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VISÃO GLOBAL: Precisa-se de líderes

Redação Internacional

28 Setembro 2011 | 07h16

Visão Global; análises e comentários de especialistas

Se houvesse boa vontade de republicanos e democratas, os EUA já teriam conseguido um acordo para equilibrar a própria economia e ajudar a tirar o mundo da crise

*Thomas L. Friedman é jornalista

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A Barack Obama, John Boehner, Harry Reid, Mitch McConnell, Nancy Pelosi e Eric Cantor, tenho um conselho que pode ser resumido em duas palavras: Herbert Hoover.

Hoover é lembrado como personagem infame da história dos Estados Unidos por ter sido aquele que estava no cargo quando ocorreu a Grande Depressão. Trata-se de um destino que todos vocês parecem cortejar. Seu comportamento conjunto está preparando o terreno para que sejam todos lembrados como os Herbert Hoovers de sua geração – os líderes que estavam no cargo quando entramos no nosso segundo derretimento econômico.

Diferentemente de Hoover, que estava apenas aplicando os ensinamentos convencionais da ciência econômica da sua época quando os EUA caíram na Depressão, vocês não têm desculpa. Sabemos o que fazer – uma Grande Barganha: estímulo de curto prazo para facilitar nossa vida durante o processo de reestruturação do endividamento no mercado imobiliário e de cortes no orçamento de longo prazo para organizar as finanças internas. Nada disso será fácil e a economia não será reparada da noite para o dia. Serão necessários anos. Mas é grande a chance de uma recuperação plena se os seus dois partidos construírem a Grande Barganha da qual necessitamos.

Quanto mais leio os jornais, mais me convenço de que “nós, o povo” estamos no meio de uma crise econômica enquanto “vocês, os políticos” estão preocupados com uma eleição – e é assustador o quanto essas duas realidades são distantes uma da outra.

Pior ainda – ambos os partidos parecem ter concluído recentemente que é impossível chegar a qualquer tipo de acordo de concessão mútua e, assim sendo, as diferenças entre eles terão de ser resolvidas com a eleição de 2012. Sem problema! Tenho certeza que os mercados serão pacientes e poderão esperar até que o novo presidente tome posse em 2013! E aposto que a crise de endividamento na Europa vai gostar de tirar uma folga no ano que vem. Na verdade, deve ser por isso que os republicanos realizaram outro debate presidencial na noite de quinta-feira a respeito da crise econômica europeia, e a forma com a qual essa poderia vir a nos afetar – e as medidas que deveríamos adotar para nos isolar das suas consequências – nem foi mencionada na discussão.

Será que nossos líderes perderam o juízo? Será que no fim de semana essas pessoas voltam para casa em alguma ilha distante onde os planos de aposentadoria de todos estão funcionando bem, onde os filhos de todo mundo estão empregados e onde nenhuma hipoteca foi para o brejo? Onde está a urgência? Estamos em alerta vermelho. Enfrentamos um possível contágio financeiro global detonado por bancos europeus afogados em dívidas soberanas que estão espalhando seu drama para um já enfraquecido sistema financeiro americano.

O presidente Barack Obama diz que tentou negociar uma Grande Barganha com Boehner na questão dos impostos e dos gastos, mas que o presidente da câmara recusou a oferta, quando se tornou claro que ele não poderia garantir a adesão de seus colegas republicanos. Boehner diz que foi o presidente quem impediu a concretização do acordo, ao pedir por um aumento na receita fiscal além daqueles aumentos a respeito dos quais os dois já tinham concordado.

Tudo o que sei é que, se algum desses dois políticos tivesse agido como um líder verdadeiramente comprometido com a Grande Barganha – algo que os dois têm ciência de ser aquilo de que realmente necessitamos -, esse não teria simplesmente desistido das negociações; teria apresentado o problema ao país e insistido até que o parceiro voltasse à mesa de negociações.

Em vez disso, os dois se queixaram publicamente a respeito de uma Grande Barganha para a qual estariam preparados, não fosse a desistência do parceiro – e então recuaram para suas bases. Boehner voltou aos republicanos defendendo que novos cortes nos impostos poderiam nos tirar dessa situação. Obama voltou aos democratas com o novo foco em taxar os milionários. Na minha próxima encarnação, quero ser um membro da “base” – qualquer que seja essa base. Além de exercerem ampla influência, eles parecem se divertir tanto! Se o presidente quiser mesmo liderar desde a vanguarda, ele deve convocar os líderes democratas e republicanos, bem como todos os 12 membros do “supercomitê” conjunto da Câmara e do Senado para a questão do déficit, a se reunirem com ele em Camp David e dizerem ao mundo que não sairão de lá sem chegar a uma Grande Barganha – um acordo que traga algum estímulo de curto prazo para a criação de empregos, um plano crível de redução do déficit no longo prazo com cortes nos programas sociais e uma reforma fiscal que amplie a arrecadação.

Há dois motivos pelos quais precisamos desesperadamente disso: temos que fazer nossa parte na tarefa de tirar o mundo dessa crise por meio da estabilização de nossa própria economia. E precisamos mostrar que ainda somos capazes de agir coletivamente. A paralisia tóxica em Washington está, em si e por si, retardando o crescimento. Está mantendo uma nuvem escura sobre o centro do país e criando um ambiente azedo no qual as pessoas parecem apenas preocupadas em manter aquilo que têm. Como me disse um banqueiro de Dallas: “Atualmente, não contratamos ninguém a não ser que seja absolutamente necessário”.

Por acaso dou a impressão de pensar que os republicanos tentaram sabotar Obama desde o primeiro dia do seu governo? Pois é isso mesmo que penso. E a ameaça feita por eles de um novo impasse capaz de interromper o funcionamento do governo é uma completa loucura. Mas o presidente tem sua parcela de culpa. Ele abandonou sua própria comissão Simpson-Bowles para a redução do déficit, que ainda poderia ser o alicerce de uma Grande Barganha razoável.

O mais importante é que Obama ainda está no cargo. Aos olhos da história, será ele o principal responsável por aquilo que ocorrer e, assim sendo, é ele quem precisa assumir a liderança na tentativa de fazer os líderes de ambos partidos voltarem à mesa de negociações da Grande Barganha.

Se tudo o que os dois partidos terão a nos oferecer do momento atual até novembro de 2012 for um duelo até a morte, e não uma Grande Barganha – com os republicanos culpando o presidente pela péssima situação da economia e Obama fazendo campanha com base na premissa da loucura total que tomou conta do Partido Republicano -, o preço que pagaremos será altíssimo.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*Publicado originalmente no New York Times