Artigo: Após um ano no poder, falta ação concreta a Obama

Um ano atrás, a América Latina estava empolgada com a posse do presidente Barack Obama. Sob o signo da mudança imaginava-se que as relações interamericanas se tornariam menos hostis, era natural que houvesse esperança, haja vista a comparação com seu antecessor. Apesar dos crescentes índices de criminalidade, a América Latina está em paz, as armas nucleares não são uma preocupação e a maioria dos países é liderada por presidentes eleitos democraticamente. A ascensão do antiamericanismo na região não traz impactos significativos, pois o venezuelano Hugo Chávez não deixou de vender petróleo para os EUA e o presidente equatoriano, Rafael Correa, mantém o dólar como moeda nacional do seu país. Portanto, em princípio, com exceção da Europa, é a região que oferece a Obama a melhor chance de praticar o tipo de diplomacia cooperativa que ele definiu como meta de sua administração.

Reginaldo Mattar Nasser ,

16 de janeiro de 2010 | 19h38

Desde que assumiu o cargo, Obama, tem manifestado a intenção de articular uma política para a América Latina centrada na ideia de parceria, sem que houvesse "nenhum parceiro sênior ou júnior para o novo compromisso". Muito embora as palavras e os símbolos sejam importantes para preparar o terreno para a posterior aplicação da política externa, até o momento, suas declarações não têm sido acompanhadas de ações mais concretas.

 

A atitude de "ouvir e aprender", não vai eliminar expectativas em torno de uma agenda extremamente ambiciosa para a "futura era da cooperação". O combate à pobreza, as alternativas energéticas, a guerra contra as drogas e o respeito aos direitos humanos são algumas das questões mais prementes, mas a arquitetura fundamental da vida política da região tem como base a capacidade de resposta democrática às crises políticas e sociais e na observância de acordos internacionais.

O episódio de Honduras veio testar a posição do governo Obama para a América Latina e seu compromisso com o multilateralismo. Desde o início, sua administração condenou a deposição do presidente Manuel Zelaya como um ato antidemocrático que poderia proporcionar precedentes terríveis. Tais declarações tiveram como objetivo resgatar a credibilidade dos EUA na América Latina e foram muito bem acolhidas pela região. Os EUA manifestaram claramente que não estão mais dispostos a intervir diretamente escolhendo quem governa. Até o momento Obama manteve uma atitude prudente, de meio termo, que procura combinar posições de princípio com negociação mais pragmática. Os EUA foram o único país a manter seu embaixador em Tegucigalpa e se recusaram a aventar qualquer tipo de sanção para forçar o governo de Honduras a uma negociação. Com isso, Obama, corre o risco de passar a impressão de fraqueza e ambivalência. Portanto, precisa, urgentemente, de formular uma doutrina que possa vincular os elementos díspares de seu programa para guiar suas decisões, distinguindo entre as questões que são propriamente parte da política interna de um país e aquelas que impliquem violação dos regimes internacionais.

Os discursos de Obama demonstram uma clara consciência dos problemas internacionais com um forte poder de convencimento da opinião pública. Mas, de acordo com a perspicaz observação do professor Leslie H. Gelb, seus discursos também dão a impressão de que confunde a dimensão puramente lógica da política com as artimanhas e idiossincrasias dos atores no mundo real das relações internacionais. Trata-se, na verdade, de uma ilusão que não é peculiar a Obama e reflete a crença de que os americanos podem conseguir superar quaisquer adversidades do ambiente internacional desde que empreguem recursos suficientes com empenho e inteligência.

*Reginaldo Mattar Nasser é professor de Relações Internacionais da PUC-SP e da FECAP e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os EUA

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