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VISÃO GLOBAL: Pró-Israel, mas nem sempre contra o Irã

Redação Internacional

20 de março de 2012 | 03h11

Visão Global; análises e comentários de especialistas

Embora o lobby israelense seja visto como monolítico, há profunda divisão entre os que defendem uma ação armada contra Teerã e os que apostam na diplomacia

ERIC LICHTBLAU
MARK LANDLER
THE NEW YORK TIMES

Antes mesmo de o presidente Barack Obama ter declarado neste mês que protegeria as costas de Israel em sua escalada do confronto com o Irã, personalidades pró-Israel como o líder cristão evangélico Gary L. Bauer e o comentarista conservador William Kristol estavam cobrando mais.

Num bem acabado vídeo de 30 minutos, a organização que os dois lideram, Comitê de Emergência por Israel, zomba do “compromisso inabalável com a segurança de Israel” de Obama e considera fraco seu histórico sobre o Irã. “Serei brutalmente honesto – não confio no presidente sobre Israel”, disse numa entrevista Bauer, que buscou sem sucesso a indicação para a candidatura presidencial republicana em 2000. Com líderes israelenses advertindo sobre uma ameaça existencial do Irã e discutindo abertamente a possibilidade de atacar suas instalações nucleares, grupos pró-Israel de todos os matizes se mobilizaram para tornar seus pontos de vista conhecidos do governo Obama e do Congresso.

Foram as vozes mais de direita, como a do Comitê de Emergência, que dominaram o debate e, na visão de alguns críticos, empurraram os EUA para mais perto de empreender ações militares contra o Irã e uma nova guerra no Oriente Médio. “Isso não tem a ver com Israel”, disse, numa entrevista, o líder da maioria na Câmara, Eric I. Cantor, republicano de Virgínia e aliado chave do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, no Congresso americano. “Tem a ver com os EUA, tem a ver com nossos interesses na região. A Casa Branca tem emitido muitas mensagens conflitantes.”

Entre os que defendem uma atitude mais agressiva ante o Irã estão destacados republicanos no Congresso, como Cantor e o senador John McCain do Arizona; os pré-candidatos presidenciais do partido; grupos como o Comitê de Emergência e o Comitê de Assuntos Públicos Americano Israelense, ou Aipac; os chamados “neocons” do governo de George W. Bush que foram fortes defensores da guerra no Iraque; cristãos evangélicos pró-Israel como Bauer, que também é atuante no grupo Cristãos Unidos por Israel, e muitos democratas.

Entre os que privilegiam a diplomacia estão grupos liberais como J Street, ajudado por US$ 500 mil anuais de contribuições do filantropo liberal Georges Soros, e o Tikkun, um jornal judaico que começou a exibir anúncios com os dizeres “Não à guerra com o Irã e não a atacar primeiro!” O Tikkun, com base em Berkeley, Califórnia, pretende associar sua mensagem contra a guerra aos protestos do movimento Ocupe. “Muita gente fala do lobby de Israel como se fosse uma coisa monolítica”, disse Dylan Williams, chefe de assuntos do governo da J Street. “Isso é um mito. Há uma divisão profunda entre os que apoiam uma ação militar neste momento e os que apoiam a diplomacia.”

Fissuras claras se formaram entre os grupos pró-Israel, não só entre falcões e pombos sobre o uso de força militar contra o Irã, mas entre os próprios linhas-duras sobre o grau de agressividade com que o Irã deve ser enfrentado.
Sheldon Adelson, um bilionário dono de cassino que é um firme apoiador de Israel, doou este ano pelo menos US$ 10 milhões, com sua mulher, para apoiar a campanha presidencial de Newt Gingrich. Assim como Mitt Romney e Rick Santorum, Gingrich declarou um forte apoio a Israel e considerou fracas as políticas de Obama sobre a questão iraniana. Ele também descreveu os palestinos como um “povo inventado”.

Os desacordos sobre o Irã refletem as divisões entre os próprios judeus. Numa pesquisa com judeus americanos em setembro feita pelo Comitê Judaico Americano, 56% dos entrevistados disseram que apoiariam uma ação militar americana contra o Irã se diplomacia e sanções falhassem, enquanto 38% se opuseram a isso. O apoio ficou ligeiramente abaixo de um ano antes.

O rabino Michael Lerner, um líder do Tikkun filiado à coalizão de grupos religiosos contra a guerra, disse que os apoiadores da diplomacia querem expor o que viram como um “toque de tambor de guerra” nas últimas semanas. Ele e outros adversários de uma ação militar dizem que o debate sobre o Irã reproduz o clima político de 2002 durante os preparativos para a invasão do Iraque liderada pelos EUA.

O deputado Keith Ellison, democrata de Minnesota, que se opõe a uma ação militar contra o Irã, disse: “A retórica está exagerada”. Os que defendem uma intervenção militar “mobilizam cenários apocalípticos”, disse Ellison numa entrevista. “Isso tem efeitos. No mínimo, eles estão fazendo Obama falar sobre opções militares com respeito ao Irã.”

No impasse, os grupos de falcões que apoiam uma ação militar usam mais dinheiro, influência política e nomes de destaque que os defensores de uma solução diplomática.

No geral, os comitês de ação política pró-Israel e os doadores a eles filiados doaram mais de US$ 47 milhões diretamente a candidatos federais desde 2000, segundo dados do Center for Responsive Politics, um grupo de pesquisa não partidário.

Eles estão entre os principais contribuintes para alguns destacados democratas e republicanos, e grupos pró-Israel receberam muitos legisladores em viagens com despesas pagas a Israel. Quando a Aipac realizou sua conferência deste mês com Obama e Netanyahu, mais da metade dos membros do Congresso compareceram.

O próprio presidente fez advertências contra “conversas frouxas sobre guerra” no debate público sobre a política iraniana, apesar de ter deixado aberta a possibilidade de uma ação militar. Na conferência da Aipac, Obama referiu-se explicitamente a uma ação militar como uma opção para lidar com o Irã. Para especialistas, a linha mais dura de Obama também ajuda na política doméstica. Eles consideram que as declarações do presidente acalmaram o nervosismo de alguns eleitores judeus sobre seu apoio a Israel e desarmaram o esforço de candidatos presidenciais republicanos de usar o Irã contra Obama. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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