ANÁLISE-Voto do Brasil contra Irã indica reaproximação com EUA

O apoio do Brasil para uma investigação da ONU sobre direitos humanos no Irã confirma uma importante virada na linha da política externa no governo da presidente Dilma Rousseff e abre caminho para laços mais próximos com os Estados Unidos.

RAYMOND COLITT, REUTERS

25 de março de 2011 | 18h19

O Brasil vai manter sua política externa independente, o que provavelmente resultará em tensões permanentes com Washington em questões espinhosas, como comércio e representação em instituições internacionais.

Mas o voto de quinta-feira na ONU indica que os dois países estão agora mais afinados sobre o peso dos direitos humanos em política externa e provavelmente não vão repetir o esfriamento das relações ocorrido no ano passado por causa da amistosa posição do Brasil para com o Irã.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva conduziu uma campanha diplomática, no período de cerca de um ano antes deixar o cargo, para mediar a questão do programa nuclear do Irã, o que irritou os EUA e outras potências ocidentais.

Quarta maior democracia do mundo, o Brasil se alinhou nos últimos anos com países conduzidos por um só partido, como a China e Cuba, em votações na ONU, protegendo assim governos acusados de violações de direitos.

Mas Dilma deixou claro logo que tomou posse, em 1o de janeiro, que mudar a posição brasileira em direitos humanos era uma prioridade.

Em seu primeiro grande rompimento com a visão política de Lula, ela criticou as abstenções do Brasil em votações de resoluções da ONU sobre a situação dos direitos humanos no Irã.

"A posição não tem como objetivo agradar aos Estados Unidos, como alguns estão dizendo. É o resultado de convicções pessoais da presidente sobre direitos humanos", disse Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro nos EUA.

Dilma, que na semana passada se encontrou com o presidente dos EUA, Barack Obama, durante a viagem dele pela América Latina, também deu sinais de uma mudança mais ampla em política externa, no sentido de estabelecer laços mais calorosos com Washington - a quem Lula costumava com frequência culpar por males mundiais.

O voto do Brasil na ONU consolida a melhoria das relações e pode até levar ao apoio à campanha do Brasil para obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Na semana passada, Obama elogiou efusivamente o papel do Brasil como ator global fundamental, embora não tenha chegado a expressar apoio ao assento no Conselho.

ABALOS COM A CHINA

Nesta sexta-feira, todos os grandes jornais brasileiros destacaram na primeira página a posição do governo de Dilma no voto sobre o Irã.

A nova ênfase do Brasil em direitos humanos corre o risco de provocar o esfriamento das relações com seu principal parceiro comercial, a China, um dos sete países (incluindo Cuba e Rússia) que votaram contra a investigação da ONU sobre o Irã.

Os vínculos do Brasil com a China, que Dilma vai visitar em abril para participar de uma cúpula de economias emergentes, já ficaram estremecidas nos últimos meses com o aumento das queixas das fábricas brasileiras de manufaturados pela inundação de produtos importados chineses com preços baixos.

A maior economia da América Latina, que se projetou como um país líder no mundo em desenvolvimento em questões como comércio e meio ambiente, não se tornou de modo algum um aliado incondicional dos EUA.

O Brasil se recusou a apoiar a resolução da ONU que autorizou o uso da força na Líbia. E poucas horas depois de o Air Force One, o avião da Presidência dos EUA, levantar voo do Rio de Janeiro para o Chile, o Brasil pediu um cessar-fogo na Líbia e diálogo apoiado pela ONU para pôr fim à violência nesse país.

"Certamente este voto vai facilitar o diálogo e reconstruir a confiança de Washington", disse Julia Sweig, diretora para Estudos da América Latina no Conselho de Relações Exteriores, instituição com sede em Washington. "Mas não acho que o Brasil vá abandonar de repente sua independência em política externa."

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