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VISÃO GLOBAL: Velha ordem sufoca novo Egito

João Coscelli

24 de novembro de 2011 | 03h00

 

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Os militares, a Irmandade Muçulmana, liberais e esquerdistas parecem despreparados para a transição

Por Anthony Shadid, do New York Times*

Se as manifestações de fevereiro foram um levante contra o presidente Hosni Mubarak, a revolta agora é contra seu legado. “Esta é a verdadeira revolução”, disse Mohammed Aitman na eufórica Praça Tahrir.

Os vestígios da ordem de Mubarak – os militares, a Irmandade Muçulmana e outros grupos islâmicos, ou liberais e esquerdistas fragmentados – parecem despreparados para conduzir a transição de seu regime. Esse é um acerto de contas no geral mais difícil que o que se repetiu nas revoltas árabes na Síria, Líbia, Iêmen e Bahrein.

A estratégia, que por tanto tempo conseguiu reprimir com sucesso a ira pública e solapar a vontade de rebelião das pessoas, não está mais funcionando.

Consequentemente, não está absolutamente claro que caminho o Egito encontrará para seguir adiante. As autoridades esperavam que os manifestantes se cansariam e iriam para casa, mas não foram. Os militares tentaram a violência, mas ela não funcionou. Tentaram concessões limitadas, mas não funcionaram. E culparam estrangeiros por incitar a violência, e isso não funcionou.

Isso pode prenunciar um período prolongado e perigoso de agitação no Egito e o espetacular show de insatisfação na Praça Tahrir demonstra que não há nenhuma instituição para canalizar suas frustrações. Os militares parecem em grande parte inconscientes da escala dos protestos, e os partidos islâmicos estão obcecados com seus objetivos políticos , pois preveem uma votação favorável nas próximas eleições. Não surgiu nenhum líder, de nenhum viés ideológico, para canalizar a insatisfação que de novo ocupa as ruas.

“Hoje vemos a falência da classe política”, disse Ibrahim el-Houdaiby, analista político no centro de pesquisa Dar al-Hikma no Cairo. “O povo sente-se traído.” Um dos feitos duradouros de tantos autocratas árabes, alguns deles ainda no poder, foi sua capacidade de cooptar, eviscerar ou abolir as instituições que poderiam guiar a transição na sua ausência, ao mesmo tempo em que jogavam com as divisões sociais para prolongar seu regime.

Ferozmente oprimida durante muito tempo, a oposição da Síria teve dificuldade para articular uma visão que inspire confiança nas minorias do país. A implacável destruição das instituições líbias pelo coronel Muamar Kadafi deixou um país cujas regiões às vezes agem como cidades-Estado autônomas e onde tribos servem de estrutura social primária. A monarquia no Bahrein atiçou com tanta eficácia as divisões sectárias que uma sociedade antes cosmopolita pode estar polarizada demais para se reconciliar.

A versão do Egito de um legado autoritário ficou exposta na terça-feira, quando militares acostumados a décadas de privilégios recusaram-se a entregar o poder real, e uma classe política intimidada por anos de autoritarismo – a Irmandade Muçulmana é o exemplo mais destacado – pareceu oportunista, defensiva ou sem imaginação.

Para muitos na Praça Tahrir, os políticos ou estavam defendendo seus interesses ou se mostrando incapazes de apresentar uma visão capaz de conter a pior crise que o Egito enfrenta desde a deposição de Mubarak, em fevereiro. O ódio era tão grande que um político da Irmandade foi enxotado da praça por uma multidão que se sente determinada, mas sem liderança.

“Ainda estamos lidando com o sistema de Mubarak!”, disse Mustafá Tobgi, um funcionário público de 56 anos. “Eles todos são formados na escola de Mubarak.”

“O abismo entre os militares e os manifestantes é tão grande agora que é quase impossível ser transposto”, disse Shadi Hamid, diretor de pesquisa do Brookings Doha Center, que está visitando o Cairo. “Esse é o problema. O máximo que os militares podem oferecer não bate com o mínimo que os manifestantes estão pedindo.”

*É JORNALISTA E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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