Câncer põe fim a trajetória do 'último Kennedy'

Senador democrata Ted Kennedy morre aos 77 anos após luta contra o câncer cerebral

26 de agosto de 2009 | 10h00

  

Ted Kennedy acena ao deixar hospital em Massachusetts em maio de 2008. Foto: Reuters

 

 

WASHINGTON - Edward Kennedy, o último sobrevivente dos três irmãos da dinastia que deixaram um legado histórico nas últimas décadas da política americana, morreu de câncer aos 77 anos na terça-feira, 25. Com uma carreira de quase meio século no Senado, Ted Kennedy foi uma voz dominante nas discussões sobre saúde pública, direitos civis, guerra e paz, entre outros assuntos. Para o público dos EUA, porém, ele ficou mais conhecido como o último sobrevivente de uma família de políticos progressistas.

 

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Como segundo senador mais antigo dos EUA e um dos maiores ícones liberais do Partido Democrata, Ted Kennedy participou da elaboração de políticas "que afetaram virtualmente todo homem, mulher e criança" do país, segundo definição da revista americana Times, em 2006. Por duas vezes, em 1972 e 1976, Ted Kennedy se negou a concorrer a presidência, apesar do clamor do Partido Democrata. Ele alegava razões familiares para não se candidatar, lembrando o assassinato de seus dois irmãos, John e Robert Kennedy.

 

Ted Kennedy nasceu em Boston, na costa leste americana, em 1932, o mais novo de uma rica família de origem irlandesa com um pé na política. Seu pai, Joseph P. Kennedy, foi embaixador americano na Grã-Bretanha antes da Segunda Guerra Mundial. Ted frequentou escolas privadas e foi admitido na prestigiada universidade de Harvard em 1950 - de onde foi expulso um ano depois por tentar burlar as regras durante uma prova de línguas. Foi readmitido e finalmente se graduou em Direito em 1956.

 

Em 1960, quando o então senador John F. Kennedy foi eleito presidente dos Estados Unidos, Edward era demasiado jovem para se candidatar à cadeira do irmão pelo estado de Massachusetts. Uma brecha na Constituição permitiu que a família conseguisse suspender até 1962 a realização de uma nova eleição, possibilitando o primeiro mandato de Edward Kennedy na câmara baixa americana. A medida suscitou acusações de que o caçula dos Kennedy tivesse ganhado de bandeja a sua vaga. Mas as dúvidas sobre seu mérito próprio nesse quesito seriam dirimidas pelas sete reeleições consecutivas, que tornaram Edward Kennedy um dos três senadores com mais tempo de casa no Congresso americano.

 

 
 Foto: AP
John F. Kennedy (esq), Robert Kennedy e Ted Kennedy (dir)

Tragédia

 

Foi um dramático evento pessoal - condizente com o histórico de tragédias que marcaram a família Kennedy - que reduziu as ambições de Ted Kennedy em relação ao posto mais alto da política americana, no momento em que ele se tornara o Kennedy mais proeminente.

 

Cerca de um ano após a morte de Robert Kennedy, em julho de 1969, o senador Ted estava em uma festa na ilha de Chappaquiddick com um grupo que incluía seis mulheres que haviam trabalhado na campanha de seu irmão. A determinada altura, Kennedy deixou a festa para supostamente levar a ex-secretária de seu irmão, Mary Jo Kopechene, para pegar o barco de volta para o continente. No meio do caminho, o carro bateu e caiu na água.

 

Kennedy conseguiu escapar e nadar para a borda, e retornou ao seu hotel sem dar parte do acidente. Só no dia seguinte pescadores encontraram o carro submergido, com o corpo de Mary Jo Kopechene ainda dentro. No inquérito subsequente, houve evidências de que a mulher tivesse permanecido viva por muitas horas dentro de uma bolha de ar, e de que pudesse ter escapado tivesse o senador pedido ajuda a tempo. Kennedy assumiu a culpa por deixar a cena do crime, alegando que estava em choque. Foi condenado a dois meses de prisão condicional. Questionamentos mais sérios sobre a conduta de Ted Kennedy e a veracidade de sua versão nunca foram levados adiante.

 

Em 1980, quando finalmente aceitou concorrer à Presidência, foi derrotado por Jimmy Carter nas prévias do Partido Democrata. Acredita-se que a derrota tenha sido profundamente influenciada pelo incidente em Chappaquiddick. Mas uma campanha má gerenciada e uma entrevista sem brilho na televisão encerraram as ambições do pré-candidato. Ele se recusou a admitir a derrota e gerou na convenção democrata daquele ano uma notória divisão partidária.

 

A mal-sucedida investida presidencial fez Ted Kennedy voltar ao Senado como um defensor das causas liberais. Apesar do seu histórico católico, ele abraçou a causa feminista pelo direito ao aborto. Também compôs um grupo de senadores que defendeu o casamento entre pessoas do mesmo sexo, uma ideia cujo marco teórico foi desenvolvido em caráter pioneiro no seu Estado natal, Massachusetts. Ted Kennedy defendeu os direitos dos imigrantes nos EUA e o controle sobre a posse de armas.

 

Política externa

 

Segundo a BBC, seu impacto na política externa americana foi menos frequente. Nas poucas vezes em que se pronunciou - e se fez ouvir - ele liderou os esforços dentro do Congresso americano para proibir a venda de armas para o regime de Augusto Pinochet no Chile e para impor sanções à África do Sul da era do Apartheid, denunciou a guerra do Vietnã e trabalhou pela paz na Irlanda do Norte. Em 2002, ele votou contra a guerra do Iraque - atitude que descreveu depois como "o meu melhor voto em 44 anos no Senado americano".

 

Em 2006 a revista Times considerou-o como um dos "dez melhores senadores americanos" pelo que chamou de "histórico titânico de legislação, que afeta as vidas de praticamente todo homem, mulher e criança no país".

 

Mais recentemente, Edward Kennedy foi uma das vozes mais influentes, sendo um dos primeiro a apoiar a candidatura de Barack Obama à Presidência, afirmando que o atual presidente ofereceria ao país uma chance de "reconciliação racial".

 

Para muitos observadores, se falhou em cumprir as expectativas políticas colocadas pela sua condição de membro de sua dinastia familiar, Edward Kennedy deixou em quase meio século de legislação um legado mais consistente e significativo que seus irmãos.

 

Desde maio do ano passado, quando foi diagnosticado com um tumor cerebral maligno, o senador vinha lutando contra o câncer. ma das manifestações dramáticas da sua luta se deu no início deste ano, durante o almoço de posse de Obama, quando ele teve uma convulsão e foi levado de maca para um hospital.

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