Massachusetts States Police/Reuters
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Ataque amplia pressão nos EUA para tratar preso como ‘combatente inimigo’

Congressistas e militares insistem que acusados de terrorismo, mesmo que sejam cidadãos americanos, não devem ter as garantias regulares da Justiça do país

Denise Chrispim Marin ENVIADA ESPECIAL / BOSTON,

20 de abril de 2013 | 16h07

Preso e hospitalizado na noite de sexta-feira, Dzhokhar Tsarnaev, americano de origem chechena, deverá perder seu direito de manter-se calado e de ter advogado a seu lado durante os interrogatórios. Sob a pressão de veteranos senadores, o governo de Barack Obama resistia até ontem a declará-lo como “combatente inimigo”, tratamento usado especialmente para acusados de terrorismo depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 e banido em 2009. 

 

O jovem de 19 anos é suspeito de ser coautor das duas explosões na Maratona de Boston, que causaram a morte de 3 pessoas e ferimentos em outras 176 no último dia 15, e de ter matado um policial.

Dzhokhar Tsarnaev rendeu-se ao final de 22 horas de perseguição policial pelas ruas de Cambridge e de Watertown, cidades do subúrbio de Boston. Estava escondido em um barco estacionado num reboque no quintal de uma casa.

 

Seu irmão Tamerlan, de 26 anos, havia morrido em violento confronto com a polícia na noite anterior. Em circunstâncias normais, Dzhokhar ouviria as acusações de um juiz ainda ontem. Mas estava internado, recuperando-se de ferimentos graves.

 

A qualificação de Dzhokhar como “combatente inimigo” reacende uma controvérsia nos EUA, que a aplicou na década passada aos suspeitos de envolvimento com a organização terrorista Al-Qaeda.

 

Se essa opção vier a prevalecer, ele será submetido a uma corte militar, como acontece aos detidos em Guantánamo. Embora Obama tenha identificado claramente Dzhokhar como “terrorista” em seus pronunciamentos sobre a tragédia de Boston, setores da Casa Branca resistem à aplicação do termo “combatente inimigo” e defendem que o caso seja tratado como uma exceção de segurança pública.

A razão dessa cautela está no fato de Dzhokhar ser um cidadão americano, mesmo que há apenas sete meses. Como caso de exceção de segurança pública, ele responderia a um tribunal federal, em vez de submeter-se a uma corte estadual. 

 

“A minha jornada está começando”, adiantou-se Carmen Ortiz, promotora federal em Boston.

As investigações em curso deverão indicar os rumos do processo judicial. Se for comprovado que os irmãos Tsarnaev receberam apoio de organizações extremistas do exterior, será mais difícil para o governo Obama evitar que Dzhokhar seja qualificado como “combatente inimigo”.

 

O senador republicano John McCain, candidato derrotado por Obama em 2008 e ex-prisioneiro de guerra no Vietnã, insistiu que esse não é um caso comum e defendeu essa qualificação. Para seu colega Lindsey Graham, também da oposição, a tragédia provou que o campo de batalha do terrorismo não está exclusivamente no exterior, mas também nos EUA.

 

“O país é um campo de batalha porque os terroristas pensam assim”, disse Graham à imprensa. “A última coisa que nós podemos fazer é ler para esse suspeito os seus direitos de permanecer calado. Espero que o governo pelo menos considere manter o suspeito como combatente inimigo para propósitos de inteligência.”

 

Defensora de primeira hora do governo Obama, a senadora democrata Dianne Feinstein, insistiu em um julgamento federal, em vez de corte militar. “Os tribunais federais têm 400 casos de sucesso em julgamento, enquanto as comissões federais têm menos de meia dúzia”, argumentou.

 

O FBI prosseguia ontem com as investigações sobre o atentado, especialmente sobre as possíveis conexões domésticas ou com organizações terroristas dos irmãos Tsarnaev. Na casa deles, em uma tranquila vizinhança de estudantes e trabalhadores em Cambrige, a polícia encontrou “significativa quantidade” de explosivos caseiros.

 

Alguns desses artefatos haviam sido atirados por eles contra a polícia durante a perseguição.

Na sexta-feira, três suspeitos foram detidos para interrogatório pelo FBI na cidade de Bedford, a 35 km de Boston. A identidade deles não foi divulgada.

 

Talerman Tsarnaev chegou a ser interrogado pelo FBI em 2011 ao retornar aos EUA, depois de seis meses na Rússia.

 

De Moscou, o governo de Vladimir Putin ofereceu ajuda e pediu a Washington informações sobre o andamento das investigações, cioso igualmente de conhecer se os irmãos estavam relacionados a grupos extremistas chechenos. Obama conversara com Putin na sexta-feira. A Casa Branca indicou que ambos os governos já estavam cooperando durante as buscas pelos autores da tragédia.

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