ANÁLISE-Obama não tem mais que palavras para a América Latina

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, melhorou as relações com o Brasil durante seu giro pela América Latina, mas não obteve avanços em disputas comerciais decisivas, e os ataques militares contra a Líbia estragaram sua ofensiva de charme.

RAYMOND COLITT, REUTERS

22 de março de 2011 | 22h20

A viagem também pouco fez para conter o crescente poder da China na América Latina, uma ascensão prejudicial aos negócios dos EUA, que enfrentam uma competição muito mais dura nas economias que crescem rapidamente na região.

Reparando um período de tensas relações, Obama esbanjou elogios ao crescente poder econômico e político do Brasil, e tentou reparar anos do que muitos na América Latina veem como décadas de tratamento muito pesado de Washington.

As realizações concretas foram poucas, contudo, especialmente se comparadas com as ousadas iniciativas da China, que ultrapassou os EUA como principal parceiro comercial de Brasil e Chile -- as primeiras paradas no giro de cinco dias de Obama pela região.

"Houve importantes mensagens políticas. Portas se abriram, mas em termos de comércio e investimentos não há muita coisa, além de vagas promessas", disse André Nassar, diretor de uma consultoria de São Paulo especializada em comércio, ao comentar a visita de Obama.

E as forças econômicas por trás do novo poder da China -- seu rápido crescimento e posição como comprador-chave dos produtos agrícolas e metais latino-americanos -- não dão sinais de desaparecer.

Em uma mostra de má sorte, a viagem de Obama, que se encerra em El Salvador, na quarta-feira, foi ofuscada pelo papel de liderança dos EUA nos ataques militares contra a Líbia.

Obama autorizou os ataques quando estava no Brasil, que se absteve na votação da resolução da ONU permitindo a imposição de uma zona de exclusão aérea na Líbia, o que despertou velhas preocupações da América Latina quanto ao uso de força militar por Washington.

Obama assinou acordos de cooperação energética com o Brasil, financiamento de 1 bilhão de dólares para infraestrutura e um plano básico para negociações futuras em comércio.

Isso teria sido impensável alguns meses atrás, quando as relações estavam no seu ponto mais baixo por causa da mediação do Brasil na disputa nuclear com o Irã, uma iniciativa que teve firme oposição de Washington.

Como esperado, não houve nenhum avanço em grandes questões que teriam elevado as relações a um novo patamar, notavelmente conflitos comerciais sobre mercadorias agrícolas e aço e a investida do Brasil para obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

O fosso entre retórica e progresso real também foi sentido no Chile, um queridinho do livre-mercado, onde Obama enfatizou a importância da América Latina como parceiro comercial crucial, mas não ofereceu nenhum plano específico para eliminação de barreiras comerciais.

"'Eu vim, eu vi, eu nada disse', poderia ser o tuíte de Obama hoje", escreveu José Piñera, ex-ministro do Trabalho e irmão do presidente chileno, Sebastián Piñera, no Twitter.

A ofensiva de charme de Obama, que incluiu jogo de futebol com crianças de uma favela do Rio de Janeiro, confirmou sua popularidade entre muitos latino-americanos, mas não combinou com as imagens dos aviões de guerra dos EUA bombardeando outra vez alvos no mundo árabe.

O presidente nicaraguense, Daniel Ortega, um dos vários inimigos esquerdistas dos EUA na região, disse que os ataques mostraram que não se pode confiar na retórica de Obama sobre um novo começo para as relações com a América Latina.

"Como o presidente Obama pode nos pedir para esquecer aquele passado se ele está tão fresco e se pode ser repetido, porque nós o estamos vendo agora na Líbia?", disse Ortega, cujo governo de esquerda nos anos 1980 combateu em uma brutal guerra civil os rebeldes Contra, financiados pelos EUA.

Apenas algumas horas depois que o avião presidencial, o Air Force One, partiu do Rio para o Chile, o Brasil pediu o cessar-fogo na Líbia e diálogo apoiado pela ONU para pôr fim à violência lá.

A falta de progresso em um acordo comercial EUA-Colômbia, que está estancado, e o embargo de décadas dos norte-americanos contra Cuba serão vistos em boa parte da América Latina como mais um sinal dos limites da oferta de Obama de uma "nova era de parceria."

PROGRESSO DO BRASIL

A viagem de dois dias ao Brasil marcou um importante degelo nas relações com a maior economia da América Latina e mostrou sinais de que Obama e a presidente Dilma Rousseff estabeleceram um vínculo pessoal.

Autoridades de alto escalão dos dois lados disseram que o contato abriu caminho para progresso de fato nos meses e anos que virão.

"A parte mais crítica é que Dilma pode agora pegar o telefone e ligar para Obama porque eles estabeleceram um bom relacionamento pessoal", disse uma alta autoridade do governo.

"Eles se entenderam, eles se deram bem. Isso será de enorme ajuda em quaisquer assuntos que possam ser difíceis."

Autoridades brasileiras viram um aspeto positivo no apoio limitado de Obama ao empenho do Brasil para obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, dizendo que seu consistente elogio ao status ascendente do país o colocou na mesma categoria de China e Índia.

O tom ficou muito distante das tensas relações com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se distanciou de Washington ao buscar laços mais estreitos com Irã, Venezuela e outros governos antiamericanos nos últimos anos.

Ainda assim, nem Obama nem Dilma deixaram de expressar publicamente alguns antigos desentendimentos, que sugerem armadilhas em potencial para a nova amizade.

Obama se queixou de que há obstáculos demais para fazer negócios no Brasil, enquanto Dilma criticou as barreiras comerciais dos EUA para o aço e produtos agrícolas. Ela também disse que a política monetária expansionista de Washington está alimentando distorções mundiais nas moedas e o protecionismo comercial.

"Senhor presidente, se queremos construir um relacionamento mais profundo, nós também precisamos lidar francamente com nossos desentendimentos", disse Dilma, ao lado de Obama.

Depois de uma reunião com o secretário de Comércio dos EUA, Gary Locke, líderes empresariais brasileiros expressaram frustração com a falta de progresso em lidar com a piora da balança comercial do Brasil com os EUA.

"A reaproximação diplomática é importante, mas ninguém enche a barriga com boa vontade. Nós esperamos uma aproximação mais concreta do governo americano", disse Carlos Cavalcanti, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Até que essas diferenças sejam superadas, é improvável que o Brasil e os Estados Unidos possam unir forças para enfrentar a competição comercial da China.

"Assim que estabelecermos laços econômicos e comerciais mais estreitos, nós poderemos lidar com a Ásia", disse Marco Aurélio Garcia, conselheiro de Dilma em política externa.

(Reportagem adicional de Simon Gardner e Brad Haynes, em Santiago; e de Brian Winter, em São Paulo)

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