Bush é mais 'catastrófico' do que Nixon, diz Carl Bernstein

Em São Paulo, jornalista do caso Watergate afirma que sistema político americano 'falha' na era Bush

Daniela Milanese, Agência Estado,

26 de setembro de 2007 | 16h56

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, é mais "catastrófico" para o país e para o mundo hoje do que foi Richard Nixon, o ex-presidente republicano que renunciou ao cargo em 1974 em decorrência do escândalo Watergate.  A avaliação é do jornalista americano Carl Bernstein, que acompanhou de perto a queda de Nixon. Ele e o colega Robert Woodward, ambos do jornal The Washington Post na época, trouxeram à tona o envolvimento do ex-presidente no esquema de espionagem montado contra o Partido Democrata meses antes das eleições presidenciais. "O sistema respondeu e funcionou na época do Watergate", disse Bernstein durante palestra nesta quarta-feira, 26, na Câmara Americana de Comércio (Amcham), em São Paulo. "Na era Bush, vimos que o sistema falhou." Ele se refere à atuação da imprensa, da Justiça e do Congresso nesses dois momentos da política americana. A partir das denúncias apuradas pelo Washington Post, outras esferas da sociedade passaram a se envolver no assunto e tomar posições. O Senado abriu uma investigação para levantar o envolvimento de Nixon e a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que o então presidente tinha de se submeter às leis americanas - até que os próprios republicanos deixaram de dar suporte ao político. "Não que o país estivesse pronto desde o início, mas cada um fez a sua parte." Para o jornalista, isso não está acontecendo atualmente nos EUA. "Nosso Congresso é um desastre, os políticos passam muito tempo brigando entre eles", afirmou. "E os democratas, que possuem maioria no Congresso, não têm coragem de pedir o impeachment do presidente, que continua com a guerra contra o Iraque." Bernstein avalia que essa postura dos políticos se deve à armadilha criada pelo atual sistema de financiamento das campanhas eleitorais. Segundo ele, uma campanha para senador custa hoje US$ 100 milhões. Os políticos fazem grande esforço para levantar essa quantia de dinheiro e depois ficam amarrados aos doadores - com muita dificuldade para resistir às causas e preocupações daqueles que deram os recursos. "O dinheiro virou a força dominante do sistema. Não dá para representar o povo dessa forma." Política brasileira O jornalista defende o financiamento público das campanhas, não só para os Estados Unidos, mas para "todos os países". Com essa frase, foi o mais perto que chegou de uma sugestão para os atuais problemas da política brasileira. Apesar de bastante estimulado pela platéia que ouviu sua palestra na Amcham, Bernstein se recusou a fazer qualquer comentário sobre as denúncias ligadas ao esquema do Mensalão ou aos problemas de financiamento de campanhas também existentes no Brasil. "Não sei o suficiente sobre o assunto", repetiu aos ouvintes. Em sua quarta visita ao Brasil, aos 63 anos, o que prevaleceu foram às críticas ao governo Bush. Na avaliação dele, em nome da luta contra o terrorismo, o presidente americano adotou políticas inconstitucionais. E, como jornalista, sai em defesa da imprensa, ao defini-la como "a instituição que hoje está fazendo a sua parte nos Estados Unidos". Conforme Bernstein, é pela imprensa que a população americana fica sabendo das razões ideológicas de Bush na guerra contra o Iraque, da inexistência das armas de destruição em massa que no início justificaram a invasão ao país e dos abusos cometidos. Apesar disso, reconhece que a mídia americana falhou em não detectar logo de início as intenções do presidente ao começar o conflito. "A imprensa precisa dar a melhor versão da verdade."

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