Contas no vermelho são parte da herança maldita de Bush

Presidente passa para Barack Obama a difícil missão de reajustar a economia do país em meio à crise inédita

Gabriel Pinheiro, estadao.com.br

19 de janeiro de 2009 | 10h02

Após oito anos de governo, o presidente George W. Bush deixa a Casa Branca com um rombo orçamentário trilionário. O déficit público, que já passa US$ 1,2 trilhão, e a crise econômica sem precedentes serão alguns dos maiores desafios para o próximo presidente, Barack Obama, e a sociedade americana. "A perspectiva de crescimento dos EUA em 2009 é de 1,5 a 2 pontos negativos. Essa é a chamada herança maldita de Bush", disse João Ildebrando Bocchi, professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP).   Veja também: Dez lições de Bush para Obama  TV Estadão: Especialista analisa o fim da Era Bush Confira lista de 'bushismos' ditos nos últimos oito anos   Quando o presidente assumiu a Casa Branca, em 2001, herdou de Bill Clinton um inédito superávit nas contas públicas de cerca de US$ 230 bilhões. "Houve um profundo desajuste entre a era Bush e Clinton", afirma Marcos Fernandes, coordenador pedagógico da escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP). "Houve também uma tentativa atrapalhada de redução de impostos, de certa forma populista para os republicanos. Mas, se pudéssemos resumir, a grande herança ruim é o déficit público considerável, que terá de ser ajustado no início do novo governo."   Segundo Bocchi, historicamente as administrações republicanas são mais conservadoras e reduzem o déficit público, o que se inverteu nas gestões Bush e Clinton. "A partir de 2008, esse déficit se aprofunda, e vai se aprofundar ainda mais em 2009, com todos esses bilhões que estão sendo utilizados para tentar conter os efeitos da recessão", comenta o economista.   Só as guerras do Iraque a Afeganistão, lançadas após os atentados de 11 de Setembro na chamada luta contra o terror, já consumiram mais US$ 900 bilhões, de acordo com um estudo do Center for Strategic and Budgetary Assessments, grupo independente de análise estratégicas de Washington. Os conflitos, que segundo Bush foram necessários para deixar o mundo "mais seguro", complicaram ainda mais as contas públicas americanas.   Reversão   Apesar do cenário atual, Bocchi afirma que o presidente americano poderia ter deixado um legado positivo para seu substituto democrata, Barack Obama, se não fosse o agravamento da situação econômica nos últimos anos de sua gestão. "Quando ele assumiu, em 2001, a economia logo em seguida entrou em recessão. O primeiro mandato foi difícil, complicado. No segundo mandato, os EUA começaram em forte crescimento, e a economia passou a apresentar taxas bem positivas até o início de 2008. Se não fosse a reversão da situação em 2007, seria uma boa herança", explica. "Na era Clinton, o país teve um crescimento médio de 4%. Com a era Bush, 2%."   O professor comenta que hoje não há mais possibilidade de crescimento através de medidas de alavancagem econômica que Bush utilizou, como a bolha das bolsas de valores e inflação do preço dos imóveis. "O grande problema é justamente as consequências desse crescimento extremamente alavancado. O efeito riqueza que havia, com as bolsas de valores atingindo níveis elevadíssimos e a inflação dos ativos imobiliários, acabou. Agora se pode falar no inverso", afirma Bocchi. "Hoje as pessoas estão mais pobres, sentem-se mais pobres, não tem como tomar mais empréstimos e diminuem o consumo."   Crise ensaiada   Para Marcos Fernandes, a crise econômica já se esboçava desde o início da década de 1990. "É injusto dizer que isso foi um problema da era Bush em si. Essa crise tem relação com todo um processo de falta de regulamentação financeira, baseada em um conjunto de crenças de que o mercado poderia se auto regular, que vem desde o início da década. O governo Bush pegou a bomba explodindo", disse o economista.   Apesar das pesadas intervenções econômicas do governo Bush para tentar reanimar o mercado no fim de governo, a má fase ainda deve continuar. "Esse volume imenso de recursos, estimado em US$ 1,5 trilhão, é para tentar segurar o sistema financeiro, mas os buracos são cada vez maiores, e ainda não se chegou ao fundo do poço", avalia Bocchi. "Sem crédito, o consumo despenca, e no PIB americano 70% é consumo. É essa equação que está em cheque."

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