entanto, Israel teria de preparar-se para absorver um pequeno número de refugiados com base em princípios humanitários.

Como garantir a segurança de Israel é vital para a aplicação de qualquer acordo, o Estado palestino seria desmilitarizado e não formaria alianças militares com outros países. Ambos Estados cooperariam na luta contra o terrorismo e a violência.

Esses parâmetros nunca foram formalmente rejeitados por Abbas, e devem ser trazidos à mesa mais uma vez agora. Tanto Abbas quanto Netanyahu precisarão, então, tomar decisões corajosas e difíceis. Nós, israelenses, simplesmente não podemos nos dar o luxo de gastar mais tempo tentando adiar uma solução definitiva. Novos atrasos só ajudarão os extremistas de ambos os lados que tentam sabotar todas as perspectivas de uma solução de dois Estados, pacífica e negociada.

Além disso, a primavera árabe mudou o Oriente Médio e acontecimentos imprevisíveis na região, como o recente ataque à Embaixada de Israel no Cairo, podem facilmente explodir num caos generalizado. Portanto, é do interesse estratégico de Israel que os acordos de paz já existentes com seus vizinhos, Egito e Jordânia, sejam reforçados.

Israel deve também se esforçar ao máximo para desarmar o quanto antes as tensões com a Turquia. Os turcos não são inimigos de Israel.

Trabalhei em estreita parceria com o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan. Apesar de suas recentes declarações e medidas, acredito que ele compreende a importância das relações com Israel. Erdogan e Netanyahu precisam trabalhar para pôr fim a esta crise imediatamente para o bem de seus países e da estabilidade da região.

Em Israel, sentimos muito pela morte de cidadãos turcos em maio de 2010, quando Israel confrontou uma provocação sob a forma de um comboio naval que seguia para a Faixa de Gaza. Tenho certeza de que é possível encontrar uma maneira adequada de expressar este sentimento ao governo da Turquia e ao povo turco.

É chegado o momento da verdadeira liderança. A qualidade da liderança não é medida pela sobrevivência política, mas pela capacidade de tomar decisões difíceis em momentos desafiadores.

Iniciativas. Quando eu me dirigia aos fóruns internacionais como primeiro-ministro, o povo israelense esperava de mim que apresentasse ousadas iniciativas políticas capazes de trazer a paz – e não argumentos explicando o motivo pelo qual seria impossível chegar à paz agora. Hoje, iniciativas como esta são mais necessárias do que nunca para provar ao mundo que Israel é um país que busca a paz.

Esta oportunidade não se manterá aberta indefinidamente. Não é sempre que Israel se verá diante de líderes palestinos como Abbas e o primeiro-ministro Salam Fayyad, que se opõem ao terrorismo e desejam a paz. De fato, os futuros líderes palestinos podem abandonar a ideia de dois Estados e buscar uma solução de Estado único, tornando impossível a reconciliação. A hora é agora. Não haverá momento mais favorável.

Espero que Netanyahu e Abbas estejam à altura do desafio.

*Publicado originalmente no New York Times

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL