CIA ameaçou matar filhos de suspeito de terrorismo

Relatório foi escrito em 2004 e examina o tratamento dispensado pela CIA aos suspeitos de terrorismo

AP e Agências Internacionais,

24 de agosto de 2009 | 17h44

Agentes de CIA ameaçaram assassinar os filhos de um suspeito de terrorismo durante interrogatórios realizados há alguns anos, revela um documento liberado nesta segunda-feira, 24, por autoridades americanas por ordem do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

 

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De acordo com o documento, um interrogador relatou que um colega fez a ameaça a Khalid Sheikh Mohammed, suspeito de participação nos ataques de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos. "Nós vamos matar seus filhos" se novos atentados ocorrerem nos EUA, teria ameaçado o agente segundo o relato divulgado hoje. A ação pela divulgação do documento foi movida pela União Americana de Liberdades Civis.

 

O documento também apresenta o caso de Abd al-Nashiri, que supostamente era o mentor do bombardeio do navio USS Cole em 2000. Ele foi encapuzado, algemado e ameaçado com uma arma descarregada e uma furadeira. O interrogador não identificado também ameaçou a mãe de Nashiri e sua família, deixando implícito que eles seriam abusados sexualmente na sua frente, de acordo com o relatório.

Ameaças de morte violam as leis antitortura e o interrogador negou ter feito qualquer ameaça direta.

 

O relatório da CIA afirma que a furadeira foi posicionada perto da cabeça de al-Nashiri e teria sido ligada e desligada repetidas vezes. Os agentes da CIA ainda teriam lhe mostrado uma arma para fazê-lo acreditar que seria morto. Em um outro caso, uma arma teria sido disparada em uma outra sala para que um detido achasse que outro suspeito havia sido morto.

 

Documentos da CIA já revelados a pedido da ACLU indicam que al-Nashiri foi apenas um dos detidos no centro de detenção de Guantánamo, em Cuba, a serem submetidos a técnicas severas de interrogatório, como o "afogamento". Esta prática foi uma das inúmeras táticas de interrogatório aprovadas pelo Departamento de Justiça Americano em 2002, durante o governo de George W. Bush. O presidente Barack Obama condenou a prática e a qualificou de "tortura".

 

O relatório liberado nesta segunda-feira foi escrito em 2004. O documento examina o tratamento dispensado pela CIA aos suspeitos de terrorismo detidos pelos EUA depois do 11 de Setembro.

 

Os documentos liberados pela CIA afirmam que os investigadores foram longe demais - até mais longe que o autorizado pelos memorandos do Departamento de Justiça que, desde então, foram descartados e desacreditados.

 

"Daqui a dez anos nós vamos nos arrepender por estar fazendo isso, mas deve ser feito", disse um oficial não identificado da CIA no relatório, prevendo que os interrogadores um dia teriam que responder por seus atos.

 

Os documentos dessa segunda representam a maior liberação individual de informação sobre o método uma vez secreto da administração Bush de obtenção de informação com terroristas suspeitos.

 

Em uma ocasião, um interrogador pinçou a artéria carótida de um preso até que ele começasse a desmaiar, então o acordou. Ele fez isso três vezes. O interrogador disse que nunca havia sido instruído sobre como conduzir um interrogatório.

 

Investigadores deram crédito para os métodos de interrogatório pela identificação de planos terroristas e pelo desenvolvimento de inteligência. "Nesse sentido, não há dúvida de que o programa foi eficiente", escreveram os investigadores.

 

Mas não está claro se os métodos de interrogação contribuíram para esse sucesso, de acordo com o relatório. Essas táticas incluem a técnica de simulação de afogamento, que foi usada nos anos 1940 por militares japoneses depois considerados criminosos de guerra e pelo Khmer Rouge, no Camboja, na década de 1970. Um prisioneiro da CIA sofreu o suplício 183 vezes em um mês. Outros métodos incluíam a privação de sono por 11 dias seguidos e duchas a 5 graus Celsius. Medir o sucesso dessas técnicas é um "processo mais subjetivo e não sem alguma preocupação", disse o relatório.

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