Al-Qaeda se transforma em 'franquia' ideológica

Especialista diz que rede terrorista é como uma marca, atraindo grupos que se identificam com a sua filosofia

Talita Eredia, estadao.com.br

11 de setembro de 2008 | 07h17

Sete anos após os atentados de 11 de setembro de 2001, que mataram quase 3 mil pessoas, a rede terrorista Al-Qaeda ampliou o seu alcance ideológico e tornou-se mais importante como fonte de inspiração do que como organização. A afirmação foi feita ao estadao.com.br pelo especialista em segurança internacional Reginaldo Nasser, chefe do departamento de Relações Internacionais da PUC-SP.   Veja também: Para especialista, EUA ainda não superaram medo do 11/9 Al-Qaeda perde foco e apoio no mundo islâmico Veja a linha do tempo dos ataques terroristas    De acordo com o analista, os vínculos da facção islâmica com outros grupos terroristas permitem articulações mais sofisticadas, nas quais a organização apenas fornece instruções para as operações. "A Al-Qaeda é hoje como uma empresa de agenciamento, você tem a marca Al-Qaeda, a tecnologia dos atentados, a forma como são feitos, o processo de comunicação que se segue após o ataque, o uso da mídia, tudo isso é expertise do grupo".   Nasser explica que atentados promovidos na África, como os ataques simultâneos em Argel contra um prédio da ONU e do Conselho Constitucional argelino, freqüentemente são assumidos pela Al-Qaeda no Magreb Islâmico, quando na verdade são promovidos por grupos distintos, porém ligados a Al-Qaeda. "Grupos na Argélia, Sudão, Somália, não é Al-Qaeda em si, são conexões, como uma espécie de terceirização. Ela adquire alguma proeminência em determinado país na medida em que a região tenha uma situação instável, de desordem, e grupos capazes de promover esse tipo de atentado".   O especialista aponta que a Al-Qaeda passou por três momentos e que o curso da facção muda em função dos acontecimentos. A primeira fase teve seu auge em 1998, com os atentados simultâneos contra as embaixadas dos Estados Unidos na Tanzânia e no Quênia, matando 224 pessoas. Após estes ataques, a Al-Qaeda se fortalece no Afeganistão, onde conquista o apoio da milícia Taleban contra os americanos, apesar de algumas desavenças, e adquire uma nova face. O segundo momento é o 11 de setembro, que inclui também os ataques contra o sistema ferroviário de Madri em 2004, em que 91 morreram, e as explosões promovidas no metrô e nos ônibus de Londres, matando 52 pessoas em 2005. A atual fase é a da força ideológica.   A Al-Qaeda nasceu a partir do dinheiro saudita, do envio de armas americanas ao Afeganistão e da mediação do serviço de inteligência paquistanês, ressalta Nasser, justificando os motivos que levaram o grupo a se concentrar na região da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, onde se reagrupa atualmente. "Esta inserção permanece na região da fronteira entre os dois países, nas montanhas onde vivem algumas tribos. Com a ação militar recrudescendo no Iraque, vários membros do grupo também retornaram para a região", aponta.   Nasser lembra que os confrontos entre rebeldes e forças de coalizão lideradas pelos EUA na fronteira não são promovidos somente pelo grupo. "Tanto no Afeganistão como no Paquistão existem tribos armadas que combatem os americanos que estão em campo e não necessariamente possuem relação com a Al-Qaeda. O que acontece: todo e qualquer atentado na região, até mesmo na Argélia, é atribuído à rede terrorista. Não é verdade". A própria facção se declara responsável pelo incidente, mesmo que não haja envolvimento, porque cresce em termos de idéias. "Existem guerras distintas, que acabam dando mais poder do que a Al-Qaeda tem", afirma.   Recrutamento   O ingresso do terrorista no grupo se dá por adesão voluntária, e os interessados acabam encontrando algum meio de acessar a Al-Qaeda, seja pela Internet, por aliados do Taleban ou pelas madrassas (escolas religiosas corânicas). O perfil do terrorista para os grandes atentados como o 11 de setembro é bem distante do estereótipo mostrado nos campos de treinamento do grupo, aponta o especialista.   A maioria dos terroristas responsáveis por grandes atentados não é religiosa nem adepta fervorosa do islã, tem nível socioeconômico elevado para os padrões do Oriente Médio, fala bem o inglês e boa parte não possui registro de nenhum ato de terror no passado. O último fator dificulta a identificação e, conseqüentemente, a prevenção de qualquer tipo de ataque. "A diferença é clara: existem aqueles que fazem ataques no Paquistão e no Afeganistão, e os que promovem atentados como o 11 de setembro, que agiriam em países como EUA, Reino Unido, Espanha", destaca Nasser.   "Aquela imagem que passa na televisão, dos campos de treinamento da Al-Qaeda, é para ser exibida na mídia. A Al-Qaeda não é o cara que sabe atirar com uma metralhadora AK-47, rastejar num campo empoeirado, com arame farpado etc. A Al-Qaeda tem outro nível de ação. Isso não é o forte da ação da Al-Qaeda", aponta.   Líder carismático   Um dos responsáveis pela liderança ideológica da Al-Qaeda é Osama Bin Laden, que motiva o grupo e seus aliados com suas mensagens. Porém, em relação à ação organizacional, Bin Laden não estaria mais à frente do grupo, e o comando operacional é uma incógnita. Especula-se que um de seus filhos, Saad bin Laden, esteja na liderança da facção, o que torna interessante o aspecto da herança do grupo.   Osama continua como o responsável pela influência da Al-Qaeda, porque boa parte da rede terrorista vive em função da comunicação - característica recente dos grupos do Oriente Médio. O saudita discursa, faz avaliações políticas internacionais e conclama novas ações, disseminando as idéias terroristas.   Para o especialista, a morte de Bin Laden não mudaria em nada a organização do grupo, mas produziria efeitos negativos sobre o carisma da organização. "Existe todo o apelo emocional, o carisma dele, isso não tem como substituir. Agora, em aspectos organizacionais, a Al-Qaeda continua a mesma. Os atentados que acontecem na Argélia não dependem do Bin Laden. No Afeganistão e no Paquistão também não. Eles já possuem um modo próprio de agir, com estratégias estabelecidas. É uma organização no sentido pleno da palavra e como toda organização, depende de um líder, mas não para sobreviver".   Possíveis ataques   Nasser acredita que as chances de que um outro atentado em larga escala seja promovido são as mesmas do 11 de setembro de 2001. Porém, com o processo de vigilância interna dos EUA, a probabilidade de que os terroristas adquiram instrumentos e meios para organizar um ataque naqueles termos é reduzida. "Para um atentado acontecer daquela maneira, é preciso ter primeiro pessoas que sejam difíceis de serem identificadas; recursos para isso - o custo para o atentado contra as Torres Gêmeas foi pequeno, estima-se cerca de US$ 100 mil. É improvável, não é impossível. E os americanos sabem disso".   Além disso, sem um serviço de inteligência eficiente, a captura dos líderes da Al-Qaeda e o desmantelamento da rede terrorista é cada vez mais distante. Na reação aos ataques, quando os EUA não possuíam uma organização articulada, foi desenvolvida a chamada guerra clássica, com incursões, bombardeios aéreos - que aumentaram o número de civis mortos no Afeganistão. A falta de informações adequadas e os laços estreitos entre os membros da rede também dificultam a infiltração de espiões no grupo. Por isso, promessas como as do candidato republicano à presidência dos EUA, John McCain, que se baseiam na captura de Bin Laden, não passariam de retórica eleitoral, afirma o analista.   "O terror age de forma psicológica. Qual o recado que o terrorista dá? Ele foi capaz de fazer uma vez, então fica a dúvida se acontecerá da mesma forma. Ainda que não aconteça, existe sempre a expectativa se 1 ano é pouco tempo para um novo ataque, dez anos, 20 anos, não dá para saber. O país deve permanecer sob vigilância, porque um dia, num momento de distração, pode acontecer. É isso que o terrorista faz, ele avalia sistematicamente. No dia em que ele acreditar que existe a chance, ele vai agir".

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