Cerco à CIA por interrogatório acirra disputa política nos EUA

Conservadores e liberais veem motivações diferentes para investigações sobre abusos do governo Bush

Roberto Simon, O Estado de S. Paulo

25 de agosto de 2009 | 09h06

Mais do que as possíveis consequências de uma investigação criminal contra agentes da CIA que atuaram na guerra ao terror, os motivos que levaram o governo Barack Obama ao inquérito iniciaram uma violenta troca de tiros em Washington. De um lado, republicanos denunciam uma suposta estratégia da Casa Branca para desviar atenção da reforma do sistema de saúde. De outro, democratas garantem estar à serviço da Constituição dos EUA diante de evidências de violações sistemáticas.

 

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"Obama está brincando com fogo", disse por telefone ao Estado James P. Pinkerton, analista político conservador, que trabalhou nos governos de Ronald Reagan e George H. W. Bush. Para Pinkerton, a investigação tem por objetivo "apaziguar" a esquerda do Partido Democrata, frustrada com as concessões feitas por Obama na negociação da Saúde.

"Pode até ser que o presidente esteja respondendo aos seus princípios. Mas, em relação à opinião pública americana, ele está brincando com fogo", argumenta. "A maioria dos americanos não quer ver o resultado dessas investigações - na verdade, odiaria ter de vê-las."

Para grupos ligados aos democratas, entretanto, a abertura do inquérito mostra que Obama assegura autonomia real ao Departamento de Justiça, como prevê a Constituição. A decisão de investigar agentes e funcionários contratados pela agência de espionagem, portanto, independeria do presidente e não teria nenhuma relação com a disputa na Saúde.

No começo de seu mandato, Obama se mostrou reticente quanto a uma possível condenação de agentes da CIA, muitos dos quais ainda trabalham na agência. O presidente defendera "olhar para frente e não para trás". "Mas (o procurador-geral) Eric Holder tem independência da Casa Branca e, diante de provas contundentes, decidiu agir", disse Lawrence Korb, especialista em segurança do instituto Center for American Progress, próximo ao Partido Democrata.

A situação era a oposta na "era Bush", quando o Departamento de Justiça ficou sufocado pela agenda política do presidente, afirma o especialista.

Obama tampouco pretenderia marginalizar a CIA, como acusam setores do Partido Republicano. "Leon Panetta (indicado por Obama para chefiar a agência de espionagem) é um nome muito forte e ele tem um contato direto com o presidente", afirma Korb.

Questionado sobre o impacto das investigações na opinião pública, o especialista do Center for American Progress minimizou a reação dos americanos. "O público está preocupado com temas como Afeganistão, Guantánamo e agora, sobretudo, com a economia e com a reforma do sistema público de Saúde. Apenas uma parcela pequena dos EUA, a elite, realmente se interessa por essas investigações", disse Korb.

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