Claudia Trevisan/Estadão
Claudia Trevisan/Estadão

Bairro onde Gray morreu é o retrato do abandono social

Os negros são maioria em Sandtown-Winchester, em Baltimore, que tem um elevado número de desempregados e presos

Cláudia Trevisan, Enviada Especial

10 de maio de 2015 | 03h00

BALTIMORE - Harold Perry não exagera quando usa a palavra “gueto” para descrever o bairro onde vive em Baltimore, o mesmo em que Freddie Gray nasceu e morou até morrer sob custódia da polícia em 19 de abril. Em Sandtown-Winchester, 97% dos habitantes são negros, imersos em alguns dos piores indicadores sociais dos Estados Unidos, entre os quais uma expectativa de vida comparável à da Coreia do Norte.

Gray era o retrato do ciclo vicioso de pobreza, encontros com a polícia e encarceramento que marca a vida de muitos jovens negros da vizinhança. Até sua morte, com 25 anos, ele havia sido detido 18 vezes, a maioria das quais por posse e venda de drogas. Em uma das ocasiões, cumpriu pena de 2 anos.


A escassez de oportunidades que afeta os moradores de Sandtown-Winchester é visível no grande número de casas abandonadas, na quantidade de lixo nas ruas, na ausência de supermercados e restaurantes e na profusão de homens desocupados. O desemprego é de 23%, mais de quatro vezes a média nacional; 32% das famílias e 47% das crianças vivem abaixo da linha da pobreza, de acordo com dados da Baltimore Neighbordhood Indicators Alliance, da Universidade de Baltimore. Entre os adultos, 10,4% estão na prisão ou em liberdade condicional. O índice é o dobro do registrado na cidade e supera em muito os 2,8% de todos os EUA. 

Com 34% de suas casas vazias e abandonadas, Sandtown-Winchester tem um cenário bem mais desolador que o de Ferguson, onde a morte do jovem negro Michael Brown, em agosto, marcou o início da atual onda de tensão racial e protestos contra a violência policial nos EUA. 

“Vivo aqui há dez anos e nunca vi uma única construção, nada novo”, disse Perry, que mora em frente ao local onde Gray foi preso, em 12 de abril. Colocado em um camburão quando gritava de dor, ele teve sua coluna vertebral fraturada em algum momento no trajeto até a delegacia, entrou em coma e morreu uma semana depois. Seis oficiais foram suspensos e acusados de distintos crimes no episódio. Três deles são negros, entre os quais o motorista do camburão, Caesar Goodson.

Amigo de Gray desde a infância, Guan não quis dizer seu sobrenome à reportagem do Estado, mas concordou em ser fotografado. Quando ele tinha 14 anos, sua mãe, Michele, foi atingida por uma bala perdida, ficou paraplégica e morreu um ano mais tarde, de pneumonia. O nome dela está tatuado do lado esquerdo do pescoço de Guan, que hoje tem 27 anos. 

Como muitos dos homens de Sandtown-Winchester, ele teve mais de um encontro com a polícia, o mais recente no ano passado. Guan sustenta ter sido vítima de uma armação por ter presenciado uma cena de agressão policial contra um suspeito. Segundo ele, policias “plantaram” cocaína em seus pertences durante revista na casa de sua namorada. Como estava em liberdade provisória por outra infração cometida há três anos, ficou detido 45 dias. No fim, o caso acabou arquivado. 

“Se você é um jovem negro andando na vizinhança, você é um suspeito aos olhos da polícia”, afirmou Guan, que está sem trabalhar há dois meses. Com segundo grau completo e curso profissionalizante, ele costuma ser contratado para obras de construção e se queixa da instabilidade. “Precisamos de empregos que tenham constância. Isso é raro por aqui.”

Guan lembra do amigo que morreu como um jovem divertido, doce, de fala mansa e de sucesso com o sexo oposto. “Freddie adorava mulheres. Ele gastava todo seu dinheiro com mulheres.” Gray e suas duas irmãs sobreviviam em parte de indenização obtida há cinco anos em processo no qual alegaram ter sido contaminados pelo chumbo usado na pintura das casas em que passaram suas infâncias – algo comum em Baltimore.

O produto químico pode afetar a habilidade de aprendizado e reduzir a capacidade de atenção, problemas que Gray disse ter enfrentado, segundo seus depoimentos no processo. Sua mãe, Gloria Darden, admitiu ter sido usuária de heroína e disse que não sabia ler. Com a atenção gerada pela morte de Gray, Guan tem esperança de que as coisas melhorem. “Muita gente está tentando ajudar. Há razões para sermos otimistas.”

Viver em Baltimore reduz chances de ascensão social. O sentimento de estar aprisionado na pobreza não é apenas uma percepção subjetiva de muitos moradores dos bairros abandonados de Baltimore. Estudo de dois economistas de Harvard divulgado em abril coloca a cidade em último lugar em uma classificação das cem maiores áreas urbanas dos EUA de acordo com as chances de ascensão social de crianças de famílias pobres.

Raj Chetty e Nathaniel Hendren analisaram dados de 5 milhões de pessoas e concluíram que cada ano de vida passado em Baltimore durante o crescimento reduz em 0,86% a renda adulta em relação à média nacional. Isso significa que aos 20 anos, uma pessoa que passou a infância e juventude em Baltimore ganhará 17% menos que a média do país. E Sandtown-Winchester, onde Freddie Gray nasceu e cresceu, está entre os bairros com piores indicadores sociais da cidade. Segundo os economistas, o impacto da região onde a criança cresce sobre sua mobilidade social é mais acentuado sobre os meninos do que meninas. No caso de Baltimore, cada ano que um homem passa na cidade durante o crescimento reduz sua renda em 1,39%. Aos 20 anos, ele terá um renda 27,5% menor que a média nacional, diz o estudo. Para as mulheres, a queda é de 0,27% ao ano.

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