VISÃO GLOBAL: Um clã brutal atormenta os EUA
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VISÃO GLOBAL: Um clã brutal atormenta os EUA

Luciana Fadon Vicente

27 Setembro 2011 | 13h32

Visão Global; análises e comentários de especialistas

Parece tarde para Washington conter a rede Haqqani, com quem manteve uma aliança contra os soviéticos no Afeganistão

*Mark Mazzetti e Alissa J. Rubin são jornalistas

Eles são a família Soprano da Guerra do Afeganistão, um implacável clã criminoso que ergueu um império por meio do sequestro, da extorsão, do tráfico e até dos transportes rodoviários. Participaram do tráfico de pedras preciosas, roubaram lenha e cobraram taxas de proteção de empresas que construíram estradas e escolas com recursos americanos destinados à recuperação do país.

Eles mantêm sob controle seu território montanhoso escondendo mortíferas bombas na beira da estrada e bombardeando bases americanas mais remotas. E são acusados por funcionários americanos de serem mercenários: uma força à qual o serviço secreto paquistanês recorre para a execução de sangrentos e notáveis ataques em Cabul e no restante do Afeganistão.

Atualmente, representantes do Exército e do serviço de espionagem americano referem-se ao clã criminoso como rede Haqqani – liderada por um experiente militante chamado Jalaluddin Haqqani que, ao longo dos anos, já foi aliado da CIA, do serviço saudita de espionagem e de Osama bin Laden. No mais recente de uma série de atentados cada vez mais ousados, o grupo atacou a Embaixada dos EUA em Cabul, uma ação que o almirante americano Mike Mullen disse ter sido facilitado pela agência paquistanesa de espionagem, ISI.

Mas enquanto os americanos prometem se vingar dos Haqqani e debate-se no governo Barack Obama uma forma de responder à força do grupo, é cada vez maior a impressão de que agora pode ser tarde demais. Para muitos funcionários frustrados do governo, o grupo representa uma oportunidade desperdiçada de consequências assombrosas. Responsáveis por centenas de mortes entre os americanos, os Haqqani provavelmente permanecerão no Afeganistão por mais tempo do que os soldados dos EUA, e controlarão grandes partes do território.

Os oficiais do Exército americano, que passaram anos insistindo para que Washington agisse contra os Haqqani, manifestaram sua irritação diante da demora do governo Obama em incluir o grupo na lista de organizações terroristas por causa da preocupação com a possibilidade de tal medida arruinar as chances de o grupo estabelecer um dia a paz com o governo afegão

Quando a ameaça representada por eles era menos urgente, os Haqqani – cujos membros são estimados entre 5 mil e 15 mil combatentes nas montanhas do Afeganistão e do Paquistão – não figuraram entre as prioridades dos americanos. Mas, mesmo naquela época, havia pouco que os EUA pudessem fazer contra eles. Os Haqqani expandiram suas fileiras e o alcance de sua influência enquanto representantes do alto escalão do governo americano tentaram repetidas vezes na última década repreender e bajular funcionários paquistaneses na tentativa – mal sucedida – de convencê-los a romper seus laços com um grupo que estes consideram essencial para a própria segurança.

Agora administrada principalmente por dois dos filhos de Haqqani, que os especialistas afirmam ser mais radicais do que o pai, a rede ocupa agora uma posição de força enquanto os EUA tentam negociar um acordo de paz no Afeganistão antes de retirar seus soldados.

Nos últimos dias, alguns dos principais líderes da rede Haqqani indicaram sua disposição em negociar, desde que isto seja feito nos seus termos. O grupo mantém elos de proximidade com o Taleban, mas costuma agir com independência, e alguns funcionários do serviço de espionagem veem operações da rede Haqqani como o ataque à embaixada americana como uma mensagem do grupo ao público, anunciando que não se deixará excluir de nenhuma negociação importante.

Aliança. Um ex-funcionário do serviço americano de espionagem que disse ter trabalhado com a família Haqqani no Afeganistão durante a ocupação soviética nos anos 80 disse que não ficaria surpreso se os EUA se virem novamente contando com o clã entre os seus aliados.

Durante anos, representantes americanos insistiram ao governo paquistanês para que agisse contra a base operacional da rede Haqqani no Waziristão do Norte. Estes pedidos foram recusados por representantes do Exército e dos serviços de espionagem de Islamabad, que afirmam que o Exército paquistanês já se encontra numa situação de extrema diluição de suas forças por causa do envolvimento em operações em outras partes das regiões tribais.

Jalaluddin Haqqani manteve uma aliança temporária com os EUA contra seu maior adversário, a União Soviética, assim como sua rede está hoje aliada a um Paquistão que enxerga o Afeganistão como um tampão fundamental contra seu principal adversário, a Índia.

A nova urgência de um acerto político no Afeganistão limitou ainda mais as opções de Washington para combater a rede Haqqani. Mas enquanto Washington se vê diante de dificuldades para negociar um desfecho para a guerra no Afeganistão, existe uma dúvida generalizada quanto à disposição dos Haqqani de negociar – e se seus patrocinadores em Islamabad permitiriam tal negociação. Depois de uma década de guerra, é cada vez maior entre os diplomatas, soldados e espiões americanos a sensação de que os EUA estão saindo do Afeganistão sem ter nem mesmo descoberto como se joga este jogo complexo.

“Será que existe algum tipo de fórmula para fazer o Paquistão concordar em interromper seu apoio aos insurgentes afegãos ?” perguntou Karl W. Eikenberry, que serviu como principal comandante militar americano no Afeganistão e como embaixador americano no país. “Não sabemos a resposta para esta pergunta”, disse.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*Publicado originalmente no New York Times