EFE/EPA/CRAIG LASSIG
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Confusão marca início de prévias democratas com atraso em divulgação de resultados

Partido democrata não consegue solucionar falhas e piora o caos; atraso foi explicado como 'inconsistências' na forma de cada zona eleitoral reportar números

Beatriz Bulla, enviada especial a Des Moines, EUA

04 de fevereiro de 2020 | 04h58
Atualizado 04 de fevereiro de 2020 | 15h45

A largada democrata na campanha presidencial de 2020 nos Estados Unidos foi marcada por incerteza nesta madrugada, em meio ao atraso na contabilização dos resultados das prévias do partido em Iowa. A razão dos problemas na apuração estava pouco clara até o início da madrugada e a direção estadual do partido falou em "inconsistências" na forma de cada zona eleitoral reportar números. Já passava da meia noite quando o partido afirmou que o vencedor será anunciado nesta terça-feira - sem indicativo de que a divulgação seria realizada antes do amanhecer. 

Linda Nelson, a presidente do comitê democrata do Condado de Pottawattamie, não conseguiu fazer o aplicativo funcionar. E também não conseguiu chegar ao comitê estadual. Então ela escolheu sua próxima melhor opção: o Facebook. “AJUDA!”, ela escreveu, descrevendo como continuava recebendo uma mensagem de erro no aplicativo criado pelo Partido Democrata para relatar os resultados ao comitê partidário de Iowa, o grupo encarregado da grande responsabilidade de iniciar o processo de escolha de um candidato à presidência

Após anos de preparação projetada para evitar o caos e a confusão que atrapalharam os caucus em 2016, e após um planejamento cuidadoso destinado a impedir a disseminação de teorias da conspiração sobre interferência nas eleições, os democratas começaram sua disputa nesta segunda-feira, 3, sob uma nuvem de incerteza e disfunção. Em 2016, 90% dos resultados já eram conhecidos por volta das 22h. Na segunda-feira, 3, nada estava contabilizado no mesmo horário. O Partido Democrata em Iowa informou que não se trata de um caso de hackeamento do sistema ou insegurança. 

Os partidos fazem primárias e caucuses nos Estados para indicar o nome que desejam ver como candidato na eleição presidencial. Iowa, onde vive só 1% dos americanos, é o primeiro Estado a indicar sua preferência para o candidato democrata. Quem larga bem é beneficiado por um efeito cascata em outras prévias. Neste ano, o cenário embolado entre os candidatos já jogaria naturalmente atenção para as próximas três disputas: New Hampshire, Nevada e Carolina do Sul. A falta de divulgação de resultados no tempo esperado acrescentou novo componente de instabilidade.

O voto dos eleitores nas prévias define a quantidade de delegados que cada candidato terá direito na convenção nacional da legenda. Os candidatos passam a ter, na convenção, um número de delegados proporcional ao apoio que tiveram entre os eleitores nos Estados. O nome que obtiver a maioria simples entre os 3.979 delegados do partido na reunião da sigla é o nomeado. Em Iowa, estão em jogo 41 cadeiras de delegado partidário.

Uma série de mudanças foi implementada neste ano, entre elas a necessidade de computar e reportar três dados: o número de apoiadores de cada candidato na primeira e na segunda rodadas de consulta e a proporção de delegados que os candidatos terão direto na convenção partidária. Como Iowa faz suas prévias em formato de caucus - um tipo de assembleia - há possibilidade de um realinhamento dos eleitores em uma segunda rodada de votação.

Muitos recintos eleitorais também abandonaram o uso de um novo aplicativo que foi desenhado para ajudar a tabular os resultados neste ano por dificuldades para entrar no sistema e passaram as informações por telefone, o que também contribuiu para o atraso.

Líderes das campanhas demonstravam receio de que a credibilidade das prévias saísse arranhada e os candidatos, então, não esperaram o resultado para discursar a seus apoiadores. A primeira foi a senadora Amy Kobluchar, que foi seguida imediatamente pelo ex-vice-presidente Joe Biden e pela senadora Elizabeth Warren. Os dois fizeram discursos ao menos tempo, cada um em seu próprio evento. Assim que terminaram, foi Bernie Sanders quem subiu ao palco do hotel Holliday Inn, onde estavam reunidos seus apoiadores, em uma sequência que parecia coordenada entre as campanhas.

"Os resultados serão anunciados em algum momento e quando forem anunciados eu tenho um bom sentimento de que teremos ido muito, muito bem", disse Sanders. Em 2016, o senador perdeu de Hillary Clinton por uma margem apertada no Estado e nos últimos dias figurou como favorito na disputa em Iowa.  "Hoje marca o começo do fim para Donald Trump, o mais perigoso presidente da história moderna dos EUA", completou Sanders.

Depois do senador, foi a vez de Pete Buttigieg se pronunciar. O discurso do ex-prefeito de South Bend (Indiana) era de vitória, o que se tornou uma piada nas redes sociais. Sem saber os resultados, Buttigieg disse estar "no caminho para New Hampshire (onde serão as próximas prévias), no caminho para a nomeação".

A confusão cresceu em dimensão quando, por volta da 1 hora da manhã, as campanhas passaram a divulgar dados não oficiais coletados por seus coordenadores de campanha nos locais de votação. Analistas alertaram para o fato de que os dados eram incompletos e tendenciosos, pois divulgados pelos apoiadores dos políticos. Em um hotel em Des Moines, um grupo de eleitores de Sanders ouvia alguém cantar números lidos na tela de um celular que supostamente apontavam a vitória do senador com 29% dos votos. "Nós vamos ganhar, nós vamos ganhar", gritavam jovens apoiadores do senador.

Iowa previu que os resultados chegariam em algum momento do começo da madrugada de terça-feira, e não houve sugestão de má conduta ou resultado corrompido, mas o atraso significou que os holofotes globais focados em Iowa iluminaram mais um solavanco no funcionamento da democracia americana.

A campanha de Donald Trump imediatamente usou os problemas para atacar a oposição: "Colapso do partido democrata. Eles não conseguem nem dirigir um caucus e querem dirigir um governo. Não, obrigada", escreveu no Twitter o coordenador da campanha à reeleição de Trump, Brad Parscale. 

Trump deve contar com dois fatos positivos entre hoje e amanhã: o discurso do Estado da União nesta terça à noite no Congresso, momento em que o presidente fala sobre as conquistas de seu governo, e a rejeição do impeachment pelos senadores na quarta-feira. Com o atraso na divulgação do nome vitorioso, integrantes de campanhas democratas temem perder um espaço positivo na mídia e no debate público que deveria ser destinado ao partido. / Com NYT

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