ANÁLISE-Voto em Obama surpreende observadores da questão racial

O súbito favoritismoconferido a Barack Obama entre os pré-candidatos democratas àCasa Branca abre o que pode ser um novo capitulo nas relaçõesraciais nos Estados Unidos. Observadores dessa questão consideram que, por maispassageira que possa ser, a vitória dele no caucus da semanapassada em Iowa, um Estado majoritariamente branco e rural,destrói as premissas vigentes sobre a participação dos negrosna política nacional dos EUA. O senador espera se tornar o primeiro presidente negro dosEstados Unidos, e vários comentaristas admitem que o entusiasmogerado pela candidatura dele os leva a rever seu ceticismosobre as relações entre negros e brancos. "Obama saiu do roteiro, e estamos em mares nunca dantesnavegados", disse William Jelani Cobb, professor de História dafaculdade Spelman, de Atlanta, e autor de um recente livro deensaios sobre a cultura negra contemporânea. Obama, de 46 anos, agora aparece à frente da tambémsenadora Hillary Clinton, 60, nas pesquisas de New Hampshire,que realiza suas eleições primárias na terça-feira. Para Cobb, a vitória de Obama em Iowa já foi marcanteporque normalmente os negros conseguem espaço em camposdominados por brancos quando oferecem continuidade em vez dereforma --não é o caso de Obama, que tem na palavra "mudança" oprincipal mote da sua campanha. DESIGUALDADES Os negros representam 13 por cento da populaçãonorte-americana, e a grande desigualdade entre as raças desafiaa noção de que os EUA são a terra das oportunidades. Em geral, os afro-americanos têm maior mortalidade, menorexpectativa de vida, e maior probabilidade de serem presos econdenados. Apesar do surgimento de uma classe média negradesde a década de 1960, a renda desse grupo continua sendomenor. Na opinião de analistas e eleitores, o apelo de Obama entreos brancos deriva em parte da sua origem multicultural --éfilho de uma norte-americana branca e de um pai queniano, ecresceu no Havaí e na Indonésia. Isso, junto com sua mensagem otimista, o separa de outrospolíticos negros e o ajuda a não parecer ameaçador, de modo quemuitos eleitores brancos viram sua vitória em Iowa não como umaameaça, e sim como uma história de superação. "Ele não parece estar vendo (a campanha) do ponto de vistade se tornar o primeiro presidente negro. Ele só quer que aspessoas votem nele por ser o candidato certo", disse FrancisCharfauros, gerente de um café em Scottsdale, Arizona. Obama segue o exemplo do governador de Massachusetts, DevalPatrick, e de outros políticos negros que, ao disputar cargos,se distanciavam de ativistas como Al Sharpton e Jesse Jackson,que adotam a justiça racial como seu principal tema. "Ele (Obama) não é de falar em chamas e enxofre, como JesseJackson e Al Sharpton. Ele é um indivíduo como o resto de nós.Nem lembro que ele é negro. Olho para ele como indivíduo. Eleparece inteligente e exala bastante confiança", disse AlBourque, aposentado branco que vive em Portsmouth, NewHampshire, e antes cogitara apoiar Hillary Clinton. "NEUTRALIDADE RACIAL" Um efeito dessa "neutralidade racial" é que os eleitorespodem considerá-lo uma opção, segundo o analista Earl OfariHutchinson, autor de livros sobre raça e política. "Obama é capaz de se elevar até o público norte-americanomais amplo. Sempre houve essa coisa do excepcionalismo negro,de pegar e elevar alguns afro-americanos e dizer: 'Você édiferente, você é articulado, inteligente'." Depois de New Hampshire, na terça-feira, a próxima primáriademocrata será na Carolina do Sul, onde há uma grandecomunidade negra, que tradicionalmente vota nos democratas.Hillary construiu uma sólida base de apoio nesse grupo. O sul dos EUA viveu até a década de 1960 um brutal regimede segregação racial, e há mais de um século nenhum negro éeleito senador na região. De acordo com analistas, alguns líderes negros mais velhosrelutam em apoiar Obama, por considerar Hillary e outros"brancos progressistas" como o melhor caminho para osinteresses afro-americanos. Já entre os negros mais jovens, atendência é de apoio ao senador. Mas ele pode ter dificuldades junto a eleitores brancos dosul e de partes do país onde há mais presença negra do que emIowa e New Hampshire. "Conforme há um número maior de negrosnuma comunidade, surgem tensões e divisões raciais, e asatitudes raciais se endurecem", disse Juan Williams, autor delivros e filmes sobre a história negra. "Obama está nos dandouma brilhante demonstração de progresso nas relações raciais,mas sugerir que este sucesso é uma prova de que a raça já não émais uma questão é algo ingênuo ou enganador", afirmou. (Reportagem de Mark Egan e Fred Katayama, em New Hampshire,Andrea Hopkins, em Cincinnati, Peter Bohan, em Chicago e TimGaynor, em Phoenix)

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